Palavras na gaveta

Palavras na gaveta

Quem já não recebeu um bilhetinho, um e-mail, uma carta que não deveria ter sido postada? O papel – ou o teclado- aceita tudo, tudo mesmo, inclusive palavras escritas num impulso incontido, sob efeitos de uma inspiração mal vinda.

Sob comoção, escreva apenas para desabafar. Dois dias depois, o cenário será outro.

Conheço gente assim, que na falta de condições – argumentos? coragem? certeza? – enfiam seus bilhetes em nossas entranhas, e, satisfeitos na sua necessidade de colocar para fora suas convicções – que não são as nossas – seguem em frente com aquele arzinho que acomete os que se sentem felizes, após um gesto de justiça – ou bravura.

Quem já não escreveu algo que deveria ter ficado para todo o sempre numa gaveta qualquer, mas acabou chegando às mãos do destinatário, para fazer a única coisa que uma palavra mal dita consegue: acabar com amizades ou outros laços? Quem?

Mea culpa, já fiz essa bobagem.

Se as cartas eram um perigo mais lento, com os emails as dores levam o tempo do vôo de uma adaga certeira, cravada em seu coração. E pior, podem ser divididos com quem a gente acha que merece essa confiança, ampliando o efeito destruidor. Como as cartas, podemos deixá-los guardados, como prova cabal da agressão, prontos para serem relidos, relidos, cevando a alma com alimento tóxico.

O mau jeito com as palavras pode chegar num reles torpedo, curto, grosso, cruel. Certeiro.

Conheço uma mulher que guarda, até hoje, um antigo celular, transformado em baú onde permanece gravada a mensagem coberta de raiva, enviada pela própria irmã, num dia memoravelmente infeliz. Perguntei-lhe a razão… É para não esquecer jamais, que isso pode acontecer. Alimento ruim.

Minha família tem certo pendor para recados infelizes. Cada uma de nós tem alguma recordação envolvendo palavras que não deveriam ter sido escritas, lidas ou ditas. Umas mais que outras, mas cada uma de nós já disse o que não deveria ter dito; talvez as raízes expliquem, mas para ser justa, nada tem a ver com a ascendência lusitana, tão famosa por seus arranca-rabos verbais. Não do nosso lado, não mesmo. Talvez a genética explique, ou um bom analista arrisque, mas a verdade é que hoje, para escrever um simples cartão do tipo “De/Para”, penso bem antes de enviar, e em caso de risco, melhor identificar o felizardo pelo nome. Pela inicial.

Exagero? Que nada, boi preto reconhece boi preto.

Hoje cedo li que uma conhecida ficou extremamente chateada com um comentário sobre seu excesso de otimismo. Ou de auto-estima.

Os comentários revelaram o quanto é comum receber ou enviar trechos que deveriam ter sido jogados ao vento. Vento, não, que ele espalha tudo… Na lixeira, pronto.

Mas ser agredida por ser uma gordinha que “se sente”… A que ponto chegamos!  Ninguém pode se declarar absolutamente feliz, ou competente. Ou bem sucedida. Mas quando é para mal dizer-se, encher linhas e linhas sobre o que lhe falta, ou o quanto o destino é injusto, os homens salafrários e a vida má, ninguém reclama. Que coisa.

Hoje arrumei gavetas e achei cartas escritas nos momentos mais diferentes e todos difíceis – quando fui traída, quando fui exonerada, quando fui vítima de uma injustiça. Quando senti saudade. Quando disse o que não devia e machuquei alguém. Quando pensei em pedir demissão, quando tentei conseguir determinado trabalho e as portas por onde passei estavam fechadas… Quando me despedi de todos para ir embora… E não fui.

Nenhuma delas importa mais, é lixo que só serve para me lembrar que, salvo as cartas de amor, todas elas deveriam permanecer guardadas por alguns dias. Amor correspondido, bem entendido.

Se há coisa que a gente pode se arrepender, é declarar-se a quem não merece uma só linha. Essas, então, tranque e jogue a chave fora.

 

 

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Claudia Cunha
    nov 04, 2013 @ 22:09:14

    Perdi o Félix no dia de altas revelações na novela pra me encantar lendo seu blog. Rsrsrs…
    Já sou sua fã. É envolvente. Parabéns!

    Responder

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