Voando na van

(Belém, 27 de agosto de 2015)

Voando na van

Adoraria oferecer, durante uma daquelas reuniões demoradísimas da cúpula das empresas aéreas brasileiras, um lanche contendo, apenas e tão somente, o que nos servem em seus aviões.
Se quiserem baixar mais ainda o custo do meu lanche de hoje, haveria uma só opção: retirar a diáfana fatia da blanquet de peru, ou da do queijo que compoem um sanduíche frio e compacto, cuja aparência é um tanto cadavérica.
Francamente, no “atacado”, este sandubinha mequetrefe não passa de, no máximo, dois reais e cinquenta centavos. Incluindo 150 ml de guaraná, com cinco reais está paga a minha fatura- com lucro.
Fico impressionada com a falta de cuidado com a imagem da empresa junto aos seus clientes, sem nenhuma preocupação com a fidelização. No solo, o atendimento, algumas vezes, é permeado por má vontade e arrogância. No ar, em especial em vôos domésticos, parecemos estar a bordo de uma van, sem espaço para nossas gordurinhas, sem, sequer, aquela “menta” que refrescava o hálito e lembrava que uma nova aventura estava prestes a começar.
Ninguém é tolo para acreditar que os custos do vôo são fortemente impactados pelo catering, incluída a logística que o envolve.
Combustível, taxas aeroportuárias e impostos são muito mais determinantes.
Com tarifas astronômicas, não é raro aeronaves voando quase vazias; a solução, ao que parece, é aumentar a tarifa mais ainda, e cortar qualquer carinho com o cliente. Talvez cheguem a cobrar para usar ” a casinha”.
Duvido muito que empresas que vendem os lanches bordo cubram os custos , além disso, o que não é vendido, vira lixo. Prejuízo maior.
A questão levantada aqui, não é comer ou viajar com fome e sim a duvidosa decisão de não cativar o cliente.
A verdade: eles não ligam para nós.
Até hoje, brasileiros sentem saudade da Varig – cuja falência teve outras motivações.
Lembro de como era confortável viajar e almoçar um filé de frango com creme aspargos e de sobresa, uma mini Tarte Tatin. Tudo acompanhado de um vinho bem razoável.
Quando ouvia no rádio (em Belém fui a locutora local) às 22hs o “Varig é dona da noite” ( Oito segundos. A cada oito segundos um avião decola de algum lugar do Brasil ou do mundo. Varig…) eu parecia ouvir falar de uma empresa bem íntima, como se funcionasse ao lado da minha casa. Os passageiros tinham uma ligação afetiva com a Varig.
Naqueles bons tempos, aos sábados também era ótimo voar, durante o almoço, pela Transbrasil. A feijoada era deliciosa!
O passageiro se sentia acolhido e bem tratado, viajar tinha outro glamour.
Agora não.
Sinto – me a gorducha na van, sem espaço, sem eira e quase sem beira.
A aeromoça …Ops, são Comissários de Bordo… me pergunta o que quero beber.
Água.
Ela me entrega aquele pacote com aspecto duvidoso e tenho ímpetos de retrucar…”Como você acha que EU vou comer isso, assim, na frente de todos? É quase promiscuidade! Olha bem pra mim, querida!”
Mas a fome é cruel e ela não tem culpa e nem vai ligar se comer ou roer unhas…
Vou comendo meu sandubinha ” a morte lhe cai bem” , sem olhar para os lados, quase constrangida.
Depois, lembro que em outros vôos existe a first class, lá se come melhor e, maravilha dos deuses, dá para reclinar e até dormir sem ficar com a cabeça balançando, como num bólido da Central do Brasil.
Mas a gente vai de econômica, mesmo.
Enfim, faltam só duas horas e meia. E se essa loura me desse outro sanduba morfético, pelo menos eu parava com essa nostalgia toda – e com a fome. ( Bem feito, por não ter almoçado em casa!) Quem sabe ela sirva aquele sachet (pacote é exagero) com nove amendoins, para enganar o tempo?
Mastigando bem, talvez leve aí uns três minutos.
Vasculho a bolsa e acho dois Halls que devem estar no buraco negro desde o carnaval. Quer saber? Não tem tu, vai tu mesmo.
Bom dia!

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