Mulheres reais

Mulheres reais

Ela poderia se chamar Maria, Rosa, Raimunda, Eliana. Das Dores ou Raquel. Poderia ter um nome bíblico, um nome comum ou um nome da moda. Tanto faz como se chamasse, desde que tivesse um futuro melhor.

Dizem que é  “como se fosse da família”, mas dorme no quarto apertado, não tem chuveiro quente nem é herdeira de nada. Não, não é da família, pelo menos não da sua.

Ela acorda antes das cinco. Dá um café com leite para os filhos, com pão torrado na boca do fogão, para não gastar tanto gás. Arruma a comida do companheiro na marmita e a das crianças, deixa na geladeira. Ajeita um arremedo de merenda e coloca na sacola dos pequenos, que não querem sair da rede na manhã chuvosa. Tenta deixar a casa em ordem e sai logo depois das seis, na esperança de conseguir pegar o ônibus, antes que esteja lotado.

Março em Belém é chuva sem hora para começar ou para acabar. Ela arregaça as calças e guarda os sapatos numa sacola de supermercado, junto com uma toalhinha puída.

“Deus proverá!”, agradece aos céus por sentar “na janela”, que deixa bem fechada. Até o Entroncamento, “lanceiros” tentam puxar as pertences de quem dormita com a cabeça apoiada no vidro. E como resistir a 40 minutos de sono, apesar das freadas e dos solavancos?

Ela desperta minutos antes do ponto. Enxuga os pés, guarda o trapo atoalhado, calça os sapatos e desce, esforçando-se para evitar a água e a falta de calçamento.

Chega à sua casa pouco antes das oito, rescendendo a um perfume que você jamais usaria, usando roupas que já foram suas, anos atrás. E você reclama do café que vai sair tarde, do seu atraso crônico no escritório e de outros tantos mal feitos. N a verdade, você não tolera acordar cedo.

Ainda em jejum, ela lhe serve uma bela fatia de queijo branco (que nem conhece o paladar), coloca pão sem glúten (que não sabe bem o que é) na torradeira, espreme 5 laranjas para fazer um copo de suco (que não toma) e procura na geladeira o mamão e a geleia que você gosta tanto.

Lá pelas nove, quando finalmente você tiver saído – não sem antes de uma lista de recomendações e idas e vindas atrás das suas chaves e do seu celular, ela irá sentar-se no banquinho da cozinha e tomará uma caneca de café com leite, enquanto assiste só o comecinho da Ana Maria Braga – e lembra que março não é só o mês das chuvas, mas diz-se por aí que é o das mulheres. Tanto faz. Na vida dela, nada muda, seja lá que mês for. Nada muda quando precisa amanhecer na fila de um posto de saúde de onde sairá sem os medicamentos – de que vale a receita, se não os pode comprar?

Ela vai lavar suas roupas “de mão e de máquina”, fazer o “bife-arroz-feijão-batata-frita-e-farofa” que seus filhos comerão felizes, arrumar e limpar sua casa do jeito que der. Ainda vai ao supermercado comprar ovos e pão fresco, para o lanche que deixará semipronto.

Quando você chegar reclamando que ela poderia fazer “alguma coisa diferente” (coisa essa que você nem sugere ou determina) ela ainda estará balançando no segundo ônibus, rezando para que o marido não pare no bar a caminho de casa – e que a vizinha não tenha se atrasado para ir buscar as crianças na parada.

Não houve dia da Mulher, disso ou daquilo. Nada foi diferente na vida dessas mulheres que tornam possível existir a tal mulher moderna que você acha que é.

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