Divagações sobre o dia 8

Divagando sobre o dia 8

Escrever sobre o Dia da Mulher é sempre complicado. Tentei fugir, mas a data exige e todo ano tenho que escolher entre ser simpática ou sincera. E vocês me conhecem…

Primeiro, disfarço o quanto essas homenagens me soam estranhas. Falam das realizações femininas como se a grande surpresa fosse uma mulher realizar algo realmente importante – ou difícil. Uma m-u-l-h-e-r pilotando um Boeing! Cursando nano-tecnologia! Transplantando corações! E por que não? Isso já devia ter acabado, mas nessas datas, quem fez algo mais “difícil”, é tratada como um índio que cursou Harvard. Ambos, raridades. Pode?

Semana passada discutiram o “empoderamento” da mulher. Hã? É como chamam “ganho de poder”, dá para acreditar? É tão estranho, assim, mulheres dividindo o comando com homens?

( Eu deveria estar fazendo stand-up. Fazer graça não é difícil, o problema é ficar em pé!)

Melhor também fingir que não se debate mais a velha questão da igualdade. Francamente, o que mulheres precisam é de igualdade salarial e que sejam respeitadas as diferenças, isso sim.

Somos diferentes, em tudo e por tudo, lutar por igualdade entre os gêneros pode ser uma estratégia bem desfavorável.

Lembro quando tentei organizar a comemoração de um 8 de março há muitos,  e resolvi ouvir algumas do grupo. A maioria esperava outra coisa, que não a rosa dos anos anteriores. Muitas queriam ouvir e ser ouvidas.

Um ombro amigo. O século era outro, as conquistas aconteciam aos poucos, mas eram determinantes. (Lembra como eram espancadas – e mortas – sem que muito acontecesse aos criminosos?) E continuavam sentindo-se sós!

Atualmente, em briga de marido e mulher qualquer um mete a colher; não denunciar também é crime, sabia? Maria da Penha fez história.

Vítimas de violência quase sempre são agredidas por homens com quem deveriam construir um lar; é muito triste. Homens que não aceitam terminar a relação, mas são capazes de deixar os filhos para trás, sem nenhuma ajuda.

Daqui uns dias, será lançado mais um recurso para manter potenciais vítimas em segurança: o botão do pânico. Ao ser acionado, a polícia entrará em ação. Fantástico! Quantas mulheres poderão ser salvas do destino infame de morrer por não aceitarem a humilhação, a surra, a agressão moral e física?

É disso que mulheres reais, que tomam ônibus, fazem feira, criam filhos – seus e dos outros-, trabalham em casa e fora dela, precisam.

Precisam que Câmaras e Assembleias façam um pouco mais que Sessões Especiais e exijam que se cumpra a Lei da Creche. Quem tem falado nesse direito?

O que as mulheres querem, de fato? De vez em quando me pergunto isso. Penso que o colant de heroína já não me fica tão bem e que talvez seja bom pensar um pouco – só um pouco – mais em mim. (Será que sou só eu?)

Já não quero enfrentar batalhas que não valham a pena e, francamente, entre uma daquelas discussões sérias (e inúteis) e um belo risoto, escolho o segundo. Já não me interessam projetos que me sugam e acabam em nada; faz-me muito mal avaliar quanto tempo se perde com questões sem nenhuma importância. Talvez isso seja comum em mulheres de meia idade; ou idade e meia, como eu. (Mas também comemoramos a data, não é mesmo?)

Por fim, torço que as guerreiras, determinadas, e tantos outros adjetivos utilizados sem parcimônia nesse mês de março, não esqueçam que suas fiéis escudeiras são mulheres – ainda que nem sempre se deem conta disso.  São as mulheres com quem dividimos a intimidade dos nossos lares e vidas.

Nossas empregadas também menstruam e têm cólicas, muito mais problemas que todas nós juntas e, na grande maioria, além de suportar nossas famílias, quando chegam na própria casa, o que encontram pode ser assustador.

Foi Dia da Mulher para elas, também. Será que alguém lembrou?

(Talvez eu devesse tentar a comédia novamente…)

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