Até o Nationaro Kido

 

Meu domingo foi alegre, almoço e passeio no shopping, comprando bobagens, o tempo passou rapidinho. Deu dez da noite e eu estava sem uma linha rascunhada para a crônica da terça. Andei pela casa, inquieta; tomei um litro de refrigerante e outro de café e, por mais pilhada que estivesse, chegou meia noite e na-da. Nem tema, nem título, nem assunto. Nada.

Liguei a TV e sentei diante do notebook desafiador. Não sei quanto tempo se passou, mas lá pelas tantas, o chiado característico de emissora fora do ar me pareceu mais abafado. Olhei para a tela e então vi algumas pessoas acomodadas no meu sofá, na poltrona “do papai”, no banquinho de colocar os pés… Esfreguei os olhos; um vulto me pareceu familiar. Firmei a vista e…

– “Mary Ellen?”. Os cabelos longos, a camisa de xadrez desbotado, a jardineira de índigo… A minha heroína estava sentadinha diante de mim, sorrindo como se me conhecesse de longas datas. Ao lado, um jovem louro, com óculos redondos de tartaruga… John Boy! Eu não acredito! A família Walton tinha saído de um dos 221 episódios, exibidos entre 1972 e 1982 diretamente para minha casa? Só faltava aparecer vovô Zeb e vovó Esther…

-“Eles já estão chegando – se você permitir, é claro!”

A voz pausada e inconfundível de Olívia Walton encheu a sala. Eu devia estar ficando maluca, ou quem sabe, estivesse sonhando. Mas que diabos estão fazendo aqui?

-“Você nos chamou!”, explicou a boa Olívia.

Jason, Ben, Erin, Jim-Bob, Elizabeth e Jonh Boy Walton estavam atrás de Mary Ellen e me olhavam como se eu não devesse ficar desconcertada por encontrar os personagens da série de TV que tanto amei na minha adolescência, disputando espaço na minha sala.  Lembrei do encerramento de cada episódio…

-“Uma chatice!”. Erin, a irmã mais bonita e menos afeita aos estudos, me interrompeu.

-“Você tem idéia do que é repetir aquela cena tantas vezes?” completou Mary Ellen.

-“OK, Ok, OK!” berrei, sem saber como concatenar as idéias.

-“Calma, Vera.”

Então John Boy sabia meu nome?

-“Claro que sei! Você vive nos dando boa noite no Facebook. Deu tantas vezes, que resolvemos vir pessoalmente.”

Honestamente, eu não bebo. E se o problema for o refrigerante, prometo só tomar água e suco natural o resto da vida; mas se eu contar essa história no Facebook, meus amigos vão me colocar numa camisa de força.

-“Vão nada!”. Vovó Esther, sempre sábia, lia meus pensamentos. Lembrei do Dr. Gaiarsa e fiz alguns exercícios respiratórios.

-“Pára com isso, você não vai enfartar!”. Zeb Walton, com sua cabeleira branca e desgrenhada, olhava a rua pela janela entreaberta.

-“Afinal de contas, o que vocês querem?”, tentei encurtar a conversa e visita surreal.

-“Queremos voltar!” respondeu John Boy Walton. “Nossa série é muito melhor que Dallas!”, arrematou Erin.

-“Fica calada, Erin. Dallas também já saiu do ar!”, Jason continuava o mesmo.

-“É melhor que Twin Peaks, melhor que… que…” Elizabeth não encontrava argumento.

-“É melhor que Revenge!”, concluiu, com propriedade, Dona Esther. “Pelo menos é mais fácil de entender…”

– “Então é isso? Querem ser reprisados? E depois desse recado, prometem que vão embora da minha casa?”, arrisquei. “Está certo. Vou pedir aos amigos do Facebook para iniciarem um movimento… Quem sabe dá certo?”. Nem eu levava fé em mim mesma.

– “Faça isso, minha filha. Faça uma campanha pela volta da nossa família…”, Jonh Walton, pai, tinha os olhos azuis e brilhantes.

– “Certo. Certíssimo! Vou fazer isso agora mesmo. Sei que vão achar que andei fumando algo esquisito, mas faço qualquer coisa para vocês irem para onde quer que tenham estado, esses anos todos…

– “Hallmark”, disse Jim-Bob. “Ainda estamos no canal Hallmark nos Estados Unidos e na Inglaterra…”

-“Mas depois da visita do Papa Francisco, achamos que o Brasil é o lugar ideal para nós. Melhor que a Virgínia!”

Zeb Walton sempre dava a palavra final e eu sabia disso. O que queria era que sumissem da minha casa antes que eu mesma acreditasse que estavam ali. John Boy, o primeiro cronista de seriado que “conheci”, reuniu o grupo para partir.

-“Nós já vamos, Vera. Mas antes, tem um amigo que queria falar-lhe…”

– “Amigo? Que amigo?”

-“É um japonês, baixinho, usa colant e máscara prateados…” Antes que acabasse a frase eu já estava surtando. Japonês? Colant? Vamos acabar com isso a-go-ra! Sumam todos daqui. E levem o National Kid pros quintos dos infernos! A-GO-RA!”

A TV voltou ao ar. Esfreguei os olhos para ter certeza que estava acordada e resolvi não escrever mais nada.

Nunca se sabe que polter-geist pode acontecer num cochilo inocente.

 

 

 

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