Água

Um balde de água

O primeiro elemento que temos contato é líquido.Morno e acolhedor, nutre e protege.

Isso talvez explique a enorme fascinação – e respeito – que a água me inspira desde meus primeiros anos, da mais tenra infância até hoje.

Ao beber um gole, curto quando assume todas as formas e espaços do interior da minha boca; quando estou numa piscina, admiro minha mão, absolutamente rodeada por ela, como se fizesse um molde de mim.

Nem o ar – tão essencial – me causa tamanho prazer e contemplação.

Hoje, um dia extremamente quente, preparei-me para mais um delicioso banho. Dizem que os paraenses são os brasileiros que mais se banham, que saem com cabelos molhados sem nenhum problema e,  quando chove, mal apressam o passo, como se aquele fosse o habitat natural: água.

Adoro ouvir o ruído da espuma do xampu caindo sem cerimônia, espalhando o aroma de Tília. Quem me conhece sabe que tenho algumas manias, o ritual (ou seria o roteiro?) do banho, não seria diferente.  Mas hoje, ele foi interrompido por um pensamento aterrorizante, longe de ser apenas imaginação.

E se, por alguma razão, eu simplesmente não pudesse tomar esse banho, refrescante e revigorante? A sensação de permanecer mais tempo suada, com a roupa grudando ao corpo e o cabelo pesado de suor quase me causou pânico –  principalmente porque, nesse exato momento, milhares de brasileiros (nem precisamos ir até a África seca e extenuada) estão tomando banho com canecas e toalhas úmidas. Nordeste? Que nada, na capital financeira do país, uma amiga moradora do bairro da Lapa está com apenas um tonel de água, faz cinco dias. Usa descartáveis, só aciona a descarga três vezes ao dia, a roupa de cama, antes trocada duas vezes por semana, aguada dez dias antes de ir para a lavanderia.

Tente imaginar quem tinha como hábito usar roupas uma só vez – de manhã até a noite – ter que se conformar em deixá-la “respirar” num cabide, para repeti-la dias depois.

Para quem vive literalmente cercado de água, isso parece absurdo; na Europa, é normal. E achávamos que se tratava de problemas com higiene.

Quando Suas Altezas, o Imperador Akihito e Imperatriz Michiko do Japão estiveram em Belém em 1997, recebidos pelo Governador Almir Gabriel, tive a honra de recepcioná-los, como Chefe do Cerimonial do Governo. E uma de suas conversas mais interessantes, que acompanhei graças ao intérprete, o médico paraense Dr. Fernando Teiichi, foi exatamente sobre a maior de todas as riquezas do planeta. “Sobreviveremos sem petróleo, jamais sem água.”, considerou o Imperador, especialista em Ictiologia e ambientalista desde sempre. Na época, enquanto cortávamos o Rio Guamá, a frase me pareceu pessimista demais.

Akihito pode não ter o “dom” que o atualmente falido Ike Batista gabava-se de ter: poder ler hoje, o jornal de amanhã. Mas essa é outra história.

Sem água, morremos em três dias.

Há dez anos, a ESA (Agência Espacial Europeia) lançou no espaço uma nave que carregou o módulo de pouso Philae que, distante 510 milhões de quilômetros da Terra, pousou na quarta-feira, quase suavemente, no cometa 67P – o Chury. O mundo inteiro comemorou o sucesso de umas das mais longas missões espaciais.

Um cometa é formado, na maior parte, por rocha e água congelada, que “reflete” a luz do sol quando chega mais perto do astro rei.

O grande objetivo é verificar se a água congelada é compatível quimicamente com a da terra – e se as rochas possuem resquícios de microrganismos. Os cometas podem explicar a origem da vida na Terra – e da falta dela, em Marte, por exemplo, onde imagens do que parecem ter sido rios e mares nos apavoram, quase dizendo “eu posso ser você amanhã”.

Para a comunidade científica, o principal é a certeza que existe – ou existiu – água fora do grãozinho de areia cósmica que habitamos.

Para visionários criadores do cinema, não será difícil imaginar um cometa sendo rebocado para um local árido, aonde derreteria até salvar – novamente – nossos rios e vidas.

Depois de tudo isso, será que é muito difícil fechar a torneira enquanto escovamos os dentes? Ou estamos usando os óculos cor de rosa do Ike que, em vez de mostrar o amanhã, impediram-no de ver o enorme precipício bem a sua frente?

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