Livre, leve e solto

(Belém, 10 de agosto de 2015)

Livre, leve e solto.
Nos primórdios acumulávamos alimentos, temendo invernos e disputas. Mais tarde, as guerras causaram desabastecimento, e a população armazenava até água potável.
Recentemente, comprar mais que o necessário está mais ligado a questões psicológicas. Carentes de afeto dão-se presentes, insatisfeitos com o peso, com a vida em si, compram. E o mais inquietante é que o distúrbio acontece, inclusive, entre pessoas de baixo pode aquisitivo que simplesmente guardam tu-do! E isso incomoda muito. Entre os efeitos colaterais estão insônia, baixa autoestima e depressão, entre outros.
A sensação é reconhecida entre homens e mulheres, no entanto, sabemos que elas são mais afeitas a pensar nessas coisas da vida, suas razões e efeitos.
Aos poucos você sente um peso esquisito, misto de culpa e impotência. A princípio, não identifica a razão – ou talvez não queira identificar.
A maturidade – independente da idade – pode nos preparar para um processo necessário para se viver melhor. Para mim o desapego tem sido uma das melhores coisas dos últimos tempos.
Você evita arrumar armários, não encontra aquela travessa que lembra vagamente ter comprado, e, finalmente, compra uma peça absolutamente igual? A casa vira um clone seu, arrumada por fora, mas em desordem interior. Meses de procrastinação, empurrando quase tudo para depois. Depois de quê, só Deus sabe.
O melhor a fazer é encarar a difícil missão de tornar sua vida mais leve – livrando-se do que não serve, não usa, não gosta ou não funciona – antes que desconfie ter certa vocação para acumulação patológica. (É só brincadeirinha.).
“Magica da Arrumação” de Marie Kondo, (especialista em organização) proporciona uma boa dose coragem; apesar de cansativo, o tal “desapego” tem sido um mergulho de autoconhecimento, libertador e, em alguns momentos, divertido.
Quem não comprou uma roupa linda que não servia, com preço de ocasião, jurando emagrecer para usá-la? Eu tinha um enxoval de vários manequins, alguns que talvez me coubessem aos 15 anos.
Para que, diabos, eu precisaria de um quimono? Um não, dois! E outras esquisitices dariam algumas crônicas.
Os exageros incluíam 100 forminhas de empadas, cafeteiras, das tradicionais às turcas, de ebulição, globinho, filtro de papel e alguns velhos e eficientes coadores de pano. Redes? Várias.
O desperdício que a acumulação causa tem muitas explicações que constituem um capítulo a parte. Imagine o quanto poderia ter viajado com o valor investido em tantas inutilidades?
Mulheres acumulam mais que homens, mas eles têm lá seus maus momentos. Conheço alguém que guarda centenas de publicações rurais – incluindo suplementos de diversos jornais – que pretende usar um dia. Detalhe; não tem fazenda, sítio ou quatro metros quadrados de terra. Outro guarda parafusos, chaves e toda sorte de tranqueiras e acha que é um colecionador.
Para que serve guardar todos os convites que recebe? Ou fotos que não lhe trazem alegria?
O momento em que se percebe o quanto “pesa” viver num ambiente com coisas que não são úteis e apenas lhe tomam espaço, é libertador.
Marie Kondo usa uma expressão que pode desestimular o processo: jogar fora. Pensar que o que guardou tanto tempo pode virar lixo impede que muitos se desapeguem. Pessoalmente, acho muito mais interessante separar o que deve ser descartado e o que pode ser doado – para pessoas ou entidades que mantém brechós para financiar parte de suas ações. Um destino nobre para minha calça jeans lindíssima e pequena demais, que hibernou no meu closet por mais de dez anos.
A crise que enfrentamos também está nos obrigando a pensar no que realmente precisamos para viver bem, sem lastro “morto”.
Você sabia que se pode reconhecer um acumulador pelas malas? Mas isso é assunto para a próxima terça. Bom dia!
(Continua)

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