Ao bom médico, com carinho

Minha crônica de terça vai causar alguma polêmica.
Desavisados acharão que estou a criticar médicos, indistintamente.
Não é verdade. Estou, isto sim, tomando a defesa dos bons médicos.

O que coloco – sem temor – é que a categoria precisa tomar uma posição de repúdio veemente, aos desvios que se tornam cada vez mais frequentes, no exercício da medicina, por quem nem deveria exercê-la.
Os bons médicos não podem pagar por isso.

Eu os vi mobilizados contra os “Mais Médicos”. Mas contra os “Maus Médicos” adotam um silêncio ensurdecedor.
Por que não protestam? Por que ficaram praticamente calados quando aquele louco inseminou as pacientes com o próprio sêmen?
Por que calaram quando a doutora foi presa com dedos de silicone para fraudar o ponto?
Quando os loucos mataram pacientes na UTI?

O que se vê é algum membro de conselho dizendo que ” vão apurar “… E a credibilidade dos médicos vai sofrendo mais e mais arranhões… Não entendo por que a enorme maioria se mantém em silêncio, perdendo a oportunidade de se colocar contra os abusos cometidos por quem não respeita a medicina.

Aos meu pai, meus primos, meus amigos e amigas, médicos e médicas,
com respeito e carinho.

Ao bom médico, com carinho
( “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.” Martin Luther King.)

Não faz muito tempo, médicos eram, praticamente, entidades. Estavam sempre acima de qualquer suspeita e eram pessoas em quem se podia confiar.
Tenho orgulho de ser filha, prima, comadre e amiga de médicos como os de “antigamente”; gente com reputação a zelar e que honra a profissão. Como eles, muitos outros podem deitar e dormir o sono dos justos.
Mas é verdade é que vivemos uma crise ética que não os poupa; o que mais se ouve falar é de doutores que não valem as cópias das apostilas que gastaram durante a faculdade.
No dia do médico – 18 de outubro, data dedicada a São Lucas, “o amado médico” – em vez das comemorações e agradecimentos, surgiram, no seio da sociedade, discussões sobre condutas inadequadas -falta de sensibilidade, de capacidade e, principalmente, de ética- que vêm acometendo cada vez mais médicos.
E nessa vicissitude técnica e moral, acabamos nos acostumando com a existência de “bons e maus profissionais” em todas as áreas, sem atentar que os “maus” são cada vez mais numerosos. Será normal que sejam tantos?
Médicos que matam pacientes na UTI, que fabricam dedos de silicone para fraudar o “ponto biométrico”, que atendem menos de uma hora num posto de saúde quando deveriam permanecer quatro; que subcontratam profissionais não habilitados para seus plantões, que mentem e fraudam. Há casos de médicos que estupraram pacientes anestesiadas (um deles foi filmado!), que não têm pudor em “cobrar por fora” procedimentos cobertos pelo S.U.S. , que causaram danos irreparáveis e continuam exercendo a medicina.
Eu gostaria de ver a mesma disposição que a categoria teve para se mobilizar contra o “Mais Médicos”, para, pelo menos, registrar o repúdio a esses criminosos, para exigir o cancelamento do registro desses profissionais bandidos ( ou vive e versa). Mas tem sido raro ver um “colega” se declarar publicamente contra os maus médicos, a fim de resguardar a própria imagem. Raro, infelizmente.
Por que os “bons” têm se calado? É mais confortável criticar estrangeiros? (Desculpe-me, doutor, queria entender; afinal, você também paga esse “pato”. É justo?)
Jamais achei que médicos deveriam ganhar pouco e que a medicina é um sacerdócio franciscano. Não é.
Mas se o governo não paga o que deve, entregue o cargo e vá clinicar num plano de saúde. Se lhe faltam condições para um atendimento responsável, que tome providências no âmbito da justiça; denuncie ao ministério público, defenda-se… Pois o que parece, mesmo, é que ninguém quer ir para o interior. Médicos que estudaram em faculdades gratuitas, pagas pelo governo, se recusam a passar alguns anos no interior alegando a absoluta falta de condições que, sabemos, é verdadeira. O que falta para responsabilizar gestores? Você não tem nada com isso?
É demais que um recém-formado vá para o interior, se fez o curso de graça? Existe um renomado curso de engenharia que, ao final, se não quiser permanecer por certo período na força armada que o promove, pode indenizá-la e adeus. Mas pague pelo ensino que teve.
Penso que deveria ser assim em qualquer especialidade, esse seria o custo do ensino: trabalho remunerado, onde fosse necessário. Menos favorecidos estudariam na escola gratuita e quem tem condições – ou detesta o interior – poderia arcar com o ensino pago. Isso sim, é justo, e não as tais “cotas”.
Devo lembrar que, como diz o Ismaelino Pinto, tenho direito a ter opinião, ainda que diferente da sua.
Voltando ao tema… Será que aqueles bons médicos, os que zelam pelos pacientes e pelo próprio nome, que tem uma vida de bons serviços, merecem estar no mesmo barco? Merecem ouvir essas coisas? Claro que n-ã-o! Mas quando você tem coragem de falar francamente, surge logo o espírito de corpo que, em vez de salvaguardar os que merecem respeito, protege os maus profissionais.
Há que se ter coragem para assumir uma postura e penalizar, exemplarmente, na forma da lei. Há que se cortar na própria carne, como se costuma dizer, para extirpar esses tumores, evitando contaminação. Atitude. O que falta?
Para os bons médicos que ainda olham os pacientes nos olhos e escutam suas dores, que conseguem exercitar a empatia e entender o que os aflige; para os médicos que ainda se dedicam aos estudos de novas técnicas e procedimentos, que sabem que os pacientes não são culpados pelo salário que recebem;
Para médicos abnegados que não esqueceram os compromissos assumidos, que não descontam suas frustrações em quem já está sofrendo;
Para os grandes médicos que fazem parte da minha vida;
Que São Lucas os inspire em sua própria defesa e honra. Amém e parabéns!

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Orlando Barreto (@medbarreto)
    jan 12, 2014 @ 14:18:53

    Excelente Crônica! Parabéns

    Responder

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