De outros carnavais

Outros carnavais

 

Diziam que era saudosista. A verdade é que todo paraense padece de saudade, em especial de si mesmo.

No meio da conversa, um amigo lembrou-lhe lugares que marcaram época: Troglodita, Papa Jimmy, Stop, Moenda e Acropol; Gemini, Tonga, Aquárius e sabe-se lá por onde mais passeavam as recordações de um tempo que insistiam, em não esquecer. Éram mais bonitos, saudáveis, sonhadores, apaixonados e poderosos. Podiam  tu-do – ou quase; o que, convenhamos, já era muito! E o carnaval?

Para minha surpresa, nas redes sociais algumas pessoas – mulheres na maioria – tentam tirar Momo do estado comatoso que o abateu, desde que os foliões foram escaldar-se nas areias do Sal – mais interessantes que as do Sahara, acho eu. A-la-la-ô-o-ô!

Amores de carnaval, quem não lembra?

Ele lembrava. E como!

Fechou os olhos fingindo cochilar, tentando driblar o olhar da esposa que, como scanner, não deixava passar a mais recôndita emoção.

Precisou conter o sorriso que aquelas lembranças trouxeram.

Ele saía em alguns blocos – inesquecíveis – e, se tivesse namorada “séria”, tratava de terminar duas semanas antes, para evitar “problemas”. Ciúmes, se é que me entende. O pior era quando ela resolvia sair também… Vila Farah, Bandalheira, Grande Família. Olhou a praia lotada e pensou que preferia estar na Presidente Vargas. Sentiu uma enorme saudade daquele tempo tão bom, em que amor era indolor e nova paixão se curava junto com a ressaca, com dois Engovs e um tacacá no Renasci. Ninguém precisava de terapia nem antidepressivos.

Ser feliz era muito simples.

Com sorte, o que acontecia no Carnaval (Ou em Salinas…) ficava lá mesmo. Quase como em Las Vegas. Quase…

Sentiu saudade do Opala com descarga livre, do rolê dominical na Praça do Pescador, com direito a Topless da morena na garupa da moto.

Ah, desculpe; você tem menos de quarenta? Pena, perdeu a época em que Belém era a cidade das Mangueiras, anterior a Idade dos Buracos, que deu origem à dos Camelôs, que deu origem… Bem, mas falávamos de que, mesmo?

Ah, os amores de carnaval que, reza a lenda, terminavam ao fim de cada festa.

O bom é que nem a nova paquera fazia questão que ele ligasse, não antes da quarta-feira, quando tudo voltava ao normal, inclusive papai e mamãe. Carnaval era para brincar, mesmo.

Quando a química era boa, o novo namoro durava e, com ajuda divina, poderia até sobreviver às férias de julho, quando o sol nos faria capazes de outras tantas sandices.

Acredite, sua mãe já usou coca-cola, óleo de aviação, colorau e até dendê para bronzear; teve segundas intenções com alguns dos rotundos e respeitáveis senhores que, naquele tempo, fariam você tremer nas bases, menina!

Câncer de pele não tinha assessoria de marketing, sexo seguro era manter os pais bem longe, os biquínis tinham que combinar com os tamanquinhos e todo mundo tinha conta no picolezeiro.

Muitos namoros “firmes” terminavam convenientemente na última semana de junho, quando o galã partia para Salinas. Se “aprontasse” todas, em  agosto talvez assumisse um noivado ultra rápido, com casório e lágrimas marcadas para até, no máximo, setembro. A noiva? A namoradinha de julho, claro! Tempos bons.

Ele lembrou que laguinho da coca-cola era quase desconhecido (pelo menos os pais não frequentavam) e o Farol Velho, seguro como uma pousada com teto-solar.

Nosso saudosista remexeu-se, enquanto lembrava de uma das jovens mais bonitas daqueles tempos, colega do Denis Cavalcante e que até inspirara uma crônica recentemente. Olhar cheio de promessas… O tempo, às vezes, é muito mau, mesmo.

– Amor… O que você está pensando? (O scanner…)

-Nada… Estava cochilando, respondeu, com ares de quem havia cometido alguma transgressão. Aquietou-se, olhando o mar.

Certas coisas é melhor não comentar. Só com uma amiga cronista.

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