A última D.R.

A última DR

Vigésimo quinto réveillon juntos. Quem poderia imaginar o que sentem, na verdade? Ninguém. Nem mesmo vocês conseguem falar sobre esse poço de mágoas que só aumenta.

Como os vinhos, pelo menos os bons, os casamentos deveriam melhorar com o tempo. Mas o amor só amadurece sem se transformar em ódio quando permite nascer a mais leal das amizades. Parceiros que, mais que amantes, se transformam nos melhores amigos que se pode ter. Casais que conversam demorada e francamente sobre tudo, que têm os mesmos interesses e fazem coisas juntos, inclusive um bom sexo. (Bom para os dois.) Que respeitam as pequenas ausências e torcem um pelo outro. E nem são, via de regra, parecidos. O tímido doutor que faz qualquer coisa pela esposa atleta. A workaholik que compreende o marido quieto, afeito à leitura e à boa prosa. A esposa ativa que aguarda o marido gourmet preparar sua mais recente criação. Ou o casal que viaja pelo mundo esbanjando cumplicidade. Isso é muito mais que amor ou paixão, que geralmente acaba mal. Esses, a gente reconhece e inveja; amadureceram como os bons vinhos. Outros, não servem sequer para temperar um assado ordinário.  O azedume se espalha no ar, deixando o clima deprimente. Casais que nem se falam, que não se olham “nos olhos”, que podem até fazer aquele sexo insosso e datado, compromisso para fingir que o casamento existe, mas no fundo, anseiam a ausência um do outro.

Se existe fidelidade, é cega e obrigatória; não há a lealdade, a tietagem, a alegria pelo outro existir, simplesmente.

Francamente, é muito difícil reanimar um casamento nesse estado vegetativo. Em vez de ciúme, quase alívio. Não há companheirismo, nada é realizado efetivamente a dois. Ele vai aos compromissos com a esposa para evitar falação. Ela, nem isso. Mulheres conseguem dizer “não vou, não estou a fim, pode ir nos representando” quando lhe convém. Homens aceitam, além de não terem outra saída, a possibilidade de alguns momentos “desavec”, como diria um amigo, é uma tentação. Poderão estacionar em qualquer lugar sem preocupação com saltos altos. Não precisarão procurar uma mesa “em evidência”e poderão juntar-se aos avulsos e falar de futebol, da Dilma ou das gostosas da vez, tanto faz. Poderão afrouxar as gravatas e guarda-las no bolso, enquanto cumprimentam velhas conhecidas sem ter que responder um interrogatório. Não serão obrigados a dançar La Bamba nem Anita.

O mais triste é perceber que seu casamento está a um passo dessa realidade. Que a vida está cada vez menos risível e o mais interessante raramente inclui o cônjuge.

E por que diabos vocês não se separam?

Porque dá muito trabalho.

Primeiro, alguém tem que propor e aí a coisa complica. Poucos aceitam, mesmo aflitos pela solteirice, que o parceiro tome a iniciativa.

Segundo, quem vai para onde? Tem a partilha e os rendimentos. Tem os filhos e os netos. Tem o cachorro.

Os carros. A casa de Salinas. Ah, e o casamento da caçula, daqui dois anos? Tem a pensão, que ele jamais vai querer pagar. Finalmente, a viagem marcada com outros dois casais há mais de um ano. O que se diz numa hora dessas?

Divórcio é como parto, exige certa preparação. E isso é praticamente impossível. Ou acontece algo para resolver a parada ou as coisas se arrastarão até que dois inimigos acabem indo a festinhas, à missa e aos velórios dos amigos.

Quando os fogos estouraram, ela fechou os olhos pedindo  que algum milagre os transformasse nos apaixonados de vinte e cinco anos atrás. Era genuína a vontade de conseguir amar novamente aquele homem por quem já foi capaz de qualquer coisa. Queria se sentir amada novamente.

Há quantos anos não se beijavam como naqueles tempos em que podia sentir sua língua fazendo cócegas no céu da boca? Tanto que já nem sabia ao certo.

Abriu os olhos. Ele estava conferindo o whats app. Abraçou-o e ofereceu-se para um beijoardente que tanto desejava e  ganhou uma bitoca e um abraço com tapinhas nas costas.

-Vamos? Já está tarde…

Tarde? Lembrou-se quando o réveillon acabava em divertidos cafés com amigos amontoados na cozinha…

Por Deus, ela queria voltar ao passado, queria muito as bobagens que havia perdido em algumas das curvas que a gente ultrapassa e nem vê.

Quando ele adormeceu virado para o outro lado, teve vontade de abraça-lo, de dizer que o amava, que queria ser amada, abraçada, beijada. Que queria voltar a jogar mau-mau com os amigos,  comer cachorro quente depois do cinema… (Há quanto tempo não assistiam a um filme?).

Teve vontade de pedir-lhe socorro.Tocou-o de leve e ele resmungou alguma coisa como “vai dormir”; ela encolheu-se, engoliu um Rivotril, abraçou o travesseiro e imaginou estar nos braços de um homem que lhe fazia juras de amor.

Quando acordou ele já havia saído, droga de Rivotril.

Ao tomar o café, ela imaginou por quanto tempo mais poderia adiar aquela conversa. Do jeito que estava, não dava mais. Quem sabe dessa vez ele a entendesse, em vez de dizer que ela deveria procurar “alguma coisa com que se ocupar”.

Precisava organizar as ideias e não sabia com quem falar. A terapeuta era conhecida por convencer mulheres ao divórcio, mesmo as que não tinham a menor condição de sobreviver. A mãe, diria que era tudo culpa dela, como sempre. Os filhos… Filhos querem que a gente deixe tudo “pra lá”. “Isso passa, mãe”, disse o mais velho. “É uma fase”, arrematou o caçula. Seu melhor confidente era Boris, o cabeleireiro que, ao contrário do que se podia esperar, é fidelíssimo às amigas. E tantas vezes ele já a havia aconselhado a abrir o coração… Falar dos seus sentimentos, tentar fazer o marido entender que ambos precisavam ser felizes, antes que fosse tarde demais.

Preparou-se para a conversa. Que a Deus abençoasse aquela última tentativa. Só para garantir, daria uma passadinha no Boris.

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Rafaela
    jun 15, 2016 @ 09:19:20

    Amei o texto! Que raiva desse homem kkkk. Abraços

    Responder

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