No sangue

A proximidade das eleições mexe comigo. Tento imaginar outro tema, procuro no fundo d’alma um resquício de romantismo, uma memória capaz de emocionar.

Descanso o queixo sobre as mãos e me lembro do olhar das minhas netas, olhos de lagoa serena, plácidos como céu dessa madrugada. E aí é que os meus ficam marejados. Como será o mundo que deixarei para elas?

Quantos olhos de lagoa estão sendo ninados nessa noite branca, por mães e avós capazes de tudo por eles? Penso que não deveria buscar outro tema, outra desculpa qualquer que me faça ignorar que nossas vidas –  e as vidas de todos os netos desse país – serão forjadas a partir do que nós decidirmos daqui poucos dias. Como fingir que não temos nada com isso, que tanto faz quem ganhar ou perder, que tudo continuará como sempre foi? Não, nada continua como era depois de qualquer eleição e o que mudar (para pior, ou melhor) passará pela escolha de cada um.

Não dá para fazer cara de paisagem. Ou reclamar “da obrigação” de votar.

Lembro-me da primeira eleição da minha vida. Fui votar na então Faculdade de Odontologia, na Praça Batista Campos e me senti responsável e adulta.

Tive das mais variadas relações com a política. Cheguei a trabalhar efetivamente em várias campanhas, apoiando candidaturas que acreditava ser, de fato, um projeto confiável. E vibrava, cheia de sonhos e ideias, ouvindo quem mais precisava de atenção. De tanto que me indignava, cheguei a imaginar que poderia candidatar-me e fazer a minha parte. É, nunca fui de ficar calada; tomar uma posição me parecia uma obrigação; ainda bem que a ideia passou.

A vida mudou, mudei eu, e atualmente o que mais encontro são desiludidos dizendo que não vão votar, como se isso os eximisse da responsabilidade. “Vou anular meu voto”, diz outro, tentando me fazer crer que se trata de protesto. Como assim?

Você permanece calado diante das atrocidades que se comete; fica em cima do muro a vida inteira e acha que ‘anular voto’ é atitude de macho? Vai lá, aponta o dedo diante da urna e, “valentemente”, anula o voto? Na única oportunidade de registrar sua opinião, solenemente você desiste?

Fico imaginando que, lá pelas tantas, se Deus assim o desejar, provavelmente seja eu a primeira a falar sobre política para minhas netas, repetindo, quem sabe, um texto que li ainda menina, que dizia que quando se compra feijão, no pacote existe um tanto de política. Levei certo tempo para entender que política é a base daquilo que poderia ser resumido como a busca da felicidade plena: viver bem, num país em que a justiça seja igual para todos e as condições essenciais – saúde e educação – sejam direito e não esmola.

Infelizmente, desde crianças ouvimos que política não se discute. Como assim, cara pálida? Nada devia ser mais conversado, esclarecido e discutido que o processo político e seus atores. A política não é suja, alguns que dela se aproveitam é que o são. Livrá-la dos oportunistas é justamente o que as eleições nos oferecem.

Oxalá possa conversar com minhas meninas sobre democracia, algo que os – maus – políticos vivem pisoteando e que nós, a banda boa do processo, até esquecemos os limites; onde começa o seu direito e termina o meu, tolerância e coisas do tipo.

Antigamente, isso era ensinado na escola; em casa, a aprendia-se a não jogar lixo no chão,  dar o assento a idosos e gestantes no ônibus, “bom dia” ao entrar e “até logo” ao sair. Diziam que era “ter berço”.

Hoje, a escola treina alunos para o vestibular, as famílias esquecem-se da educação básica e quase ninguém mais diz, sequer, “obrigado”. Como esperar consciência política, que saibam não só o valor do próprio voto ou que a maioria das promessas dos candidatos é fruto do descomunal despreparo para a função de legislador?

Ah, tenho muito a conversar com as garotas… Em especial, do quanto me preocupei com o mundo que ajudei a construir, além dessas janelas.

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