Não é um conto de Natal

(Belém, 7 de dezembro de 2015)

Não é um conto de Natal
A todo momento o ser humano me surpreende. Em algumas ocasiões, chego às lágrimas – por tristeza ou alegria. Noutras, dá-me vontade de rir. Na maioria, acabo pensando no que ainda me falta ver. Somos uma raça complicada. E predadora.
O comercial natalino de uma rede alemã de supermercados anda emocionando o mundo. Dizem que foi visto – e compartilhado – até pelo Papa Francisco. Narra a história de um idoso prestes a passar a noite de Natal sozinho já que os filhos terão outros compromissos. Na véspera, todos são avisados do falecimento do pai e seguem, então, para casa, para os serviços fúnebres, supõe-se. Ao chegar, encontram uma ceia a espera-los. “Que mais eu podia fazer para reunir meus filhos nessa noite de Natal?” pergunta o velhinho, aparecendo de surpresa. E, claro, tudo acaba bem, com uma emocionada retomada de laços afetivos. Impossível não receber um baque no estômago, não lembrar de alguém a quem não visitamos mas fomos ao velório a fim de conseguir auto indulgência e fingir que fizemos a nossa parte.
Certamente a intenção é causar reflexão, em especial naquelas pessoas que, pelas mais diversas razões, negligenciam relacionamentos familiares. E são muitas, pode acreditar. O interessante é que muitas andam compartilhando (o verbo compartilhar nunca foi tão conjugado sem que se divida algo, de fato!) não se deram conta da mensagem explícita que inspira, quem sabe, algumas mudanças.
Recebê-la de alguém que há muito não se interessa por você ou que anda tão sumido que acaba por nem ser lembrado, seria quase uma piada de mau gosto se não fosse triste. A emoção de led e purpurina vai durar até o reveillon, algumas lágrimas vão rolar, muitos abraços e trocas de presentes impessoais (acertar exige, no mínimo, conhecer preferencias e hábitos!) e logo estarão longe uns dos outros, cumprindo amabilidades obrigatórias, tipo aniversários e velórios. Interessante, não é? E muito triste.
Somos assim, capazes de tudo. O ser humano consegue destruir e defender, amar e desprezar. E maltratar, quase sempre.
No sábado, o motorista de uma Kombi (anotaram as placas) abandonou um cão amarelo na Tv. Dr. Moraes, próximo à Fernando Guilhon. O animal permaneceu acuado, provavelmente aguardando que o dono voltasse para busca-lo. A expressão era de tamanha tristeza, que emocionou quem o viu nas redes sociais. Chorei por ele, pelo miserável que o abandonou, por mim.
Quem é capaz de abandonar seu animal de estimação (?) ainda não evoluiu espiritualmente. Ainda padece do desamor e do desrespeito que sua condição inferior lhe impõe. Uma lástima.
Curiosamente, outra postagem mostrava um cão, paraplégico há 13 anos, sem nenhuma escara de decúbito, limpo e cheiroso. Sua dona o exercita diariamente, inclusive para que possa defecar, e o leva num carrinho especial para passear, todos os dias. O cão é alegre e feliz, apesar de sua condição. São pessoas espiritualmente elevadas que espalham o bem. Isso é amor na forma mais pura. Afeto não acaba e faz bem ao mundo.
O que podemos esperar da humanidade? Não sei.
Minha cachorra adotou uma gatinha doente que tive a felicidade de trazer para casa. Até a morte da Marina (meu alter ego felino), Babi permitia que ela comesse do seu prato e a aconchegava para dormir. E quando a bichana não mais voltou depois da última internação, ela se recolheu por um longo período de visível tristeza.
Mas são animais, quem se importa?
No mundo real, como é Natal, vamos trocar mensagens adocicadas e lacrimosas, no dia 24 balas cessarão e podemos, até, oferecer um arremedo de ceia aos sem teto… Depois, a vida volta a ser como sempre, cada um no seu quadrado e sabe-se lá quando as famílias se encontrarão novamente sem ser obrigação – como uma festa ou um velório aos quais não devemos faltar. Assim mandam as regras do bom tom.
Enfim, apesar de tudo, adoro o Natal! Que o aniversariante desta data consiga tocar os corações mais embrutecidos. Boas Festas!

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