Coisa de jovens

Esses pobres moços.

Toda semana alguma notícia envolvendo jovens leva-me a tentar entender o que deu errado na clássica história da família que fez o possível para facilitar aos filhos acesso à faculdade, a um bom emprego; a tudo que, um dia, foi o sonho desses meninos e meninas que julgavam conhecer “tão bem”.

A primeira reação é procurar a causa na (falta de) educação recebida em casa, demonizando pais que, muitas vezes, são as maiores vítimas.

Ninguém acalenta um filho para ser, um dia, sua dor, mas pais serão sempre culpados por dizerem sim, por dizerem não, por não dizerem nada – ou tudo.

A razão está, quase sempre, bem longe dos lares onde essas quase crianças têm seu quartinho com a tecnologia desejada, camas confortáveis, roupas limpas e comida quentinha. Lares onde são aguardados todas as noites, com sono e apreensão, entre Pai-Nossos e  Ave-Marias, até ouvi-los chegar – e disfarçar o alívio, para que não percebam que estavam sendo aguardados. Para que não percebam que são as crianças que emprestamos ao mundo – e à tribo – por algumas horas, mas exigimos sua devolução, sãos e salvos. Inteiros. Vivos.

Os “bunkers” que pais mantém funcionando com esmero, não garantem que as distorções da sociedade que acolhe seus filhos, não os afetem de maneira irreversível. Como a morte.

Os que exemplarmente passam ao longe da influência do grupo, nem sempre são vistos como. Precisam de “tutano” para enfrentar o “bullying”, por mais velado que seja. Brincadeiras têm viés crítico aos que não bebem (muito), que namoram “firme” ou telefonam para os pais.

“Bom mocismo” virou “babaquice”, que deve ficar para trás, em última instância, nos cursinhos de vestibular.

E então transgressores viram os corajosos; rebeldes, heróis. Faz sucesso quem não é “comportado”.

Moças e rapazes não conseguem ser o que os pais almejaram. O grupo exige isso, mesmo que nenhum deles tenha consciência. E grupo é tribo; vestem-se de maneira parecida, usam celulares compatíveis, ouvem as mesmas canções. Bebem juntos, tomam coisas esquisitas, juntos. Faz parte do show inconsequente.

A maioria se acha “mais”. Mais legal, mais arrojado, mais forte. Nada pode acontecer com pessoinhas tão, tão… Daí é fácil tomar dois, quatro, sabe-se lá quantos comprimidos de “ecstasy” e virar o rei – ou a rainha – da festa. Quem se acha ‘mais’, busca mais.

Chora-se depois pelo bom moço, que na verdade esteve morrendo a cada dia um pouco, durante anos. O grupo perde o seu “guerreiro”, depois de pavimentar, com convenções não escritas e malmente ditas, o caminho que só tem um destino final. Nas redes sociais o lamento não implica reflexão.

Os leitores dessas tragédias cotidianas oram em silêncio para que, daquelas tribos, alguns sobreviventes saiam ilesos, capazes de obter sucesso – de fato e de direito.

Jovens precisam que adultos em geral (a sociedade e os familiares) consigam transmitir valores renovados, com apelos mais robustos que a popularidade idiota dos concursos de bebidas ou das noitadas nas baladas. Precisam de bons exemplos, boas conversas e boas rédeas. Precisam saber que podem perder.

Que línguas devemos falar para conseguir o diálogo? De alguma maneira, devem entender os riscos e a fragilidade da vida, que é curta para tantos sonhos, mas longa demais para quem carrega uma enorme saudade.

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Mariléa Coelho Ribeiro
    nov 03, 2015 @ 07:54:41

    Magnífico! 👏🏻 👏🏻 👏🏻 👏🏻 👏🏻 👏🏻 👏🏻 👏🏻 👏🏻 👏🏻
    Como faço para ter uma cópia em meus arquivos, gostaria de ler para o meu filho sempre. Aguardo retorno!

    Responder

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