Uma torta na romaria

 

Todos os anos era a mesma coisa. Ela se sentia cansada, dizia que iria ficar em casa e que veria, como sempre, as imagens do Círio no dia seguinte, pela TV. E como de hábito, ficava inquieta, travando uma luta surda entre o cansaço – verdadeiro e crônico – e aquela necessidade de vestir a camiseta – a cada ano, mais apertada – sobre um jeans qualquer e percorrer, aflita e arfante, as quadras apinhadas de gente, até as grades da casa da amiga, para vê-la passar, majestosa e doce, naquele abraço de mãe protetora, ao filho no colo.

Mas esse ano houve mais um complicador. A doceira iria entregar a torta às dezessete, muito tarde para uma berlinda que partia, cheia de energia e sebo nas canelas romeiras. Muito tarde.

Desafiando presságios, tomou a torta nas mãos como se fosse um bastão de corrida, um objeto cuja entrega só importava menos que  estar na avenida para saudar a Santinha, rainha daquele e de todos os dias.

Venceu quatro, cinco quadras, com o ar faltando-lhe aos pulmões, praticamente a correr, como se tivesse essa obrigação de chegar – com torta e taquicardia – antes que a berlinda cruzasse a Quintino. Mas ela, Nazaré, corria mais rápido, sem parar para ver fogos ou ouvir homenagens.

Nos últimos trinta metros, mal conseguindo falar, trêmula pelo esforço e pelo temor de não ver a sua amada Senhora, capitulou. Entregou o inconveniente e apetitoso troféu ao marido, suplicando que concluísse a missão. Ele sabia, desde o começo, que isso aconteceria; mas que marido é louco o suficiente para contestar uma esposa romeira, atrasada, prestes a perder a passagem da Santa?

Ele levantou a embalagem transparente na palma de uma das mãos e seguiu por onde ninguém achava que pudesse existir espaço para esgueirar-se. Atrás, mãe e filha trocavam olhares cheios de temor e esperança, torcendo que a correria não fosse em vão: a berlinda estava “logo ali”.

Mas o Círio tem dessas coisas, a solidariedade surge quando menos se espera.  Na aglomeração, entre macas com romeiros desmaiados e anjos chorosos chamando por pais e mães,  a visão inesperada de uma prosaica e desejada torta de chocolate, causou reações de incredulidade.

“Olha o moço com um bolo!”, “Não acredito! Vai ver, é promessa!”.  O marido, mantendo o que restava de dignidade, equilibrava o fardo, tentando parecer bem humorado e seguindo em frente, possibilitando que mãe e filha aproveitassem “o vácuo” até o porto seguro: o palanque de um prédio onde os demais já se preparavam para aplaudir a Santa.

Em “terra firme”, o pavor de perder a visão de sua amada  Senhora de Nazaré e os pedidos que trazia guardados no peito – saúde para a família – fizeram-lhe sacudir num choro incontido.  Pediu desculpas por tanta confusão, por quase ter chegado atrasada, por  quase faltar a esse encontro…Quase.  Suas orações derramaram-se em lágrimas, aliviando o aperto no peito e na alma.

Pediu-lhe  bênçãos – para si e para os seus – e marcou um novo encontro (dessa vez sem correria ) para o próximo ano. Quedou-se diante da pequena imagem que se agiganta na fé de cada um, na determinação que vence todo tipo de obstáculo para estar lá, quando ela passar, vestida não por um manto de precise de explicações, mas pelo amor dos que confiam tanto nas Suas graças.

Ela passou, numa visão divina, deixando um rastro de fraternidade. Famílias e amigos que confraternizam, renovando laços, superando diferenças, vivendo os ensinamentos de Maria, nossa mãe. Num canto da mesa acolhedora, a torta de chocolate, personagem de última hora da mais linda das noites, quando Nossa Senhora de Nazaré cumpre a Trasladação.

O Círio segue lá fora, em fogos e corais; no peito, uma ternura nos conforta, na certeza que Ela está a nos guardar.

Feliz ano novo para você, também!

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