Ainda precisa melhorar muito

(Belém, 23 de novembro de 2015)

Ainda precisa melhorar muito

Quando esse tema retorna, acabo me sentindo inconveniente. Quase como quem só fala mal de Belém, coloca defeito em tudo – e todos – mas é pouco diferente da maioria. Para transformar qualquer assunto em crônica, deixo de lado idiossincrasias e tento ser isenta.
A falta de qualidade na prestação de serviços em terras paraenses ainda é um problema, apesar de alguns setores apresentarem bons resultados – uma exceção que está longe de ser regra. E o problema somos nós, a população. Ricos, pobres ou nem tanto, carecemos de respeito pelos demais, seja no público ou privado. Em certas ocasiões, dá até vergonha.
Em que outro lugar você precisaria de praticamente “implorar” para comprar um carro depois de ir à concessionária três vezes e não receber qualquer ligação de algum vendedor interessado? Onde mais lhe entregariam o carro de outra pessoa, com película e som que você pagou, só descobrindo o equívoco dez dias depois? Em Belém.
Em Belém, durante o recadastramento, de posse da certidão da estudante, a servidora pública percebe o erro no nome e, em vez de resolver, decreta que a menina há quatro horas na fila, deve voltar à Pratinha, pedir à Diretora para enviar a correção à Secretaria de Educação para voltar, nem ela sabe quando.
No restaurante, me esforço para o garçom perceber minha existência. Quando finalmente me “vê”, trata-me de “amor” e volta com o refrigerante com o gelo e limão – que detesto e recomendei não colocar.
No “segundo maior plano de saúde”, resultados de exames são entregues apenas até dezesseis horas, pouco importa se você trabalha. Na sexta, o expediente encerra meia hora antes, já que a mocinha precisa trocar de roupa para o “findi”. Pode, Freud? Pode. Em Belém pode-se tudo. O pedreiro, contratado por mim, acabou de reparar a calçada vizinha pouco depois das quatorze horas. Às dezessete, outro vizinho já havia ocupado a vala com um monturo de tábuas, cheia de pregos. E ele se importa com crianças que passeiam ou com a minha despesa? Na lanchonete famosa, funcionários berram o tempo todo, danem-se os clientes. No hotel estrelado, o recepcionista ignora o senhor que tenta contratar uma festa de formatura e vai embora.
Nossa gente está se tornando conhecida por carecer de bons modos e respeito.
O carro que circula com som em volume descomunal, a rede de farmácias que atormenta a vizinhança com o radialista chato berrando no microfone de um trio-elétrico, a banda que “passa o som”, ignorando que, ao lado, pessoas que também pagaram para usar o local tentam trocar conhecimento.
Perdemos os parâmetros durante anos em que deixamos essas coisas “para lá”, achando muito mais fácil culpar o Prefeito, o Governador e o Bispo pelos nossos maus modos. O lixo que se joga nas ruas, a Prefeitura que limpe! Entre outras coisas, a Prefeitura deve roçar a sua calçada, o meio-fio, recolher os montes de entulho que se atira nas ruas e nos canais. (Quando nos chamam de porcos fico sem graça, mas entendo.) Na escola, os mal educados vão quebrar as carteiras, e daí? Os banheiros serão destruídos e, lá pelas tantas, pais irão reclamar na TV, já que “pagam impostos”. Então tá.
É óbvio que o governo, em qualquer nível, está longe de atender a todas as necessidades da população. A questão é quando vamos nos dar conta dos prejuízos que todos sofremos, por aceitar coisas do gênero? Não quero garçons – ou quem quer que seja -me chamando de amor, não quero ser ignorada pelo recepcionista, não vou fazer negócio com quem não me dá atenção. Não vou comprar NADA na farmácia barulhenta ou na loja em que a vendedora me recebe avisando que lá não existe “nada para o meu tamanho”.
Fico me perguntado quando empresários e gestores públicos vão perceber a necessidade de empreender uma verdadeira cruzada pela educação e qualidade. Nos supermercados e lojas, nos bancos, nos postos, nas ruas. Atender é mais que “vender”, olhar o cliente e vê-lo, de fato. Jogar o lixo no lixo e não cuspir no ônibus. Encontrar doutores que olhem você antes de rabiscar uma receita. E que se esforcem para fazer uma caligrafia minimamente inteligível.
Isso é educação. Por enquanto, não tenho esperanças de poder participar dessa revolução. Todos parecem mais interessados em… Deixa para lá. Que lástima.

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