O manual

Tive um amigo que sempre falava da falta que faz um manual para entender as mulheres; enquanto outro completava que não existe manual porque nem o fabricante sabe, realmente, o que se pode esperar de uma mulher.

Essa é a única verdade  absoluta: ninguém entende as mulheres – nem elas próprias.

Você nunca sabe exatamente o que responder, ou se deve responder; mas se ela estiver “uma fera”, permaneçam calados. Mas não pode ser um silêncio qualquer; precisa certa veia dramática, uma relação feliz (pelo menos tranquila) exige arte, sensibilidade e talento para fazer parecer o que nem sempre é. Nessas ocasiões em que ela está “nos cascos” o silêncio não pode dar a entender que você a está ignorando, mas a mudez da quase humilhação, aquela que promete que você jamais  dirá ou fará aquilo de novo e que ela tem, sim, razão. Basta não dar chance para ela iniciar uma nova (e longa) discussão.  O que menos importa é a verdade, meu amigo.

Esse amigo revelou-me que, quando escuta a mulherada falando em igualdade de direitos, sente vontade de retrucar, já que eles é que precisam recuperar direitos garantidos desde o nascimento. Eles é que querem igualdade.  Direito a espaço na bancada do banheiro, no closet que sempre é 80% delas, na escolha do cardápio, da cor das paredes… Que privilégios ainda queremos se decidimos praticamente tudo?

Decoração, por exemplo.  Ele reclama não poder dar  “teco”; além de não ser consultado, provavelmente  estaria ultrapassado.

Certa vez, conta-me ele, a esposa escolheu  adesivos para decorar a parede da sala. Passou horas equilibrada num banquinho aplicando o que deveria ser uma árvore seca, com o vento leste levando-lhe as folhas;  um negócio esquisito, que estava em quase todos os consultórios reformados em 2010.   Os galhos e folhas no vendaval pareciam persegui-lo: no restaurante , no barbeiro, em todo lugar havia uma versão mais ou menos feia que aquela, que o assombrava em frente ao sofá, todas as noites.

Ela perguntou-lhe, esperando a resposta que desejava ouvir: “E aí, amor, não ficou lindo?”.

Ele garantiu que estava bonito, mas isso não basta para uma mulher. Durante bom tempo ela voltava ao assunto, que o marido não gostava de nada que ela fazia e blá blá blá. Diz ele que só queria que ela entendesse que uma sala  roxo-cará com um esqueleto de árvore descabelada não era o que esperava ver diariamente. Mas resistiu, bravamente.

Até que semana passada, acordou na madrugada e a encontrou no banquinho, descolando a árvore maldita, folha por folha, com uma pinça de sobrancelhas.  Ela havia trocado móveis pesadíssimos de lugar.  Ele  prefere estar viajando quando ela tem essas crises e muda tudo de um cômodo para o outro. Não sabe quando ou se deve  elogiar; o certo é que é assim que a amada e complicada esposa alivia o estresse e ele respeita, como um bom marido deve fazer.

Disse-me que até gostaria de conversar e minimizar suas aflições, mas nos 20 anos de convivência, aprendeu que ela não quer sua opinião, quer ter certeza que está certa.

É mais fácil deixar que arraste a cristaleira durante a madrugada e, pela manhã, dizer com convicção que ficou ótimo.

Mauro conta que  ficou chateado quando o  “50 tons de cinza” fez sucesso entre as mulheres do nosso círculo. Elas comentavam detalhes, com risinhos comprometedores e olhares sorrateiros. Joca,  gaúcho meio tosco, pegou corda. “Mas como agora parece que todas  gostam de levar “umas tapas”? Bah, guri, podiam ter dito isso há mais tempo…” Na surdina,  leu os três volumes e depois de muito matutar,  revelou sua grande descoberta: se Chystian Gray fosse pobre e brasileiro, a mocinha o teria enquadrado na Lei Maria da Penha. E encerrou o assunto: “ Tanto tempo convivendo com uma, eu tenho mais que obrigação de entender as mulheres”.  Pelo menos um pouquinho.

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