O nó na garganta

(Belém, 26 de Outubro de 2015)

O nó na garganta
Depois de quase quarenta dias entre Rio, Orlando, Croácia, Bósnia, Eslovênia e Lisboa, eis-me aqui.
Imaginei crônicas contando as belezas dos novos lugares e da gente que conheci. Material e inspiração não faltariam, jamais imaginei conhecer a Croácia, terra que mal sabia localizar. Eslovênia, nem se fala; o primeiro engano vinha quando perguntavam sobre a Eslováquia, que parece a mesma coisa, mas não é.
Quando o cronista se torna viajante, (ou seria o contrário?) é inevitável lembrar que nem todos apreciarão suas aventuras. Há quem sempre ache que é exibicionismo, mas antes de partir já havia decidido nem pensar nestes.
Essas férias maravilhosas seriam tema das próximas semanas, havia tanto a contar!
Minhas doces crônicas imaginárias, entretanto, pareciam murchar na garganta, como palavras que engasgam antes de pronunciadas. Será que a cronista havia “perdido a mão”, como se costuma dizer? O que aconteceu com a alegria de mergulhar nas águas geladas do Adriático, com peixes ao redor? Ou com a indignação ao ver um rabisco em chinês, numa parede do palácio de Diocleciano, em Split? Eram trechos prontos, podia ouvir minha voz dizendo cada palavra.
Não se engane quem acha que viajar resolve qualquer coisa. O cão leva suas pulgas aonde for.
Enquanto conhecia castelos e monumentos, parques e gente determinada a vencer tragédias e dificuldades para nós, inimagináveis, meu coração carregava o Brasil, e por ele se emocionava.
Todos os dias, pensei na minha terra e nos maus momentos que atravessa, sem que se tenha ideia do que nos aguarda. A cada descoberta, pensava que aqui poderia ser assim, também.
Não pense que sou tola para achar que tudo que é estrangeiro é bom, ou melhor. Não é isso. O que impacta é a certeza que poderíamos ser muito mais e que pagamos o ônus pela falta de educação, inclusive política. Quanto será necessário para bater mais que panelas?
Temos um país prodigioso em belezas naturais e paz, um povo cordato que perde, a cada dia, o paradigma do que é certo ou errado, do digno e do aviltante. Gente que esteve sendo treinada para receber migalhas e não para conquistar qualidade de vida. Que não deveria conformar-se em simplesmente sobreviver, com iogurte na geladeira e nenhuma biblioteca por perto.
Eleitos sob o manto da defesa dos trabalhadores e menos favorecidos, nossos dois últimos presidentes conseguiram minar, até, nossos valores mais íntimos.
No banco, meu inglês sofrível conversa com a simpática croata. Invariavelmente, quando nos descobrem brasileiros, a reação é de carinho. Diante do câmbio, cada dia menos favorável ao nosso dinheiro, o comentário soa como um lamento solidário. “O que está acontecendo com o Brasil?”
Não soube o que dizer. Percebi que o nó na garganta, que parecia aumentar quando lembrava da nossa terra, me impedia de enviar as boas impressões de lugares tão incomuns.
O nosso gigantesco cartão postal estava sendo transformado num mar de lama e vergonha; falar de quem corre para devolver-lhe 20 centavos de Kuna (cerca de R$0,12) pareceria provocação.
De volta, vejo as coisas piorarem a cada dia.
“Precisamos da CPMF para estabilizar as contas do país!” exclama a Presidenta dos discursos estapafúrdios, em Estocolmo. Nada do que fala faz sentido e não tem vergonha de mentir descaradamente. E ninguém, durante suas entrevistas, pergunta-lhe se consegue dormir, se não sente vergonha por ter emporcalhado a própria história e destruído nossos sonhos. Ela continua vendendo o país e as nossas chances de futuro promissor.
Era esse o sapo que não descia, esse o engasgar que não me deixava usufruir plenamente dos dias felizes.
Talvez seja sina, um destino do qual não se pode fugir, perder muito para valorizar o pouco; ter que lutar por algo que já possuímos e escorregou entre dedos desatentos.
Viajar não é apenas estar numa terra estrangeira, mas poder perceber seu próprio país como se fosse. E nem sempre é simples assim.

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