Pais e filhos

 

Meu pai partiu há mais de dez anos – onze, para ser precisa – e ainda sinto sua falta.

Pais e mães são figuras quase míticas, cercadas de expectativas e cobranças – mas a verdade é que, quando somos crianças, a mãe é o ser essencial, é a que a gente teme não encontrar quando chega em casa, ou que não nos acuda quando algo terrível  – alguém o chama de gordo na escola – acontece e o mundo parece cair. O pai; bem, aos poucos vamos criando laços mais sólidos, entendo que aquele cara é, também, tudo.

Estariam pais destinados a um eterno segundo lugar nos corações de seus filhos? Não é isso. Mães estabelecem desde sempre, outro tipo de conexão. Os bebês reconhecem até o compasso do coração materno. Com pais a afetividade é construída, conquistada. E dá trabalho – como toda relação.

Meu pai não era exatamente um homem afeito a crianças, além das próprias filhas e, depois, dos netos. Mesmo sendo médico, minha mãe conta que ele tinha certa aflição quando nos carregava ao colo, como se fôssemos “quebrar” ou algo assim. Cresci tendo meu pai como exemplo, inclusive, de cidadão – e a quem deveríamos fazer feliz. O que era fácil, aliás. Papai exigia pouco, e raramente dizia “não”, o que aconteceu quando, ao acabar o cursinho de inglês, quis partir para os “states” num intercâmbio em moda. Na-na, ni-na, não e fiquei emburrada por certa temporada.

Até me tornar alguém com quem fosse possível trocar algumas idéias, ele era o “papai” que saia para trabalhar muito cedo, raramente voltava tarde, aparecia no jornal, era visivelmente apaixonado por nossa mãe e de quem a gente tinha ciúmes por conta do passado de galã do rádio local. Com o tempo, ele perdeu o pavor de que uma de nós “quebrasse”, e se tornou um grande amigo.

Era divertido conversar com ele, ouvir seu vocabulário rico e a dicção perfeita, além das coisas que só ele era capaz de fazer e das quais rimos – muito – até hoje. Ele detestava visitas inesperadas, fugia para o quarto após as refeições dizendo que ia escovar os dentes (e raramente voltava) e era tratado por nós como um rei, até com certo exagero. Aos domingos sua sesta era sagrada; lembro que minha avó materna voltava para casa após o almoço a bordo de um modorrento “Djalma Dutra”. Hoje seria inimaginável que meu marido permitisse que minha mãe fizesse a mesma coisa. Mas aqueles eram outros tempos, é claro.

Como deveriam ser os pais atualmente? Alguém tem essa fórmula?

Com toda certeza, hoje é muito mais difícil. As mães entenderam que pais não devem ser poupados da vida e da educação dos próprios filhos e, desde o nascimento, a maioria troca fraldas, alimenta, dá banho e sabe desembaraçar as madeixas de sua prole chorosa. Pais de verdade devem ser assim, super heróis que choram, que podem não saber consertar a tomada, mas certamente saberão ensinar os filhos a colocar uma rabiola no ar e a equilibrar-se numa bicicleta pela primeira vez.

Por mais que algumas mães só pensem nos pais de seus filhos como uma entidade financiadora, tenho esperanças que pelo menos eles saibam o quanto podem fazer diferença nas vidas que colocaram no mundo. Que saibam inspirar as escolhas que, um dia, os filhos precisarão fazer.

Uma das coisas que mais me orgulha no pai que tive, foi honrar-me do nome que carrego. Como seria bom que pais lembrassem que tudo o que fazem, um dia, será  herança, e por ela serão lembrados. (E que Deus cuidasse para que filhos não envergonhassem seus pais, não é mesmo?)

Um pai com quem se possa conversar, de quem não se tenha medo e que esteja presente em qualquer circunstância… Quantos jovens poderiam  manter-se longe de drogas e outros perigos, se conseguissem conversar francamente com os pais?

Temor não é respeito, a vida ensina. Amor sim, pode ser quase tudo.

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