Antes que esqueça

Antes que eu esqueça

A rotina era a mesma, todos os dias. E se havia rotina, tudo caminhava da melhor maneira possível.

Esforçava-se para chegar em casa antes das dezenove. Evitava trânsito e a tradicional “esticada” depois do escritório. Passava na padaria e comprava o lanche: pão francês quentinho, queijo prato Regina e presunto, em finíssimas fatias.

Preparava o sanduíche com carinho, uma xícara de café com leite e caminhava até o quarto, cantarolando para anunciar a sua chegada.

Ela estava na poltrona, cabelos penteados, colo “entalcado” denunciando o banho recém tomado. Usava os brincos de pérolas e estava linda na camisola de cambraia, rescendendo a “cheiro do Pará”. Os olhos verdes pareciam cada vez mais claros, dois lagos tristes. A conversa era sempre a mesma, mas ele não se importava.

Ajeitava a bandeja, e ela perguntava: – Onde está o Edgar?

– No banco, logo estará aqui.

Partia o sanduíche, para que ela pudesse comer melhor.

-Fiambre.

Ela lembrava o presunto fininho que chamava de fiambre, como no seu Portugal natal. De vez em quando, parecia distante, até perguntar novamente pelo marido, falecido há mais de dez anos. Depois, olhava-o, franzindo a testa.

– Quem é você?

Ele pegava então o velho álbum de fotografias e mostrava-lhe página por página.

– Quem é esse?

Ela abria o sorriso e, com o indicador curvado, identificava a própria família, que permanecia resguardada num passado distante que hoje, era tudo que tinha.

-Edgar, Helena, Eduardo…

-Esse sou eu, mãe.

Ela o olhava e repetia “Eduardo”…

– Você se lembra, mãe, da casa no Mosqueiro?

E uma luz se acendia no fundo da alma daquela mulher que tinha sido sua mãe amorosa e dedicada. Trabalhara “fora” numa época em que era muito difícil ter a própria carreira. Mas ela queria que os filhos recebessem boa educação. Cursaram inglês, música e tiveram todas as atividades típicas, como natação, judô e balé. As meninas tinham que dançar balé, naqueles tempos.

Ele tomava os pés da mãe e aplicava-lhe uma massagem suave. Lembrava as noites em que ela o massageava com “Transpulmim”, para facilitar-lhe a respiração. Apenas devolvia parte dos cuidados que ela tivera com eles.

Viam as fotos até o final, quando então lhe dava a medicação para dormir. Depois das atividades noturnas, ele a acompanhava até a cama, ajeitava o lençol e o pequeno travesseiro.

– Onde está o Edgar?

-No banco, mãe. Vamos rezar?

E repetia a mesma oração que, por tantos anos,ela recitara entre as camas dos filhos. “Santo Anjo…”

-Amém.

Ela segurou-lhe o pulso, com a mão trêmula.

-Quem sou eu?

Ele engoliu a emoção, acariciou-lhe o rosto, ajeitando os alvos cabelos. –Você é minha mãe, a melhor mãe e avó do mundo e todos nós a amamos muito.

Ela aconchegou-se e sussurrou. – Eu não lembro de você, mas obrigada…

Ele acendeu o abajur para que uma luz tênue a deixasse mais segura, caso acordasse.

Agradeceu a Deus por não esquecer jamais, ele próprio, do amor que os havia unido. Agradeceu o carinho e aceitação da esposa que sabia que estavam não só cuidado da sogra, mas educando os próprios filhos para a vida, para as coisas de família e amor.

Na manhã seguinte, tomariam café juntos e, apesar da correria, teriam uma chance de estar com ela, lembrando que a mais importante das recordações é a que é amada, muito amada.

(Com amor, para alguém muito especial.)

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Antônio Salgado
    abr 16, 2015 @ 09:53:45

    Ao ler sua crônica desta terça feira (14) mais uma vez pude certificar a sensibilidade que lhe é peculiar quanto aos acontecimentos do cotidiano e das relações afetivas. Através dela me transportei à lembrança de minha mãe falecida em outubro passado com 100 anos acometida do Mal de Alzamer. Apesar de tudo dedicamos a ela toda atenção e carinho como gratidão por tudo que ela nos proporcionou enquanto viveu, inclusive com sua abençoada longevidade. Parabéns pelo deleite de suas crônicas semanais.

    Responder

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