Dos enganos e acertos

A avó que  me tornei.

Não sou do tipo que acha que idade é “psicológica”. Idade é músculo. É aptidão psicológica e física, pouco adianta tentar me convencer do contrário. “Vira-brotos” vivem dizendo isso enquanto tentam esticar as peles dos joelhos – o que é im-pos-sí-vel, cara senhora. Pescoço, mãos e joelhos não acreditam em Freud, só em Isaac Newton, se é que me entende.

Beirando os sessenta, em vez de infarto ganhei netas. Duas de uma vez. Eram esperadas, minha filha queria há tempos e sempre sonhou em constituir família, como antigamente.

Fiquei pensando nessa determinação, ela sempre quis trocar fraldas, dar banhos e ser vomitada de vez em quando; eu mesma jamais desejei algo tanto assim. Para ser franca, minha vocação para a maternidade teve um foco: queria ser mãe dela, especificamente dela e pronto. Eu sempre conheci a criança que um dia iria gerar, e sabia que ela estava lá, separadinha, esperando que um anjo muito sábio, escolhesse quando eu estaria pronta. Devo ter feito alguma coisa boa nessa minha vida comum e pouco exemplar.

E agora minhas netas chegaram. Colocaram minha vida de pernas para o ar, desmontando qualquer projeto para os próximos meses e, do nada, senti vontade de trocar fraldas, conferir temperaturas, ser alvo de golfadas. Era como se jamais tivesse esquecido como cuidar de um bebê; desejei acalentar esse choro que dilacera o coração, quis descobrir o inventor das cólicas para trucidá-lo diante de uma plateia de mães aliviadas. Durante dez dias  isolei-me do mundo, virei uma eremita nos corredores da maternidade, dormindo num sofá onde qualquer condenado expiaria sua pena. Mas como sou avó, poderia dormir numa cama de pregos, nada me demoveria da missão de livrar minhas netas dos perigos do mundo. Das cólicas, da bilirrubina, das fraldas molhadas e de quem acha que neném é maniçoba – todo mundo quer meter a mão. Nada faria diferença desde que estivesse perto o suficiente para ouvir-lhes os suspiros, para ampará-las quando abrissem os braços naquele susto que os bebês têm, como se fossem cair no vazio. Eu poderia dormir equilibrada num galão de tinta, desde elas precisassem de mim. Ou para aquecer-lhes os pés minúsculos, tão magrinhos e tão amados. E eu lhes conferi dedos – um, dois, três, quatro, cinco; contei novamente… Será que já contei os da outra? E troquei seus nomes… Eu troco nomes, sou atrapalhada e muito menos “incrível” que a cronista que me habita; já chamei um José de Luiz durante muito tempo, e nunca sei o nome da música – que canto errado. Às vezes meu pensamento é mais rápido que minha fala rouca e alguém completa a frase, me atrapalhando no que já estava pensando muito além dali. Talvez seja a idade, fiquei lenta? Não, a cabeça é que é cada vez mais rápida… Mas Santa Inquisição, troquei os nomes das minhas netas e elas nem são tão parecidas, além da enorme diferença de meio quilo.  Quem mamou? Quem fez coco? Não tem como confundir, mas eu sou ansiosa, passional; e acima de tudo, completa e irreversivelmente disposta a me doar,  me entregar, e até esquecer meus projetos secretos.

Pode parecer absurdo, mas eu ainda tinha planos, sonhos indevassáveis. Quem sabe conseguisse acomodar algumas coisas numa mochila e tomasse um desses voos diretos para algum lugar; um lugar onde não fizesse calor, pelo amor de Deus.  Onde eu pudesse caminhar pelas ruas e conseguisse escutar-me um pouco, sem ninguém a me chamar? Onde tomasse um café sem pressa, e passasse horas olhando ruas e gente. Ah, é tão bom ser estrangeiro…

Ver velhos filmes de amor.  Adoro filmes de amor, principalmente entre casais maduros, são tão raros.

Eu ainda tinha planos para mim, imaginava alugar um estúdio em Paris, uma casinha na Caparica; tanta bobagem , mas sonhar era manter-me viva. Eu me sentia uma pessoa, e dez dias depois do nascimento das minhas netas, sou uma entidade coorporativa, a avó da Clara e da Maitê, cujo estatuto a vida teima em escrever, apesar de mim e das minhas manhas.

Dez dias de delírio.

Uma amiga demitiu-se de uma função cobiçadíssima, através de um bilhete, onde explicava que não  poderia passar mais um dia sequer, longe do neto, que nascera em Lisboa. Queria liberdade para ir quando precisasse e voltar quando pudesse, caso contrário, morreria pouquinho a cada dia.

Não há como explicar para um homem, para um avô, essa magia que é ver uma filha, a quem já acalentamos, ter os próprios filhos. Ama-se e sofre-se duplamente. De repente nos transformamos em seres capazes de viver sem dormir ou comer, para proteger nossas crias de qualquer perigo, do mosquito ao resfriado.

Mas a vida não é assim. Não somos o centro, estamos lá longe, numa sétima lua.

No meio do turbilhão, fez-se um segundo de claridade e percebi que netos não são filhos. Netos são sangue do nosso sangue, mas não nos pertencem!

Você tem que amá-los, abençoa-los e permitir que vivam sem você – ou apesar de você. Precisa aprender a despedir-se e saber que “até amanhã” pode demorar um pouco mais. E você não vai morrer por isso.

É o que se espera das avós que mantém a sanidade e não querem ser odiadas. Avós que querem ser lembradas com saudade.

Avós precisam voltar para suas casas, trabalhar, sem perguntar se fizeram coco, se comeram, ou se estão saudáveis apesar de 48 horas sem vê-los.

Avós precisam restituir e garantir aos pais, o espaço – salutar – longe delas. E quando avó é você, meu bem, o choque de realidade dói.

Quantas vezes nos perguntamos “Clara já sujou a fralda? Mas que pena, ela deveria ter feito isso desde ontem… E a sua vida passa a ser a espera por um coco – e você adora isso. Um coco abençoado.

Mas que não lhe pertence. São os pais que devem averiguar as fraldas sujas.

Você tem que ser forte e sussurrar “Vovó te ama, até amanhã… Ou depois.”

Os pais precisam de isolamento para, finalmente, criar e manter laços; para entender essa linguagem que une famílias, que vai muito além de quando é manha, quando é fome ou coco. Bendita fralda suja!

E depois virão os dentes… E os pais descobrirão suas próprias orações, seus próprios meios para que tudo que até dez dias era apenas um sonho, se transforme numa jovem família. Que não é mais “sua”.

Essa nova família carrega o seu DNA, mas já não é a sua, exatamente.

E só o amor de avó, que também é de renúncia, pode ceder e deixar que se fortaleça. Você vai rezar para que Deus destrua o demônio das cólicas, banindo-o de todos os berços. E vai saber o que é saudade e a paz do dever cumprido.

Arrumo minha mala, enquanto meu coração dilacerado me acalenta dizendo que é preciso ser corajosa para perceber o melhor a fazer. Abraço minha filha como jamais a abracei, e digo-lhe que vai dar tudo certo, que me transformarei num anjo, distante, mas atento. Avós, não aparecem sem avisar, não tentam transformar em filhos, os próprios netos, tento não esquecer. Netos não nos pertencem. São filhos com açúcar, mas não uma nova chance para criar os filhos como deveríamos ter feito. Dos netos, só as orações serão nossas para todo o sempre.

Dou um beijo em cada uma, abraço a filha novamente e me retiro, para que um novo ciclo siga adiante, exatamente como tinha de ser.

No peito, uma felicidade diferente se acomoda, como num ninho. Agora eu sou melhor, eu sou avó.

 

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