Junho

(Belém, 01 de junho de 2015)

Junho

Enquanto tento enxergar a linha “invisível” para costurar dezenas de laços nas pequenas saias de babados, minha imaginação voa, visitando algumas das festas de S. João da minha infância.
Sempre amei o mês de Junho. Nossa casa exalava o aroma do mungunzá, o leite de coco inebriante. O bolo de macaxeira era anunciado por outro perfume que me despertava imediatamente. Adoro bolo quente, recém-saído do forno… Meus olhos marejam com tanta saudade.
Moramos muitos anos ao lado da Tia Carmélia, irmã do meu pai. Crescemos como uma família única, que aumentava com a família de minha mãe. No dia de S. João, na Dr. Moraes, todos colocavam mesas e cadeiras nas calçadas – e muitos quitutes. Havia uma tímida fogueira, bandeirinhas, bombinhas, estalinhos. Podíamos experimentar as delícias sem constrangimento.
Definitivamente, em Junho eu era totalmente feliz.
Na escola, me esforçava para não dar vexame na coreografia da quadrilha. Hoje percebo a razão de ter sempre mais amigos meninos que meninas. Eu era (desde sempre) a gorducha da turma, mas por alguma razão, entre eles isso não era problema. Eu era quase um deles. E me sentia acolhida.
Enquanto fardas e vestidos estavam sempre impecavelmente engomados, os meus eram meio amassados; em vez de sapatos com saltinhos disfarçados, preferia o Bamba cano alto. Por pouco tempo tive cabelos longos, o “Joãozinho” me caía bem, por conta das “danações”. Mas em junho, não. Eu ganhava as duas trancinhas mirradas de um chapéu que passava o resto do ano no fundo do armário. O vestido era enfeitado com retalhos, bordado inglês e laçarotes e eu me sentia o máximo, mas nunca o suficiente para candidatar-me ao “Miss Caipira” – que tinha sempre as mesmas concorrentes: as cinco meninas mais lindas da escola. Como sonhei com aqueles votos vendidos!
Penduro os dois pequenos vestidos e penso que elas serão duas princesas, exatamente como sentia-me naqueles dias em que a saia farfalhava e eu podia rodar, rodar…
As festas que mais deixaram saudade foram promovidas pela “Turma”. Colegas de meu pai reuniam-se em animados encontros, todos os meses. (Quem ainda faz isso?) e por três ocasiões incluíam os filhos: Dia das Crianças e Natal (no Jardim de Alah, na casa do Dr. Canuto Brandão), e na festa Junina, no sítio do Dr. Rainero Maroja, na Br.
Lembro de uma, muito especial. Enquanto nossos pais divertiam-se com a dupla dos Drs. Libório e Canuto, crianças e adolescentes brincavam no fundo do quintal, próximo à fogueira e a um muro, que constituíam nossos limites. Eu não era nem uma coisa nem outra, e tentava entrosar-me.
Lá pelas tantas, joguei-me na grama e olhei aquele céu, velho companheiro das noites do Marajó. Um azul intenso, nenhuma nuvem e a lua, majestosa, prateava tudo, inclusive nossos rostos. As estrelas pareciam ter vindo espiar.
Pela primeira vez, agradeci a Deus por estar viva, o peito estufado de tanta felicidade. Levantei-me, ajeitei saias e anáguas para que a grama soltasse e corri para a fogueira, onde esperava saltar e realizar o meu pedido.
Coloco os dois vestidos das minhas netas lado a lado. Ficaram lindos, perfeitos para que comecem a amar esse mês tão especial.
Quem sabe, um dia, possam olhar o céu e agradecer tamanha felicidade. Tanta que quase dói. Tanta que dá para dividir e sobrar um bom bocado.

“Olha pro céu meu amor
Veja como ele está lindo
Olha pra’quele balão multicor
Que lá no céu vai sumindo

Foi numa noite
Igual a esta
Que tu me deste
O teu coração
O céu estava
Todinho em festa
Pois era noite de São João
Havia balões no ar
Xote e baião no salão
E no terreiro o seu olhar
Que incendiou meu coração.”

(Olha Pro Céu Meu Amor

José Fernandes e Luiz Gonzaga)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: