Crônica na cozinha

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Ramequins
Qualquer um poderia se referir às pequenas terrinas como cumbucas, forminhas para suflê ou outra coisa qualquer. Menos a avó.

Eram dezoito, aos poucos foram quebrando ou “sumindo”,  – e atualmente apenas sete, permaneciam enfileirados na última prateleira do armário da cozinha.

Depois de untá-los com manteiga, preaqueceu o forno a criteriosos 180°C, e derreteu 200 gramas de chocolate meio amargo, com os mesmos movimentos da avó querida. “Como a vida, suflês exigem paciência e alguma esperteza” repetia hoje para a própria neta, aboletada num banco alto ao pé do fogão – exatamente como ela fazia, quando era uma menina. Sábia, a minha avó, pensou, enquanto o aroma do chocolate no banho-maria, invadia a casa. A cozinha parecia ter outra iluminação, como se estivesse num programa da Nigella, a farinha brilhando, despejada do alto.

Juntou as 2 colheres de creme de leite, misturou e tirou do fogo, mexendo sempre ao acrescentar 4 gemas. Enquanto o creme amornava, ela buscava na memória algo que o velho caderno de receitas não mostrava… Cozinhar para a família é um gesto de amor, algo que nos aproxima dos céus, ouvia a avó, que tudo ensinara sobre ser feliz – menos como não sofrer com a saudade.

A neta bateu 6 claras em neve e ela adicionou, lentamente, 4 colheres de açúcar peneirado. Com a velha e curtida colher de pau, juntou a montanha de espuma branca ao creme escuro  e levou ao fogo, novamente, mexendo delicadamente, por alguns minutos.

Para tudo dar certo, cada um tem um segredo, um jeitinho… E esse era o primeiro.Quem diria que ela levava o suflê para cozer, antes de despejar generosas colheradas nos ramequins untados e levá-los ao forno por vinte minutos? O segundo, era como conseguir aquela casquinha crocante. Bastava colocar uma colher de pau no alto da porta do forno para que ficasse ligeiramente entreaberta.

Para a calda, a avó usava 4 limões sicilianos sumarentos. Ela espremia dois e no suco, misturava 2 colheres (das de sopa) de maisena e reservava.

As reuniões familiares aconteciam aos domingos – era uma época de poucos lugares a ir, e, falando francamente ela preferia encontrar as primas e primos, a estar, mais uma vez, na piscina da Tuna, sempre barulhenta e cheia de crianças (intrusas, achava) disputando espaço para escorregar no sinuoso (e pequeno, hoje sabia) tobogã.

Reservou a mistura do sumo e, numa panela em banho-maria, derreteu 2 colheres (das de sopa de manteiga) e 1 xícara de açúcar, mexendo sempre. Cuidadosamente, agregou o suco com maisena, e mais 2 ovos apenas batidos, 1 colher (das de chá) de essência de baunilha e os outros dois limões (sem a casca e sem a parte branca) picados.

A avó mantinha o fogo bem baixinho nessa hora e, de vez em quando, levantava a panela para que a mistura não fervesse mas o creme ficasse denso. Depois, ainda quente, coava num “chinoy”, coisa que ela não já tinha…

No forno, os ramequins pareciam transbordar com o creme de chocolate… O aroma era de pura felicidade.

Desligou o forno e, enquanto os suflês descansavam por alguns minutos, arrumou a mesinha da varanda, com a toalha de flores miúdas e borda de rendinha já puída que acompanhara outras tantas tardes… Colocou cada suflê sobre um prato de porcelana fina, que chamavam “pele de ovo” e fez-lhes um furo onde despejou a calda. Com um crivo, polvilhou uma nuvem de açúcar impalpável, sombreando a casquinha rachada.  Na jarra, água, pedras de gelo, fatias de limão e apenas um galho de hortelãzinho, colhido na jardineira da janela.

Ouviu a filha, irmãs e sobrinhos, chegando alegremente.  Assentou-os confortavelmente e trouxe então, os gloriosos ramequins, espalhando uma nuvem de saudade.

Suspiraram, como se todas sentissem a mesma saudade e a mesma alegria.  Estavam juntas, numa tarde nublada de domingo, deliciando-se com chocolate e a própria história, que ensinavam aos que tinham chegado depois.

 

 

 

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