O que ‪#‎meuamigosecreto‬ precisava saber

(Belém, 1 de dezembro de 2015.)

O que ‪#‎meuamigosecreto‬ precisava saber
Para quem não frequenta as redes sociais, vale a pena algumas explicações.
Em outubro, a feminista Juliana Faria, do site Think Olga, deu início à campanha ‪#‎primeiroassédio‬, com objetivo de divulgar relatos de vítimas de assédio na infância ou na adolescência. Assim, teve início o que vem sendo chamado de “A Primavera das Mulheres”. No caminho aberto pelo #primeiroassédio, milhares de depoimentos dão conta de comportamentos machistas de amigos, colegas, companheiros ou chefes, chamados apenas de “meu amigo secreto”. Muitos desses relatos deveriam ser lidos e ouvidos por todos, para que não restassem dúvidas do quanto se pode ser inconveniente e incorreto. A hastag (assim se chama uma expressão muito comum nas redes sociais. Vem sempre antecedida pelo “jogo da velha”) #meuamigosecreto promoveu o engajamento de homens e mulheres em comemoração ao dia de luta mundial contra a violência contra as mulheres – 25 de novembro – que, no Brasil, incluiu protestos para derrubar o projeto de lei que dificulta o acesso à pílula do dia seguinte em postos públicos.
Os relatos mostram situações corriqueiras que acabaram por constranger a mulher. Muitas devem se perguntar o que o “seu amigo secreto” pensaria se a vítima fosse sua irmã. Melhor ainda, sua filha.
#meuamigosecreto usava termos dúbios quando falava comigo, tocando-me excessivamente, deixando que outros achassem que tínhamos um relacionamento íntimo.
#meuamigosecreto quando falava com as colegas no primeiro grau, “fungava” em nossos pescoços. Todas evitávamos falar com ele.
#meuamigosecreto contava a intimidade com a namorada para os colegas, se vangloriando da façanha.
#meuamigosecreto é casado, tem filhos e dá em cima de qualquer mulher, inclusive menores de idade.
Bem, a lista será sempre infinita. Verdades e mentiras, realidade ou ficção, pouco importa. O curioso é que mulheres de continentes diferentes vivem situações semelhantes no enfrentamento do machismo dissimulado, inclusive na rotina profissional.
#meuamigosecreto é meu chefe e acha que tem direito de me pedir favores pessoais nas minhas folgas, inclusive ir busca-lo no aeroporto ou fazer seu próprio trabalho.
Alguém se arriscaria a adivinhar onde vive essa mulher de 41 anos?
#meuamigosecreto…
Enfim. Esse movimento pode mudar alguma coisa no modo como homens ainda se comportam em relação às mulheres com as quais se relacionam? Até pode. O principal, no entanto, parece ter ficado mais oculto que o sujeito dessas narrativas.
Homens e mulheres precisam de fato, aprender a verbalizar, da maneira correta, os seus anseios, desapontamentos, constrangimentos. É isso que devemos tentar passar aos nossos filhos e filhas.
Se você é tocado de maneira inconveniente por quem quer que seja, se lhe dizem algo que a humilha, se percebe que está sendo exposta, precisa manter a calma e dizer claramente que não aceita a situação. Esse “feeling” – encontrar momento e maneira adequados – talvez seja o mais difícil. Mas é necessário conversar com nossas crianças sobre isso.
Outro dia me perguntaram o que poderia evitar a proliferação de vídeos pornográficos envolvendo crianças e adolescentes. Só imagino uma providência: falar exaustivamente sobre o assunto. Incluí-lo nas mais diversas disciplinas, em especial como tema de redação inclusive no ENEM. (Que crime é esse, penalidades, como denunciar, etc.). No #meuamigosecreto é a mesma coisa. Devemos conversar sobre comportamentos inadequados em casa. Ou o machismo será, para sempre, um rosto sem face, um assunto sem voz. Secreto. Bandido.

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