Ainda precisamos conversar sobre isso.

 

Se é que uma tragédia pode ter alguma consequência positiva, o infame episódio do estupro coletivo ocorrido no Rio de Janeiro serviu para que o país debatesse essa vergonha nacional. A tal “cultura do estupro” foi discutida até quase a exaustão, sem que ninguém conseguisse, de fato, entender o que levaria homens a acreditar que determinada mulher “deseja” (ou espera) ser estuprada.

Semana passada, escrevi sobre esse lado da questão, em especial como estamos educando nossos meninos e porque esquecemos de adverti-los que não é não e acabou-se.

A crônica de hoje trata das (potenciais) vítimas de abusos sexuais. Permito-me deixar de lado o caso da jovem carioca, cuja vida tem sido marcada por tragédias desde cedo. Até mesmo pessoas esclarecidas consideraram que, no fundo, ela tinha “alguma” responsabilidade pelo próprio infortúnio. Partindo dessa premissa, sua filha querida, que nunca subiu o morro para relacionar-se com gente de má reputação nem foi mãe aos treze, não corre nenhum risco. Será mesmo?

Condição social não exclui nem vítimas nem agressores. O que acontece?

Estamos de acordo que nada justifica a violência, mas precisamos falar de algo que talvez ajude jovens – rapazes e moças – a decifrar e compreender seus códigos.

Pássaros exibem a plumagem diante das fêmeas que, caso aceitem a corte, reagem com determinado gestual. Machos de certa espécie de focas inflam as narinas como um grande balão, numa demonstração de virilidade. O mundo animal é rico em demonstrações do tipo. E entre humanos, o que acontece? Também temos nossos rituais. Reconheço quando uma mulher – não importa a idade – está “interessada” num homem. Ela mexe mais nos cabelos e diz-se até que é um gesto pré-histórico, para que as axilas exalem feromônios sexuais. Algo tipo “estou a fim”.

Algumas passam a língua nos lábios, umedecendo-os, como se estivessem diante de um chocolate. Ou de um milk-shake de açaí. Se eu sou capaz de entender essas mensagens subliminares, o que dizer das jovens que dançam, malemolentes, acariciando o próprio corpo, colocando o dedo na boca e revirando os olhos, ao som de músicas (?) cujas letras pedem para a “novinha dar uma sentadinha” ou repetem “eu quero é tu”, numa rima grosseira e imoral?

Exagero? Não, apenas uma festinha em que o DJ executa o que pedem, e adultos assistem complacentes, às garotas “sensualizando”, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Mas não é. Esses funks de letras dúbias ou explícitas são uma apologia ao escracho, um incentivo à vulgaridade. Desconfio até que essas meninas se exibam mais umas às outras, do que aos rapazes. Vivem uma fase competitiva e podem demonstrar o “empoderamento” de maneira equivocada. O que deviam ser alertadas é que estão emitindo sinais cujas mensagens provavelmente não sejam as que queriam, de fato, transmitir.

Não estou, de forma alguma, tentando justificar o injustificável. Apenas me coloquei no lugar do garoto que assiste àquelas danças, cujos apelos são explicitamente sexuais (por mais que papai e mamãe se neguem a acreditar) e precisa buscar maturidade sei lá onde, para saber que ela pode estar “apenas” dançando e que não quer nada com ele.

Será que estou sendo puritana, logo eu, que sempre me achei meio moderna? Penso que não.

Procurando uma quadrilha junina infantil, encontrei o vídeo de uma festa de escola, em que a adolescente balançava o traseiro empinado diante da câmera e, enquanto o refrão “Vai lacraia, vai lacraia” se repetia,  colocava as mãos… Você sabe como.

Cheguei à conclusão de que cometemos muitos enganos. Ainda precisamos conversar muito sobre isso, antes que a tal “cultura do estupro” seja, de fato, alguma coisa com que tenhamos de lidar de uma forma, ou de outra, em casa ou numa delegacia.

Bom dia.