Os Ativistas de Copacabana (comédia)

 

Filhos de um dos casais mais tradicionais de Belém nos anos 1960,  mudaram-se para o Rio de Janeiro na virada do milênio, buscando novos ares e horizontes. Achavam tudo por aqui muito provinciano, queriam mais e mais e Belém era pequena – uma aldeia – para tanto ego.

A mãe – filha de um rico comerciante que havia perdido tudo no jogo – era a personificação da rainha sem reino. Nariz empinado, falava baixo até quando gritava.  Quando se casou com um militar de carreira promissora, tornou-se mais altiva e mais distante, olhando a todos do alto de um pedestal que só existia na sua arrogância. Se não tinham dinheiro, pretensão havia de sobra. Ele pensava que era Deus e ela, tinha certeza. Dedicava-se à vidinha da vila militar como se fosse profissão. Entre elas, a hierarquia dos maridos era exercida com tamanho rigor que ninguém acharia estranho, se colocassem platinas nos conjuntinhos que chamavam de tailleur.

O casal, que jantava fora todo sábado depois de um filme no Olímpia ou no Palácio, estava tão envolvido um com o outro que nem percebeu que os filhos – Adelson e Adélia – não tinham lá muita vocação para estudos, trabalho ou esforço. Na verdade, eram filhos profissionais, numa época em que isso lhes garantia quase tudo… Adélia manteve-se solteira – apta para a pensão que o pai amantíssimo e previdente garantiu-lhe, quando isso ainda era possível. Adelson chegou a “juntar tralhas” duas vezes e teve um filho com a segunda -e última- companheira. Mas nem essa, conseguiu suportar suas manias. Ele colecionava miniaturas de corujas, de automóveis, embalagens de cigarros em álbuns de sacos transparentes, discos de vinil, celulares antigos que nem havia possuído, suplementos de jornais, revistas Globo Rural e muito fracassos. Adelson cursava Agronomia – o quinto curso superior que “experimentava”-  numa faculdade gratuita, e jamais conhecido uma fazenda de verdade ou chegado perto de uma horta de subsistência.   Instalaram-se num pequeno “dois quartos” na Francisco Sá, em Copacabana, herança dos pais que se tornou o bunker que os defendia do mundo real.

Quando as manifestações começaram, identificaram-se com o que passaram a chamar de “causa”. O Brasil precisava dos dois e isso bastava. Avante!

Adélia era internauta tardia e mantinha um perfil sob o nome de Dália Misteriosa, “mulher sensual, interessada em novas experiências”. Compartilhava mensagens com fotos exóticas e acompanhava toda a organização das manifestações do Movimento Passe-Livre.

Quando o primeiro quebra-quebra aconteceu, não resistiu ao “chamado da pátria” para tornar-se uma guerreira urbana, e, como sua coragem não era tanta, arrastou o pouco convicto irmão, que repetia “palavras de ordem” contra políticos, contra o governador, contra a presidente do Brasil, do Flamengo, contra o Google e até contra o Filipão e o programa do Faustão. Adelson tinha encontrado uma forma de gritar suas convicções sem precisar convencer ninguém a ouvi-lo.

Os dois passaram a viver para as manifestações e tinham pavor que elas terminassem, um dia. Foram os primeiros a chegar às proximidades da casa do Governador Sérgio Cabral, articulados, trocando experiências como verdadeiros ativistas e acertando que iriam se revezar “no posto”.

Naquela manhã, quando Seu Coriolano, zelador do prédio desde a mais tenra idade, viu os irmãos saindo com óculos de mergulhador e máscaras anti-gases,  coletes de fotógrafo com garrafinhas de vinagre, megafones, garrafas de água, bonés da copa e bandeiras do Brasil; imaginou que o velho Furtado deveria estar dando saltos no túmulo, balançando suas medalhas.

Os dois desceram as escadas conclamando passantes “à luta”.

Seu Coriolano quase podia ouvir Dona Adalgisa murmurando, entre dentes … “Gentinha… Gentinha…”.

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