A última de 2015

Peço perdão

Era o ano de 1977. Distante, não é? Eu cursava o primeiro ano de Odontologia e, na grade curricular, algumas disciplinas eram comuns ao curso de Medicina. Na turma de anatomia conheci o Miguel.

A simpatia foi imediata e, estou certa, recíproca. A primeira coisa que notei foi seu sotaque “lusitano”, tão agradável aos meus sentidos. Depois, o enorme sorriso. Meu colega era angolano, fugindo da terra natal por conta da guerra civil que dizimava o país. Tinha modos fidalgos e falava-me na casa – o seu lar – de amplo terreno e portas teladas. Lá morava com a irmã e, além de estudar, ganhava a vida como fotógrafo. Eu vivia outra realidade. Um lar classe média de família respeitada e nada me faltava. Ele viveu a guerra e a perseguição. Aos dezoito eu havia comprado meu próprio Fusca (com “meu dinheiro” como adorava frisar) e nem lembrava quando havia tomado o último ônibus ou contado os trocados. Miguel era um refugiado.

No segundo ano eu já não frequentava o  “campus” e, nem lembro a razão, não estive mais com o colega que tinha levado para almoçar em casa, para apresentá-lo aos meus pais e avó.

A vida passou… Praticamente esqueci que em muitos países, pessoas comuns como eu, você ou Miguel estão partindo praticamente só com o que vestem e o que podem acomodar em uma valise, para fugir da guerra, da fome, da perseguição. Ou da morte num bombardeio, na lâmina da faca de um fanático que não tolera que se pense diferente.

Em setembro, durante férias, nosso guia advertiu que poderíamos fazer um trajeto mais longo até Medugorje para “fugir” dos refugiados. Senti-me mal, ao pensar que nos referíamos àquela gente sofrida como um mal a se evitar. A comoção causada pela imagem de Alan Kurdi (cujo pai corrigiu a grafia do nome, divulgado como “Aylan”) e seu irmão, nas areias de uma praia da Turquia, ainda era recente e dolorosa, especialmente para quem tem crianças. Tentei não ficar deprimida e esquecê-los, admirando as belíssimas paisagens.

Menos de duas semanas após retornar, vi na TV a imagem da fronteira naquela mesma estrada na Croácia, com uma fila enorme de pessoas caminhando, expostas à fome, ao clima que já começava a esfriar durante a noite e à chuva, frequente na região.

Já era impossível pensar em outra coisa.

É muito mais “fácil” ignorar quem teve outros (des) caminhos e, por conta muitas vezes dos vícios, acaba sob uma marquise, indigente e excluído. Quando é alguém que poderia ser você ou um dos seus, é quase impossível (se você tem alguma consciência cristã), “deixar pra lá”.

No Natal, no aconchego da minha família e da mesa farta, na santa paz que todos nós almejamos, meu coração estava inquieto, como se eu tivesse uma enorme vergonha por ser tão feliz e esquecer os condenados à indiferença de quantos sua condição incomoda. E incomoda muito. São pais e mães, trabalhadores e amorosos, meninos com seus bonecos do Homem Aranha, meninas que rodopiam em tutus cor de rosa,  avós que ninam os netos, tias que fazem bolo de chocolate para o café em família. Gente como eu, como você, como Miguel. Como Alan.

Tente imaginar o que é não poder ficar na própria casa – que deveria ser, sempre, o melhor lugar do mundo. O que é temer o próximo bombardeio tanto quanto não poder chegar a lugar nenhum.

Sinto vergonha por ter me indignado tão pouco. Sinto vergonha por fazer parte dessa espécie que é capaz de ignorar o semelhante.

Nesse momento não sei o que posso, além de reconhecer o quanto minha indignação foi discreta e débil demais. Meu coração comovido pede perdão e me cobra clareza e atitude, para que um dia não precise explicar aos meus netos que eu poderia ter feito algo e simplesmente preferi pensar em outra coisa.

Que em 2016, acima de tudo, as pessoas possam viver em harmonia. Que a dignidade e a tolerância sejam as grandes conquistas. Dos nossos descaminhos, nós mesmos devemos tratar.

Afinal, quem colocou a tartaruga no poste pode, sempre, retira-la de lá. É só querer.

 

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