Considerações sobre a chatice

(Belém, 15 de novembro de 2015)

Considerações sobre a chatice

Em tempos de tragédias, desopilar o fígado – e a alma – é fundamental. E é quando você pretende relaxar que o chato – ou a chata – resolve aparecer, invariavelmente sem avisar. Chato adora fazer surpresa, dar sustos, pregar peças.
Passei parte do domingo compilando algumas observações sobre esses tipos que, graças à Santa Rita, não são tão numerosos a ponto de estragar o final de semana. Podem, no máximo, ameaçar. Com algumas manobras espertas, dá para transformar esse limão numa limonada. Caipirinha? Não seja tão otimista.
Saiba que o tema já foi objeto de muita gente “de peso”. Mário Quintana disse que “há duas espécies de chatos: os chatos propriamente ditos e os amigos, que são os nossos chatos prediletos.” Discordo: amigos, de fato, jamais são chatos. Melhor assim.
Ariano Suassuna acertou: “o otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso.” Talvez isso justifique minha inquebrantável boa vontade para com o mundo.
Existem chatos de todos os tipos. O chato que se acha engraçado é um dos piores para suportar, principalmente quando você acordou com uma enxaqueca daquelas.
Sabe a máxima “perde um amigo, mas não perde a piada”? Deve ser lavra do próprio; o problema é que, analisando mais atentamente, os amigos são quase nenhum. Dois no máximo. OK, três. Afinal, tem pais vivos, vá lá.
Ele esquece que já contou aquela passagem (que até era engraçada) tantas vezes que ninguém mais se surpreende ou ri. Mas ele gargalha! Tenho certeza que você conhece um chato “engraçadinho”. E torce para não encontrá-lo.
Uma coisa os chatos (e chatas) têm em comum: eles têm opinião e longas respostas. Para tu-do.
Melhor colocar o celular no ouvido e cumprimentar “en passant”. “Bom diiia, amigo!”, mantendo passos largos, rumo ao outro lado. Aff.
Adolescentes tardios não chegam a incomodar, mas constrangem os amigos que pensam em se enterrar – ou mudar de amizades. Quem já tem netos deveria pensar neles, antes de usar uma camiseta justinha, tipo “Biba Man”, que ninguém mais usa desde os anos 70. Esquecem, também, que fotografias permanecerão além dos tempos, inclusive aquela pose com sunguinha vermelha mostrando as tatoos do século passado ou a senhora com mãozinhas roliças, uma sobre a outra, apoiando o queixo, cabecinha de lado e um sorrisão virginal. Como disse, nem chegam a ser chatos, apenas nos matam de vergonha. Já não é o caso dos bobocas que pregam bilhetinhos nas costas dos colegas, pisam em sapatos novos, puxam a cadeira para alguém se estatelar, “viralizam” a foto em que você está gargalhando (aconteceu comigo!) e insistem num assunto que você prefere esquecer.
Nas redes, o tipo mais comum é o que marca você em mil correntes, com ameaças que lembram um presidente argentino que perdeu o poder por não ter cumprido sua parte. Hã? Ignore. Ou responda que você soube, por fonte segura (e que já saiu até no Fantástico!) que todos os que compartilham tal corrente acabam tendo sete anos de azar, perdas financeiras e doenças misteriosas – como a síndrome do intestino irritável.
O domingo está quase acabando. O noticiário apresenta perspectivas de um futuro repleto de insegurança e ameaças.
Um pianista coloca o piano na calçada e divide com a cidade o que sabe fazer de melhor. Um homem varre as ruas, em pleno dia de folga, e um taxista desliga o taxímetro para poder transportar quatro pessoas. Cada um, a sua maneira, tenta levar um pouco de alegria a quem está apreensivo. Resolvo esquecer a seriedade, a tristeza e as dores.
Hoje, precisamos de alegria. Aquela alegria insistente, quase sem noção. Se melhorar o astral, valeu. Valeu até ser um tanto chata.
Para encerrar, uma tirada bem humorada da publicitária e roteirista Tati Berardi: “Um chato metido a rico é um “chateau”.” Não é?

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