Lista para esquecer

Lista para esquecer

Do nada, fez as contas. Quatorze dias. Era quanto ele ainda tinha, antes que 2013 virasse passado. E o passado, mesmo ainda sendo futuro a curto prazo, tinha esse efeito devastador na estabilidade emocional do Arnaldo. Passado causava saudade, que causava depressão. Natal e réveillon, nos últimos anos, mexiam com uma sensibilidade que ele tentava disfarçar a qualquer custo.

As pessoas pensam sempre que isso é frescura de mulher, mas estão  enganadas- e ele era a prova disso.

Sentou-se na velha poltrona – um exemplar Charles Eames de boa procedência, um dos poucos móveis de valor que restaram após três  divórcios – e folheou o livro que há mais de um ano tentava ler. Uma página dobrada, com algumas anotações esmaecidas, servia de marcador.

Abriu, sem muito interesse, e reconheceu a própria lista de final de ano; aquela que muita gente faz e ninguém cumpre.

Matricular-se na academia. Esse item ele havia cumprido ainda em Janeiro. Mas nunca mais voltou, depois de ter visto a saúde dos garotões de trinta e cinco (tinha quase sessenta!) e as meninas boas de conversa e de… E se uma delas o chamasse de tio? De avô? Melhor ficar em casa, caminhar na Doca, usar as escadas do prédio. Qualquer coisa, menos se expor dessa forma. Menos correr o risco de ameaçar sua santa rotina.

Arrumar o escritório. Definitivamente, ele não tinha ideia de como realizar essa façanha. Ademais, se a desordem incomodava Aurora, ela que arrumasse. Não; se ela entrasse ali, não saberia sequer como encontrar o controle remoto. Ela que ficasse longe do território dele!

Aurora… A crise com a terceira esposa tornou-se crônica. Em vez de brigas, havia um silêncio que abafava questões que jamais se resolveriam. O silêncio mumifica casamentos em crise, que sobrevivem eternamente.

Aulas de dança com Aurora. Esse, era sugestão do terapeuta. Dela, claro; que terapia é coisa de mulher. A esposa insistia que teriam momentos de cumplicidade, de alegria partilhada. E ele bem que tentou, mas cadê tempo? E se não tinha tempo para a pelada no Clube, por que deveria ter para dançar? Coisa de mulher.

Aurora e suas histórias. Pensou se deveria criar coragem e separar-se, mais uma vez. Mas ele era o que chamam de “casadouro convicto” e ainda que o casamento não fosse maravilhoso, era melhor permanecer assim, a recomeçar tudo com alguém que conhecia menos ainda. Aurora, pelo menos, sabia quem era e o que esperar dela.

Tinham aquela intimidade que facilita a vida e acaba com a sedução. Quem tem um casamento longevo, sabe o que é, pensou, tentando se conformar, enquanto a mulher separava revistas antigas, roupas que não serviam e tudo que estivesse esquecido num canto qualquer, para receber o novo ano com “boas energias”. Há mais de dez anos essa era a mesma rotina… Arrumação.  Que fosse, desde que ele não tivesse que sair da poltrona. Fingiu que dormia, antes que ela o convocasse para a faxina.

Aurora chegou-se de leve, arrumando almofadas no sofá. Ajeitou-lhe a manta gasta de xadrez, deu-lhe um beijo sem encostar em seus cabelos e apagou a luz, deixando-o imerso na penumbra do fim de tarde, ouvindo o zunido do ar condicionado.

Aurora. Teve remorsos por engana-la para fugir do trabalho doméstico. Envergonhou-se de outras vezes que a ludibriou de alguma forma, como quando ficava no escritório até mais tarde, na internet e dizia que tinha tido muito a fazer. Ou quando comprou para sua “amiga oculta”, o berloque que a esposa havia “namorado” no shopping. Aurora…

Aprender a dançar. Ela bem merecia um pequeno esforço. Ou seria menos custoso arrumar aquela bagunça? Humm… E ele nem tinha comprado o presente dela. Pensou no berloque. É, seria o berloque; mas compraria na joalheria do outro shopping.  Simples e prático.

Coisa de homem.

 

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