Simples assim

 

Recentemente uma amiga que arrumava caixas para uma mudança, percebeu o quanto investiu em coisas que absolutamente não lhe foram úteis durante uma vida inteira. Na verdade, só atrapalhavam.

Se formos honestos, a lista dos desperdícios é enorme. Quantas escolhas equivocadas, em vez de atender aos nossos anseios pessoais? Acabamos indo aonde os outros vão, usando o que os outros usam e esquecemos que, às vezes, menos é mais. Menos coisas, e menos gente, inclusive.

Lembro que há uns anos resolvi “criar” um armário para acomodar o que chamava de “minhas coisas”. Baixelas de prata que, francamente, usei duas vezes e dão um trabalho enorme para limpar. Garrafas de cristal que permanecem na escuridão de uma prateleira. Travessas, bandejas e uma porção de (in)utilidades que provavelmente, jamais usarei.

Na época em que ainda acumulava coisas que “todo mundo estava comprando”, ainda não sabia que simplicidade não é uma condição, mas uma virtude que nem todos aprendem. E isso exige tempo; às vezes, quase uma vida.

Pessoas do bem (e não de “bens”) são elegantemente simples, despojadas daquela ostentação risível que gruda feito cicatriz e vira estilo, quase impossível de se mudar. É quando parecem gritar para que vejam “o meu isso, o meu aquilo”. Certas coisas – caríssimas, e daí? – valem, sim, pela qualidade, pela conquista (trabalha-se para isso!) ou pela satisfação pessoal, jamais pelo impacto que possam causar, inclusive em quem não possui algo semelhante.  Homens e mulheres elegantes portam marcas exclusivas com tal naturalidade que jamais têm o próprio brilho ofuscado por qualquer griffe famosa. Ser simples é usar o que você pode e tem direito, sem precisar “mostrar”.

Fiquei pensando no acervo trancado no armário e decidi dar-lhe outro destino; assim terei espaço livre, coisa que faz bem a qualquer casa, além de facilitar o acesso à tão sonhada simplicidade.

Nessa mesma época, comecei a ver as fotos do novo Papa e seus sapatos pretos surrados. De cara, Francisco me conquistou. Além de simples, era um homem prático. Passada a Jornada da Juventude, fui completamente conquistada pelo Papa mais popular que o mundo já conheceu. Além de todas as lições aos católicos, Francisco resgatou a elegância da simplicidade.

Voltamos a falar de fé e das coisas de Deus sem receio de parecer pieguice. Emocionar-se, também. Orar e cantar em louvor a Deus voltou a ser algo comum e bonito de ver. Simplicidade, essa é a palavra de ordem. Simplicidade que vem da alma, que só faz bem, amém.

A vida fica mais fácil quanto mais simples a gente se torna – e não estou falando de pobreza. Mas quem precisa ter dúzias de pratos que não usa, só por “ter”? Ou bandejas de prata sem amigos para servir?  Foram-se os tempos do “ter” para iniciar a era do “ser”, que maravilha!

A simplicidade também nos torna mais solidários, mais sensíveis a dor alheia, aos dramas que acometem quem está perto de nós e ainda assim, precisamos fazer certo esforço para enxergar. Francisco nos trouxe um alento, uma esperança de que esses jovens que não sentem vergonha de ter fé, possam mudar o mundo e as pessoas! Quem sabe a gente se liberte dessas convenções que só atrapalham, nos tornando mais leves e mais felizes, sem ligar para quem se importa com a marca de suas malas, ou com cristais que ninguém gosta de lavar?

O que Bergoglio tem a ver com baixelas e prataria? Tudo. Ou melhor, nada. O melhor dos exemplos que nos deixou é que humildade não é apenas a pobreza voluntária que espera da igreja – e que tanto agradou aos católicos no mundo inteiro. Mostrou-nos que simplicidade  é conquista e postura.

Para que o outro importe, não precisamos dividir a miséria; colocar-se em seu lugar  já é um bom começo.

Um dia eu chego lá.

 

 

 

 

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