Belas, recatadas e do lar (ou nem tanto)

 

A matéria sobre a nova primeira dama deixou dúvidas se era definição, elogio ou piada. Ou tudo isso, a gente adora criticar!

Em tempos em que se espera que machismo seja considerado crime e que a humanidade se posiciona contra sociedades que permitem que a mulher seja discriminada, não sei se era para rir ou chorar.

Todas nós sabemos como é desvalorizada a função de quem, por circunstância ou opção, não trabalha “fora”. Nesse “emprego” não ganhamos salário, não temos folgas e nem sempre somos reconhecidas.

Depois de décadas de pouco caso,  ser “do lar” virou condição elogiável? Não se engane, querida, as razões (questionáveis) foram outras. Quantas (além das teúdas e manteúdas que proliferam no planalto) podem optar por não encarar outra jornada? Gente comum (como eu e você) certamente não tem escolha. Marcela não é uma coisa nem outra, talvez seja mesmo apenas uma garota à moda antiga. Seria mais ou menos a mesma coisa se Kate Midelton tivesse casado com Charles. (Que parece muito mais velho que Temer, mas é sete anos mais novo!)

As redes sociais reverberaram o tema, com fotos eventualmente inspiradas ou em pura gozação. Surgiram imagens da (ex?) jornalista Cláudia Cruz, a esposa improvável de Eduardo Cunha, com “bela, remunerada em dolar” na legenda. Brasileiro não perde o bom humor, mesmo sendo roubado, que coisa. (Fico me perguntando quando é que, finalmente, estenderão as punições às esposas desses bandidos, que conheciam a origem da fortuna que torravam animadamente, sem crises de consciência. Mulher de bandido é bandida. Ponto.)

A pastora Elisete Malafaia publicou sua imagem envergando avental ao lado do fogão, convocando mulheres a postar fotos lavando as louças para “mostrar que têm família e se orgulham de cuidar do lar”. Que vergonha, madame! Primeiro, é nisso que dá mulher de pastor virar pastora, como se igreja fosse patrimônio conjugal, ou como se essa vocação pudesse ser “adquirida” do cônjuge. (Sabemos que não é.) Segundo, parece que a senhora não entendeu nada, “nadica” mesmo. Que papo mais antigo é esse, pastora? Postar sua indignação por conta das aproveitadoras que orbitam em torno de corruptos em geral – políticos e pastores, dentre outros – não lhe passou pela cabecinha?  Seu marido deve ter-lhe passado um pito, bem no feitio do casamento que a senhora faz apologia. Volta para o tanque, Elizete!

Mulheres “do lar” merecem reconhecimento e, acima de tudo, respeito. É essencial, entretanto, salientar que as demais também zelam pela família, inclusive pelo arroz com feijão de cada dia. Mas isso é coisa com que Dona Elizete não se preocupa. É por essas que muita gente garante que as mulheres são suas maiores inimigas.

A matéria sobre os atributos de Marcela Temer revela facetas do seu casamento incomum não só pelos quarenta e três anos de diferença do Presidente Temer. Ela é tão “discreta” que nem para seu próprio perfil deu qualquer declaração. A ex-miss Paulínia foi ao primeiro encontro acompanhada por mamãe (mais jovem que o genro). Mais recatada, impossível.

Marcela empresta jovialidade e complementa a elegância do marido.  Depois de uma primeira dama sem modos e sem noção, depois de uma presidenta que dispensa comentários e de outra “ex-miss” que postou fotos no melhor estilo “periguete” ao lado do marido ministro do Turismo de Dilma (por quinze dias!) com cara de você sabe o quê, pelo menos a postura do casal é um alento.

Suzanna Vieira, que sempre nos redime nessas ousadas uniões, perdeu por pouco para o charmoso Presidente Temer. Seu marido mais recente era mais jovem apenas quarenta e dois anos!

Ah, essa mulheres… Tão parecidas com seus homens, cada qual com seu cada qual.

Entre outras coisas mais importantes, resta-nos torcer para que o novo (?) governo seja um tanto mais “adequado”. Pior, Miss Bumbum Estados Unidos – ou a ex-quase-primeira-dama-do-turismo – nos deixou a certeza que será impossível. O Camaroti (Globo News) está exausto, ô gente que dá trabalho!

 

 

 

 

Socorro, o gerente sumiu!

 

Atualmente, em muitos estabelecimentos de Belém sente-se falta de alguém que “coloque o bloco na rua” como se diz.

Até um passado recente, o gerente era tão importante que só pelo andar notava-se a autoconfiança que transmitia a melhor das mensagens: aqui o cliente fica satisfeito!

Gerentes tinham poder de resolutividade e representavam, de fato e de direito, a empresa. Em muitas, eram olhos e ouvidos “do dono”.

Os tempos mudaram e os gerentes também. Pelo menos a maioria. Provavelmente o salário tenha se tornado pouco atraente para quem é capaz de gerenciar com a aplicação e sutileza de um maestro. A gerência competente não “aparece” e sim a equipe afinada, apesar de tão peculiares quanto uma orquestra em que violinos e bate-latas se harmonizam.

Talvez a distância entre a direção e o gerente tenha aumentado tanto, que este se sente mais próximo dos “colegas” do que da administração na qual está, pelo menos em tese, inserido. Essa proximidade dificulta exercer a liderança com mão firme na disciplina, na orientação, no atendimento. Gerentes precisam inspirar equipes!

Instituições que contam com pessoas vocacionadas e qualificadas, deviam distingui-las por meritocracia. Conheci uma empresa que facilitou a aquisição do primeiro carro de um jovem e promissor gerente. Não se tratou de “generosidade” e sim de investimento no profissional que tinha empatia com a equipe (o que é valioso!), mas precisava de distinção. É impressionante como temos “pudores” para tratar de hierarquia, como esse tipo de coisa não combinasse com uma “boa pessoa”. Ouvi de alguém que (estranhamente) trabalha em RH (Recursos Humanos) que “quem tem chefe é índio”. Tolice, barcos necessitam de comandantes. Ou chefes, ou líderes, tanto faz. Competentes e prestigiados.

Na lanchonete em que um só cafezinho é acompanhado por até oito sachês de adoçante, no atendimento da editora que exige falar com o assinante titular apenas para reenviar o exemplar extraviado, no bufê cujo garçom não sabe se o salgadinho é de camarão, no laboratório cujo recepcionista me chama de “meu amor”; em todos falta uma gerência eficaz (faz a coisa certa) e eficiente (faz da maneira certa).

Disciplina exige muitos exemplos e algumas vítimas. Os rapazes que vociferam palavrões no supermercado certamente teriam modos mais adequados se alguns já tivessem sofrido, pelo menos, uma advertência seguida de punição. Mas o gerente “coleguinha” dos seus comandados terá dificuldade em tomar uma atitude que o faça parecer antipático.

Certa vez um gerente de banco varreu, meticulosamente, a área dos caixas e, a seguir, instalou um cesto de lixo ao lado de cada um. Pareceu bobagem, mas o chefe limpando a bagunça deve ter tido algum tipo de efeito. Desde então, não titubeava em determinar que arrumassem “a casa”. Na semana seguinte, um funcionário iniciou os trabalhos com a camisa suja e amassada. Eu havia descoberto, num treinamento, que ele a deixava na gaveta do arquivo, durante até duas semanas, já que “odiava” mangas compridas e gravata. Como o gerente resolveria a questão, se, até recentemente, era um “deles”? A conversa deve ter sido tensa, o rapaz deixou a agência e, por algumas horas, foi substituído pelo chefe. Retornou ainda mal-humorado, a fim de encerrar o expediente e “bater o ponto”. Não o vi mais com camisa suja ou amarrotada.

O gerente precisa saber como agir com o público interno e externo. Precisa ter a exata noção do que é “atender” e como transmitir conhecimentos e ordens. Ter currículo, formação superior ou ser “parente do dono” não indica ninguém para essa função que pode determinar o sucesso ou o fiasco de um negócio.

Infelizmente, o que se vê em Belém é que, em muitos, não existe ninguém a quem tenha se atribuído autoridade para resolver problemas ou questões simples. Outros, dedicados e competentes, não parecem ser prestigiados. Os poucos que têm a felicidade de trabalhar com quem reconhece o valor do “maestro” despontam, para felicidade geral da clientela na qual me incluo.

Bom dia!

Ainda precisamos conversar sobre isso.

 

Se é que uma tragédia pode ter alguma consequência positiva, o infame episódio do estupro coletivo ocorrido no Rio de Janeiro serviu para que o país debatesse essa vergonha nacional. A tal “cultura do estupro” foi discutida até quase a exaustão, sem que ninguém conseguisse, de fato, entender o que levaria homens a acreditar que determinada mulher “deseja” (ou espera) ser estuprada.

Semana passada, escrevi sobre esse lado da questão, em especial como estamos educando nossos meninos e porque esquecemos de adverti-los que não é não e acabou-se.

A crônica de hoje trata das (potenciais) vítimas de abusos sexuais. Permito-me deixar de lado o caso da jovem carioca, cuja vida tem sido marcada por tragédias desde cedo. Até mesmo pessoas esclarecidas consideraram que, no fundo, ela tinha “alguma” responsabilidade pelo próprio infortúnio. Partindo dessa premissa, sua filha querida, que nunca subiu o morro para relacionar-se com gente de má reputação nem foi mãe aos treze, não corre nenhum risco. Será mesmo?

Condição social não exclui nem vítimas nem agressores. O que acontece?

Estamos de acordo que nada justifica a violência, mas precisamos falar de algo que talvez ajude jovens – rapazes e moças – a decifrar e compreender seus códigos.

Pássaros exibem a plumagem diante das fêmeas que, caso aceitem a corte, reagem com determinado gestual. Machos de certa espécie de focas inflam as narinas como um grande balão, numa demonstração de virilidade. O mundo animal é rico em demonstrações do tipo. E entre humanos, o que acontece? Também temos nossos rituais. Reconheço quando uma mulher – não importa a idade – está “interessada” num homem. Ela mexe mais nos cabelos e diz-se até que é um gesto pré-histórico, para que as axilas exalem feromônios sexuais. Algo tipo “estou a fim”.

Algumas passam a língua nos lábios, umedecendo-os, como se estivessem diante de um chocolate. Ou de um milk-shake de açaí. Se eu sou capaz de entender essas mensagens subliminares, o que dizer das jovens que dançam, malemolentes, acariciando o próprio corpo, colocando o dedo na boca e revirando os olhos, ao som de músicas (?) cujas letras pedem para a “novinha dar uma sentadinha” ou repetem “eu quero é tu”, numa rima grosseira e imoral?

Exagero? Não, apenas uma festinha em que o DJ executa o que pedem, e adultos assistem complacentes, às garotas “sensualizando”, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Mas não é. Esses funks de letras dúbias ou explícitas são uma apologia ao escracho, um incentivo à vulgaridade. Desconfio até que essas meninas se exibam mais umas às outras, do que aos rapazes. Vivem uma fase competitiva e podem demonstrar o “empoderamento” de maneira equivocada. O que deviam ser alertadas é que estão emitindo sinais cujas mensagens provavelmente não sejam as que queriam, de fato, transmitir.

Não estou, de forma alguma, tentando justificar o injustificável. Apenas me coloquei no lugar do garoto que assiste àquelas danças, cujos apelos são explicitamente sexuais (por mais que papai e mamãe se neguem a acreditar) e precisa buscar maturidade sei lá onde, para saber que ela pode estar “apenas” dançando e que não quer nada com ele.

Será que estou sendo puritana, logo eu, que sempre me achei meio moderna? Penso que não.

Procurando uma quadrilha junina infantil, encontrei o vídeo de uma festa de escola, em que a adolescente balançava o traseiro empinado diante da câmera e, enquanto o refrão “Vai lacraia, vai lacraia” se repetia,  colocava as mãos… Você sabe como.

Cheguei à conclusão de que cometemos muitos enganos. Ainda precisamos conversar muito sobre isso, antes que a tal “cultura do estupro” seja, de fato, alguma coisa com que tenhamos de lidar de uma forma, ou de outra, em casa ou numa delegacia.

Bom dia.

Uma certa água

Uma certa água

Certa vez, um antigo chefe me disse que eu produzia “mais” sob estresse. Fiquei acabrunhada, minha disposição é quase militar: missão dada, missão cumprida.

Nos últimos dias tivemos muito trabalho. Muito mais do que alguém imaginasse ao nos ver sorrindo, equacionando  questões surgidas intempestivamente, tentando atender a tudo e todos. Não nos “estranhamos”, não nos intrigamos ou deixamos que uma palavra arranhasse ouvidos e âmagos. Parceria exige sensibilidade e bons modos… Estivemos atentos, um dando a mão ao outro. Mais que equipe, formamos um time.

Em dado momento, nos perguntamos que energia era aquela, que nos deixava resolvendo coisas no “Whats-up” até tão tarde? “Que água temos tomado?”

Essa energia, fonte praticamente inesgotável de determinação, paciência e idéias é, tão somente, paixão.

Nada substitui o que a paixão agrega ao dia a dia. O compromisso nos faz esquecer – sem estardalhaços – o momento em que o cartão de ponto poderia nos dispensar. Pouco importa se trabalhamos duas ou vinte horas a mais; o importante é realizar o trabalho no nível de exigência pessoal.

Não, não estou fazendo apologia à escravidão pública ou a qualquer tipo de exploração; esse tipo de coisa é de cada um consigo mesmo. Há quem não consiga deixar de dar o seu melhor; há quem nem saiba onde encontrá-lo, enfim.

Minha observação é sobre o que estimula um profissional – que poderia fazer só o “feijão com arroz”- a abraçar um desafio e oferecer algo mais do que lhe é exigido, mesmo que ninguém tenha solicitado. Um projeto, uma sugestão, uma solução. Duas horas. Ou vinte.

O que move quem, por exemplo, permaneceu esticando e dobrando passadeiras vermelhas até altas horas, para que Nossa Senhora passasse? (Outros tantos, “desfilaram” sua alienação, pisando nas pétalas que esperavam por Ela. Fazer o quê?)

A jovem que, apesar de “não ter nada com isso”, distribuiu convites cuidadosamente, para uma cerimônia que nem poderá assistir.

Paixão pelo que se faz. Aquela sensação de fazer o possível – e quase o impossível – para que tudo dê certo. A paixão que permite que diferentes se entendam, se respeitem e se ajudem.

É esse o traço que distingue uns dos outros e que nem sempre sabemos identificar claramente, mas que se traduz, acima de tudo, por uma única palavra: compromisso.

Todos os dias alguém repete que “não tem nada com isso” ainda que tenha, sim. São pessoas que não se envolvem, ou como diria um amigo, “não vestem a camisa”. Eu completo: vestem sim, na hora dos cumprimentos. Pronto, falei.

Não se consegue sucesso genuíno fazendo “de qualquer jeito” ou o “que der”. Acredito que  esse “descomprometimento” não aconteça exclusivamente no trabalho. Imagino que a vida de quem jamais participa,  seja sempre um mosaico de “mais ou menos” ou “assim já deu”. Definitivamente, isso não me basta. Quero mais.

Não sei se nós, a turma que é capaz de quebrar castanha com a unha, levará um dia, alguma vantagem. Francamente, não ligo a mínima. Pode parecer-lhe pieguice, mas a satisfação de tentar o melhor de cada um (que não é pretensão à perfeição!) não tem preço.

Esse brilho no olhar, o coração saltitando no peito – We got it! – quando, finalmente, temos a certeza do êxito, compensa tantas listas checadas, detalhes conferidos, tanta atenção. Ou uma lágrima contida. Pouco importa o resto, quando podemos comemorar, uuuhhh, huuuu!

Quando pessoas assim se encontram, surge essa água misteriosa, esse elixir que nos reconforta. Não existe nada mais revigorante do que a certeza de contar com a mão solidária e confiável, num momento de especial cansaço. Posso te ajudar?

É essa energia que coloca o coração no prumo e nos faz ter certeza que sim, vai dar tudo certo.

Não. Isso nunca teve nada a ver com estresse. Isso se chama compromisso.

Para os íntimos, paixão.

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P.S.  Por alguma razão que desconheço, muitas crônicas “sumiram”do blog, deixando-o desatualizado desde junho de 2015.

Estou recuperando e publicando, apesar de perderem o “timming”. Desculpem.

Antes que esqueça

Antes que eu esqueça

A rotina era a mesma, todos os dias. E se havia rotina, tudo caminhava da melhor maneira possível.

Esforçava-se para chegar em casa antes das dezenove. Evitava trânsito e a tradicional “esticada” depois do escritório. Passava na padaria e comprava o lanche: pão francês quentinho, queijo prato Regina e presunto, em finíssimas fatias.

Preparava o sanduíche com carinho, uma xícara de café com leite e caminhava até o quarto, cantarolando para anunciar a sua chegada.

Ela estava na poltrona, cabelos penteados, colo “entalcado” denunciando o banho recém tomado. Usava os brincos de pérolas e estava linda na camisola de cambraia, rescendendo a “cheiro do Pará”. Os olhos verdes pareciam cada vez mais claros, dois lagos tristes. A conversa era sempre a mesma, mas ele não se importava.

Ajeitava a bandeja, e ela perguntava: – Onde está o Edgar?

– No banco, logo estará aqui.

Partia o sanduíche, para que ela pudesse comer melhor.

-Fiambre.

Ela lembrava o presunto fininho que chamava de fiambre, como no seu Portugal natal. De vez em quando, parecia distante, até perguntar novamente pelo marido, falecido há mais de dez anos. Depois, olhava-o, franzindo a testa.

– Quem é você?

Ele pegava então o velho álbum de fotografias e mostrava-lhe página por página.

– Quem é esse?

Ela abria o sorriso e, com o indicador curvado, identificava a própria família, que permanecia resguardada num passado distante que hoje, era tudo que tinha.

-Edgar, Helena, Eduardo…

-Esse sou eu, mãe.

Ela o olhava e repetia “Eduardo”…

– Você se lembra, mãe, da casa no Mosqueiro?

E uma luz se acendia no fundo da alma daquela mulher que tinha sido sua mãe amorosa e dedicada. Trabalhara “fora” numa época em que era muito difícil ter a própria carreira. Mas ela queria que os filhos recebessem boa educação. Cursaram inglês, música e tiveram todas as atividades típicas, como natação, judô e balé. As meninas tinham que dançar balé, naqueles tempos.

Ele tomava os pés da mãe e aplicava-lhe uma massagem suave. Lembrava as noites em que ela o massageava com “Transpulmim”, para facilitar-lhe a respiração. Apenas devolvia parte dos cuidados que ela tivera com eles.

Viam as fotos até o final, quando então lhe dava a medicação para dormir. Depois das atividades noturnas, ele a acompanhava até a cama, ajeitava o lençol e o pequeno travesseiro.

– Onde está o Edgar?

-No banco, mãe. Vamos rezar?

E repetia a mesma oração que, por tantos anos,ela recitara entre as camas dos filhos. “Santo Anjo…”

-Amém.

Ela segurou-lhe o pulso, com a mão trêmula.

-Quem sou eu?

Ele engoliu a emoção, acariciou-lhe o rosto, ajeitando os alvos cabelos. –Você é minha mãe, a melhor mãe e avó do mundo e todos nós a amamos muito.

Ela aconchegou-se e sussurrou. – Eu não lembro de você, mas obrigada…

Ele acendeu o abajur para que uma luz tênue a deixasse mais segura, caso acordasse.

Agradeceu a Deus por não esquecer jamais, ele próprio, do amor que os havia unido. Agradeceu o carinho e aceitação da esposa que sabia que estavam não só cuidado da sogra, mas educando os próprios filhos para a vida, para as coisas de família e amor.

Na manhã seguinte, tomariam café juntos e, apesar da correria, teriam uma chance de estar com ela, lembrando que a mais importante das recordações é a que é amada, muito amada.

(Com amor, para alguém muito especial.)

Babilônia e suas caraminholas

Imoralidades

Havia decidido nem tocar no assunto, tamanha a discussão nas redes sociais, mas a coisa chegou num ponto que é necessário refletir. Afinal, o que incomoda a tantos na novela “Babilônia”?

Vamos ao geral. “Um poço de maldades, praticamente ninguém “presta”. Quebrar pernas, matar sem remorso, traições sem fim…” OK. Agora responda: em que planeta você vive?

Trata-se de uma ficção, inspirada na… Realidade, claro! Querida, todo dia os jornais trazem coisa pior; talvez não tenha se dado conta, vou lembrar só algumas. Aqui mesmo, em Belém, um casal torturou e matou uma criança que servia de babá, Marielma de Jesus. Não foi um surto de violência, mas o desfecho de um ritual pervertido que envolvia sadismo e falta de compaixão. Vida real, aqui ao lado. Não dá para trocar de canal!

Matar o amante friamente? Savana Natália não teve problema de consciência quando atraiu o amante virtual, Joelson Ramos de Souza, para um motel, com a única intenção de matá-lo para roubar seus “bens”: dois mil reais (da indenização por ter pedido demissão para viver com a “mulher dos seus sonhos”) e alguns móveis surrados.

Se decidíssemos enumerar casos cruéis, seriam necessárias várias edições do jornal, mas esses dois constituem a violência bem próxima, que quase grita à nossa porta.

Traições. Será que precisamos lembrar casos famosos que já ouvimos falar? Do jovem que narrou a aventura da esposa em detalhes sórdidos no Facebook, sem respeitar os próprios filhos que viverão com esse estigma? Ou dos arranca-rabos que acontecem nas areias escaldantes de Salinas durante as animadas férias de julho? E todos saberão alguma que ainda não sei. Mas a novela incomoda por mostrar a vida como ela é,  jovens ganhando dinheiro com prostituição – que novidade! – consumindo drogas – que corriqueiro! – e, essa foi nova, estapeando a mãe que também não presta. Não tão nova, sussurra uma amiga, que jura conhecer história semelhante. Que coisa!

O prefeito ladrão. Ah, tá, isso é velho demais, mas a novela tem que ter personagens verossímeis, não é? Nada como um prefeito imoral, que nos faz lembrar o… Deixa prá lá, tenho pavor de advogados e processos em geral.

Então, o que é tão ruim, em Babilônia? O espelho?

Ah, o beijo entre duas senhoras. Quem se ofende está sendo duplamente preconceituoso. As pessoas preferem achar que idosos perdem a sexualidade e se transformam em santos. Meramente um passeio de mãos dadas é aceito, com aquelas caras bobas- “Que bonitinho!”. Bonitinho é a mãe, cara pálida. Aliás, por mais que você preferisse que ela só fizesse seu pratinho favorito, pode ser que, lá pelas tantas, ela faça sexo com o mesmo – ou quase – tesão de antigamente. Por mais que você abomine essa ideia (ou a estética do ato, em si) quando o idoso for você, garanto que mudará seus conceitos ridículos e ultrapassados.

Não seja boboca ao propor um boicote à novela. Ela, pelo menos é ficção. A grande e abominável imoralidade está nos noticiários, a fraude grassa por todos os setores e você fica aí, criticando novela para dar uma de (falso) moralista?

Acho uma graça! Depois de reclamar de um beijo entre dois seres humanos que se amam e se respeitam, você muda o canal para um daqueles enlatados americanos em que o assassino consegue matar a mocinha com alicate de cutículas, pedacinho por pedacinho. Ou acaba votando nos Malufs da vida.

Crie vergonha!

Coisa de jovens

Esses pobres moços.

Toda semana alguma notícia envolvendo jovens leva-me a tentar entender o que deu errado na clássica história da família que fez o possível para facilitar aos filhos acesso à faculdade, a um bom emprego; a tudo que, um dia, foi o sonho desses meninos e meninas que julgavam conhecer “tão bem”.

A primeira reação é procurar a causa na (falta de) educação recebida em casa, demonizando pais que, muitas vezes, são as maiores vítimas.

Ninguém acalenta um filho para ser, um dia, sua dor, mas pais serão sempre culpados por dizerem sim, por dizerem não, por não dizerem nada – ou tudo.

A razão está, quase sempre, bem longe dos lares onde essas quase crianças têm seu quartinho com a tecnologia desejada, camas confortáveis, roupas limpas e comida quentinha. Lares onde são aguardados todas as noites, com sono e apreensão, entre Pai-Nossos e  Ave-Marias, até ouvi-los chegar – e disfarçar o alívio, para que não percebam que estavam sendo aguardados. Para que não percebam que são as crianças que emprestamos ao mundo – e à tribo – por algumas horas, mas exigimos sua devolução, sãos e salvos. Inteiros. Vivos.

Os “bunkers” que pais mantém funcionando com esmero, não garantem que as distorções da sociedade que acolhe seus filhos, não os afetem de maneira irreversível. Como a morte.

Os que exemplarmente passam ao longe da influência do grupo, nem sempre são vistos como. Precisam de “tutano” para enfrentar o “bullying”, por mais velado que seja. Brincadeiras têm viés crítico aos que não bebem (muito), que namoram “firme” ou telefonam para os pais.

“Bom mocismo” virou “babaquice”, que deve ficar para trás, em última instância, nos cursinhos de vestibular.

E então transgressores viram os corajosos; rebeldes, heróis. Faz sucesso quem não é “comportado”.

Moças e rapazes não conseguem ser o que os pais almejaram. O grupo exige isso, mesmo que nenhum deles tenha consciência. E grupo é tribo; vestem-se de maneira parecida, usam celulares compatíveis, ouvem as mesmas canções. Bebem juntos, tomam coisas esquisitas, juntos. Faz parte do show inconsequente.

A maioria se acha “mais”. Mais legal, mais arrojado, mais forte. Nada pode acontecer com pessoinhas tão, tão… Daí é fácil tomar dois, quatro, sabe-se lá quantos comprimidos de “ecstasy” e virar o rei – ou a rainha – da festa. Quem se acha ‘mais’, busca mais.

Chora-se depois pelo bom moço, que na verdade esteve morrendo a cada dia um pouco, durante anos. O grupo perde o seu “guerreiro”, depois de pavimentar, com convenções não escritas e malmente ditas, o caminho que só tem um destino final. Nas redes sociais o lamento não implica reflexão.

Os leitores dessas tragédias cotidianas oram em silêncio para que, daquelas tribos, alguns sobreviventes saiam ilesos, capazes de obter sucesso – de fato e de direito.

Jovens precisam que adultos em geral (a sociedade e os familiares) consigam transmitir valores renovados, com apelos mais robustos que a popularidade idiota dos concursos de bebidas ou das noitadas nas baladas. Precisam de bons exemplos, boas conversas e boas rédeas. Precisam saber que podem perder.

Que línguas devemos falar para conseguir o diálogo? De alguma maneira, devem entender os riscos e a fragilidade da vida, que é curta para tantos sonhos, mas longa demais para quem carrega uma enorme saudade.

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