Uma certa água

Certa vez, um antigo chefe me disse que eu produzia “mais” sob estresse. Daí por diante, a pressão constante era justificada como “estímulo”.

Fiquei acabrunhada, nunca fiz “corpo mole” e minha disposição é quase militar: missão dada, missão cumprida.(Quando depende exclusivamente da gente, fica mais fácil!)

Nos últimos dias tivemos muito trabalho. Muito mais do que alguém pudesse imaginar, ao nos ver sorrindo, equacionando  questões surgidas intempestivamente, tentando atender a tudo e todos. Não nos “estranhamos”, não nos intrigamos ou deixamos que uma palavra arranhasse ouvidos e âmagos. Parceria exige sensibilidade e bons modos… Estivemos atentos, um dando a mão ao outro. Mais que equipe, formamos um time.

Em dado momento, nos perguntamos que energia era aquela, que nos deixava resolvendo coisas no “Whats-up” até tão tarde? “Que água temos tomado?”

Essa energia, essa fonte praticamente inesgotável de determinação, de paciência e idéias é, tão somente, paixão.

Nada substitui o que a paixão agrega ao dia a dia. O compromisso nos faz esquecer – sem estardalhaços ou cobranças – o momento em que o cartão de ponto poderia nos dispensar. Pouco importa se trabalhamos duas ou vinte horas a mais; o importante é realizar o trabalho no nível de exigência pessoal.

Não, não estou fazendo apologia à escravidão pública ou a qualquer tipo de exploração. Esqueça, esse tipo de coisa é de cada um consigo mesmo. Há quem não consiga deixar de dar o seu melhor; há quem nem saiba onde encontrá-lo, enfim.

Minha observação é sobre o que estimula um profissional – que poderia fazer só o “feijão com arroz”- a abraçar um projeto e oferecer algo mais do que lhe é exigido, mesmo que ninguém tenha solicitado. Um projeto, uma sugestão, uma solução. Duas horas. Ou vinte.

O que move quem, por exemplo, permaneceu esticando e dobrando passadeiras vermelhas até altas horas, para que Nossa Senhora passasse? (Outros tantos, “desfilaram” sua alienação, pisando nas pétalas que esperavam por Ela. Fazer o quê?)

A jovem que, apesar de “não ter nada com isso”, distribuiu convites cuidadosamente, para uma cerimônia que nem poderá assistir.

Paixão pelo que se faz. Aquela sensação de fazer o possível – e quase o impossível – para que tudo dê certo. A paixão que permite que diferentes se entendam, se respeitem e se ajudem, em busca do objetivo comum.

É esse o traço que distingue uns dos outros e que nem sempre sabemos identificar claramente, mas se traduz, acima de tudo, por uma única palavra: compromisso.

Todos os dias alguém repete que “não tem nada com isso” ainda que tenha, sim. São pessoas que não se envolvem, ou como diria um amigo, “não vestem a camisa”. Eu completo: vestem sim, na hora dos cumprimentos. Pronto, falei.

Não se consegue sucesso genuíno fazendo “de qualquer jeito” ou o “que der”. Acredito que  esse “descomprometimento” não aconteça exclusivamente no trabalho. Imagino que a vida de quem jamais participa,  seja sempre um mosaico de “mais ou menos” ou “assim já deu”. Definitivamente, isso não me basta. Quero mais.

Não sei se nós, a turma que é capaz de quebrar castanha com a unha, levará um dia, alguma vantagem. Francamente, não ligo a mínima. Pode parecer-lhe pieguice, mas a satisfação de tentar o melhor de cada um (que não é pretensão à perfeição!) não tem preço.

Esse brilho no olhar, o coração saltitando no peito – We got it! – quando, finalmente, temos certeza que deu tudo certo , compensa tantas listas checadas, tantos detalhes conferidos, tanta atenção. Ou uma lágrima contida. Pouco importa o resto, quando podemos comemorar, uuuhhh,huuuu!

Quando pessoas assim se encontram, surge essa água misteriosa, esse elixir que nos reconforta. Não existe nada mais revigorante do que a certeza de contar com a mão solidária e confiável, num momento de especial cansaço. Posso te ajudar?

É essa energia que coloca o coração no prumo e nos faz ter certeza que sim, vai dar tudo certo.

Não. Isso nunca teve nada a ver com estresse. Isso se chama compromisso.

Para os íntimos, paixão.

 

 

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Anônimo
    out 06, 2013 @ 20:19:19

    Vera diante de tantos artigos belos e bem escritos , não estaria na hora de voce lançar um livro? Abracos Eduardo

    Responder

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