Canção para Fernanda

(Belém, 6 de julho de 2015)

Canção para Fernanda

Pense em água e vinho. Inverno e verão.
Assim somos Fernanda e eu, absolutamente diferentes, mas complementares em tudo.
Vimo-nos as primeiras vezes no Curso de Odontologia, no prédio da Praça Batista Campos. Apesar da simpatia, habitávamos planetas diferentes. Eu vivia a juventude com estardalhaço, ela era centrada e parecia responsável demais, com seus jalecos brancos e muitas apostilhas. Não se assuste, era 1978 e eu achava que teria 20 a vida inteira.
Mas Fernanda, não. Sonhava ser dentista e levava tudo a sério. Eu não sabia o que gostaria de fazer daí um ano e não me concentrava em quase nada. Era muita animação na Belém dos Bailes do Tigre e do Havaí, dos réveillons da “Apê”.
Passei uma temporada em São Paulo e perdemos o contato. Ambas com diploma, ela usando o dela num consultório, eu procurando novos caminhos. O tempo passou até que em meados de 1995 (é meu bem, sou antiga!) a reencontrei para sempre.
Fernanda era odontóloga da Sespa (Secretaria de Estado de Saúde) e eu, assessora na área de cerimonial e comunicação.
Tratávamos da implantação do programa Qualidade Total e, com a simplicidade que é sua característica, explicou-me que não podia mais clinicar por conta da cirurgia para vencer um câncer bilateral de mamas. Foi demitida anos depois por não poder atuar na profissão, apesar da dedicação aos gabinetes que se sucediam. A dentista não podia usar os braços como tal e, mesmo sabendo disso, mandaram-na embora. Enfim.
“Deus preferiu que eu mudasse meus planos.”
Com essa resignação que só seres superiores têm, Fernanda enfrentava idas e vindas que a colocavam à prova, sem duvidar da justiça divina.
Ficara viúva com dois filhos muito cedo e, depois, mãe solteira de mais uma menina. Lutava com uma dignidade capaz de me nocautear.
Viramos colegas de trabalho por alguns anos, mas a amizade tinha o selo da qualidade e da longevidade. Podíamos passar meses sem conversar, mas se precisássemos de acompanhante em alguma internação hospitalar, sabíamos contar uma com a outra. E esse tipo de intimidade que expõe até nossas entranhas não se tem com qualquer um. Só com quem confiamos plenamente.
Estivemos juntas nos bons e maus momentos, que ficaram menos ruins por contarmos com apoio mútuo. Na reconstrução de suas mamas, eu estava lá. Quando a paciente era eu, cuidou de mim. Amparou-me quando perdi meu pai.
E também zelou pelo meu bem estar quando trabalhamos juntas.
Fernanda é assim, de doar-se com boa vontade e amor pelo que faz, pelos seus, por quem precise de sua atenção.
Quando tudo parece dificuldade, além de não queixar-se, é capaz de fazer algo bom por quem quer que seja.
Quando conheci meu marido, ela estava comigo. Chegamos a brincar sobre “arrumar casamento” e ela me disse, emocionada, que havia decidido dedicar-se aos filhos e a Jesus – e que ficaria feliz se eu encontrasse a minha “banda da laranja”. Meses depois era a única, além da minha família, no nosso noivado. Entregou-me uma carta que guardo até hoje. Na doença do meu pai, ofereceu-me a Prece de Cáritas, copiada com letra caprichada e nenhum erro.
Ela adora copiar coisas, orações, mensagens, salmos e oferecer a quem intui estar precisando de uma palavra de incentivo.
Certa vez pensei que Deus, por alguma razão, jamais havia me testado, tantas eram as tribulações que Fernanda passava, sem que a fé em Sua palavra se acanhasse.
Maldade é, sem dúvida, um sentimento que jamais lhe fez nódoa. Penso que Deus – ou o destino – não permite que nada aconteça ao acaso. Conheci Maria Fernanda Lobato do Nascimento para que ela me servisse de exemplo e, através de sua bondade, me tornasse melhor.
Preparo-me para o que pode ser nosso último encontro, num ambiente hostil e frio de hospital. Quero segurar-lhe as mãos e dizer – pois sei que escutará – que foi uma honra ter privado da amizade de uma pessoa tão especial.
Quero pedir-lhe perdão por todas as vezes em que pude ir visitá-la e não fui. E assegurar-lhe que sim, tornei-me uma pessoa melhor por ter sido tocada por Deus, por seu intermédio.
A vida é curta demais. Rápida demais.
(Fernanda faleceu quarta-feira. Durante o velório, o último caderno com suas anotações pode ser lido pelos mais íntimos. Na capa, ela dizia se imaginar sendo recebida por Jesus, em cuja companhia poderia desfrutar de paz eterna.
Voltei para casa triste, mas com a certeza de que ela estava muito bem.

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