De olhos bem fechados

A vida secreta de Wanda

Ela deitou de lado e ajeitou o pequeno travesseiro, com o lençol deixando os pés descobertos. Fechou os olhos para ver-se melhor, no espelho que ficava numa sala onde jamais estivera. Estava linda, com o vestido de malha deslizando sobre o corpo cheio de curvas, sem faltar ou sobrar uma polegada.

Caminhava com charme, mexendo os quadris em um ritmo cadenciado. Malemolente.  Adorava essa palavra.

Wanda tem um segredo guardado num sótão onde ninguém tem acesso – nem mesmo o terapeuta canastrão que visita vez por outra.

A funcionária padrão, que breve vai ganhar sua “licença prêmio”, tem uma vida dupla. E isso já faz muito tempo, muito antes de Ben Stiller fazer sucesso no filme que motiva filas nos shoppings.

Filme. Grande coisa. Ela já sabia como é possível se libertar da realidade quando esse moleque estava estreando… Bastava fechar os olhos.

De olhos fechados não via a sala acanhada, as paredes encardidas rescendendo a mofo e descaso. Não via o olhar enviesado dos colegas, quando enfiava os plugues nos ouvidos e partia para bem longe.

Nem sempre ouvia música. Os fones eram a forma de mantê-los longe, de não precisar responder ou desviar os olhos da tela do computador. Ela tinha um lugar onde podia viver, onde podia se esconder quando a vida aqui fora não fosse exatamente agradável.

Era outra mulher, em outro lugar. Podia estar em Lisboa – ou numa casa velha e linda na Toscana. Ou numa cabana a beira mar.  O corpo perdia dezenas de quilos e assumia um perfil alongado, os cabelos pareciam os de comercial de xampu, movendo-se em câmara lenta. Mas principalmente a vida, era outra.

Antes de ir para casa, Wanda passava na padaria para comprar o lanche da família e imaginava como seria, se ela tomasse o café ali mesmo e fosse ao cinema. Sem ter que colocar a mesa, retirar e lavar a montanha de louças, sem se sentir sem assunto ou sem vontade de falar com quem quer que fosse. Eram todos tão cheios de histórias engraçadas, de lances emocionantes, que ela nem tinha o que falar de mais um dia, igual a centenas de. Estava farta de si mesma. E dos outros.

Amanhã seria o primeiro dia da licença e ela estava acomodada numa das mesas da padaria, tomando café com leite e pensando no que a outra Wanda estava aprontando.

Abriu uma folha amarelada onde estava o anúncio “Apartamento T1 em sótão de moradia, com entrada independente e pequeno páteo em Cascais.”.  (“Páteo”. A avó falava assim.)

Lembrou-se de quando tinha visto o lugar seis anos antes, durante uma viagem. Enquanto os outros percorriam a charmosa cidade em busca de lembranças e restaurantes, encantara-se com uma pequena placa, escrita em dois azulejos, ao lado de uma escadinha de degraus de pedras: “Para arrendar”.

Desde então, “a outra” vinha morando naquele lindo e ensolarado sótão branco, com uma sacada de onde se via a nesga do mar azul. Tinha ligado tantas vezes, que o senhorio já a conhecia, não só pelo sotaque, como pela voz.

Recordou-se de Shirley Valentine, sua heroína acima do peso e de qualquer suspeita. Suspirou, ajeitou as sacolas como pode e caminhou até o prédio onde morava há mais de 20 anos.

Notariam a ausência do carro na garagem? Provavelmente não. Ninguém prestava atenção, a não ser se faltasse comida… Mas o freezer estava abastecido: pelo menos até que entendessem o quanto essa ausência duraria, não morreriam de fome.

No dia seguinte, depois que todos saíram, deu ordens à empregada, colou cuidadosamente 3 envelopes sobre a tela da TV ( assim, tinha certeza que encontrariam) e tomou um banho caprichado. Vestiu-se com o conjunto novo azul marinho, tirou a mala arrumada há três meses do armário e chamou o taxi.

Quando todos estivessem almoçando, estaria em Fortaleza. Quando voltassem, estaria cruzando o Atlântico – e seria tarde demais para qualquer coisa.

Não olhou para os lados, não queria encontrar ninguém, dar explicações ou pensar se Shirley estava certa, ou não.

Quando agarrou os braços da poltrona, reagindo à decolagem; teve medo de abrir os olhos. Ou seria pavor de tornar a cerrar as pálpebras?

 

 

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