Mais que um címbalo

(Belém, 9 de novembro de 2015)

Mais que um címbalo
“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o címbalo que retine.
E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.”
A leitura da missa em ação de graças pelos quinze anos da minha filha, como a grande maioria, foi a célebre Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, sobre a importância do amor. Naquele momento meu coração estava aos pulos e, para ser honesta, não me detive na mensagem. Mais alguma coisa sobre amar, pensei.
Na verdade, eu também era imatura demais – como a maioria dos que fazem essa leitura.
Dezoito anos depois, acho que já consigo entender melhor a língua dos homens; a dos anjos é a que a gente usa para conversar consigo mesmo.
Fico surpresa que o texto (que trata da formação do caráter do ser humano) possa, ainda, ser tão pouco entendido por quem, a princípio, estaria escutando. Ouvem, mas não escutam. Como se o tal címbalo tinisse em lugar distante.
Nem mesmo a célebre interpretação de Renato Russo (que, num momento de inspiração, o mesclou com versos de Camões) no hit Monte Castelo, conseguiu instigar jovens para o chamado da epístola sobre o comportamento cristão, uma das mais difundidas no mundo. Uma bela canção e nada mais.
Será?
Trata-se da carta dirigida aos habitantes de Corinto que, ao lado de Roma, Éfeso e Antioquia (Síria) constituíam as cidades mais importantes do Império Romano. Questionado sobre muitos assuntos, na maioria, discórdias, São Paulo lembra que o amor – generosidade, afeto, respeito, compreensão, altruísmo – é a base da verdadeira felicidade, que transforma a todos. Mudam os tempos, mas no fundo, continuamos sem entender uns aos outros.
Os exemplos poéticos cabem à perfeição. Falar e ser ouvido, e, o essencial: ser entendido. Quando se fala com amor, a comunicação se completa. Quantos já tentaram “falar ao coração”?
Trata, ainda, sobre a verdadeira generosidade, que vem da alma e dispensa reconhecimento e congratulações. Sobre seguir as próprias pregações.
A Primeira Epístola de São Paulo aos Corintios continua atual, atualíssima, aliás.
As redes sociais estão repletas de quem compartilha otimismo e não tem fé; quem fala em Deus com arrogância e não é generoso. Quem não sabe, sequer, respeitar ao próximo nem a si mesmo.
O címbalo (uma espécie de pequeno sino) pode fazer ruído sem nenhum significado. Exatamente como essas palavras proferidas por quem as usa em benefício próprio: nada mais que ruídos.
O amor, só ele transforma cada um num templo. É disso que nos fala o apóstolo.
Semana passada, na igreja repleta de jovens, pensei que, naquele momento, Deus estava em cada coração. As mãos dadas, o Pai Nosso em voz alta, tudo parecia me levar novamente à missa na pequena “Capela de São Joãozinho”, tantos anos atrás.
Quando fechamos os olhos para encontrar a própria fé, conseguimos falar e compreender a língua universal do amor.
E ele soa, alto e forte, acima de todas as coisas. E assim será, posto que o amor é que transforma.
“Quando eu era menino, pensava como menino; mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.
Porque agora vemos como por espelho, em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei plenamente, como também sou plenamente conhecido.
Agora, pois, permanecem a fé, a esperança, o amor, estes três; mas o maior destes é o amor.”(trecho final da Primeira Epístola de São Paulo aos Corintios)

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