>Embaixo d’água (Publicado em 30/9/2007)

>

Tomar um banho de chuva, um banho de chuva…

São doze e trinta de quarta-feira. Estou presa num engarrafamento gigante desde que um temporal enorme começou. Quase duas horas sem conseguir sair do Reduto.
Tento manter a calma – afinal, já perdi a reunião, e, com certeza o resto do dia está comprometido.
Uma caneta meio grudenta, derretida pelo sol e começo a rascunhar no verso da “Dieta da Proteína”; nunca vou conseguir fazer mesmo.
Tento imaginar o que está ocorrendo com Belém , essa cidade tão linda, que sofre tanto nas nossas mãos.
Passam boiando sacolas com lixo, numa propaganda negativa dos supermercados do bairro. Uma romaria “pluvial” de cocos, garrafas pet, laranjas, um assento sanitário quebrado, o tronco do que já foi uma boneca, caixas de papelão…
Somos todos, motoristas, lixo e ratos, ribeirinhos, ao sabor das águas que reclamam por onde escoar.
Subo no estribo do carro, tentando avaliar a situação. Atrás, um motorista de uma pick-up, dessas que fazem a gente se sentir um pontinho e eles se acharem donos da rua, grita: “Senta aí, tia, e acelera!”
Pena é que não disponho dos efeitos especiais bíblicos.
Não existe um único guarda, para colocar ordem nesse caos. Carros pequenos pifam, literalmente afogados. Mulheres parecem desesperadas e homens, muito aborrecidos.
A única coisa que sei é que não dá para fazer nada, a não ser pensar em como seria bem vinda, uma grande campanha para mostrar a nossa população, o que acontece com o lixo que despeja pelas ruas.
Engraçado é que, como todos temos um pé numa aldeia qualquer, adoramos banho; não é raro encontrar pessoas com os cabelos respingando, cheirando a limpeza. Mas com o lixo que deveria ser privado, não temos pudor ou educação e o tornamos público.
Mansões sem calçadas decentes, jogam nos “pés” das mangueiras, todo tipo de quinquilharia, casas são varridas e voam pela porta migalhas e restos dos nosso dias de porcalhões. Quem nunca viu uma boa residência , com o esgoto de pias, lavatórios e chuveiros, sendo despejado diretamente na vala, onde passam a navegar restos de arroz, feijão, macarrão e espuma de sabão e shampoo? Um espetáculo de falta de urbanidade. Desde que escoe para longe de casa…dane-se seu itinerário.
Fomos acostumados a reclamar da prefeitura “que não recolhia o lixo”. E agora, que ela recolhe? “Maiê, acabei!”
Nem se contasse com um exército de garis, jamais daríamos conta de tantos sugismundos, que aparecem em todas as classes sociais.
Sabe aquele tipo que leva a sacola (sempre ela, a infeliz) com todo tipo de restos, até o terreno baldio mais próximo e ainda acha que está fazendo a sua parte?
O caminhão vai passar ( diga-se , na minha rua, por volta das vinte e três horas…não falha!) mas para se livrar do incômodo, ele atravessa e joga o saco no canteiro, onde as ratazanas acham “de um tudo”. Na Pedro Álvares Cabral é assim. Em outras ruas, também.
Os berros de um voluntário me fazem voltar a realidade. Toma para si a responsabilidade de orientar os carros para retornarem de ré, até a Benjamim e dali, buscar a Rui Barbosa.
Uma das características “patognomônicas” do paraense é não se importar (muito) com uma chuvinha. Alunas de um colégio que tem nome de escola de teatro, passam, provavelmente ainda irão tomar dois ônibus até chegar em casa, com gripe e frieiras. Rapazes de outra escola as agridem, com palavrões e sem nenhuma razão aparente, a não ser a alegria, apesar da chuva.
Por que a falta de educação? Estou desanimada. Não com a chuva, eu aprendi a viver com o nosso clima, sou quase um anfíbio. Meu desencanto é não conseguir imaginar uma cidade melhor, enquanto nós todos não tomarmos umas aulinhas de civilidade.
Pena. Belém não merece.

>A banheira

>

Uma das coisas que me divertiram ultimamente, foi o resgate de uma banheira. Calma, eu explico.
Há oito anos vim morar em uma casa que tem não uma, mas duas banheiras; confesso que minha escolha foi em parte causada por esse luxo!Depois de arrumar caixas enormes de ‘traquitanas’, resolvi me preparar para um banho digno de nota. Sais, espuma, roupão, música suave e aquela indefectível toalhinha para colocar sobre os olhos, igualzinho eu via nos filmes. Que mico. O tal do aquecedor -que pra mim não passava de uma carcaça cromada na parede- nem chegou a funcionar. A água, provavelmente por causa dos tubos sem uso durante muito tempo, tinha um cheiro esquisito, uma mistura nauseante de ferrugem e coisa velha.
Cheguei a chamar o técnico e, uma pequena fortuna depois, lá estava a carcaça prontinha pra aquecer meu relaxamento; que banho mesmo, a gente toma é no chuveiro.
Repetida a mis-en-scene, na hora ‘h’ ouvi um estalozinho suspeito e a água voltou a jorrar tímida e fria, muito fria.
Desisti. Passei a achar que era um luxo besta, ninguém aproveita banheira em casa mais que um mês e quando passa a novidade, só serve para juntar poeira e cabelos suicidas.
Bom, o tempo passou e elas permaneciam ali, inúteis, desdenhando minha total falta de competência para usufruir qualquer coisa que fuja da rotina.
Nos meus momentos de ‘mulherzinha’, acreditava que um dia, ‘alguém’ (meu marido, minha filha, o Raj ou o canguru da sorte, sei lá!) me surpreenderia com a tal da droga da banheira funcionando, nem que fosse uma só.
Mas o caso é que o tempo passa e as coisas nem sempre mudam. No meu período ‘borocoxô’, a viagem da Verena para Minas onde apresentaria a monografia, fez-me desconfiar que ficaria mais ‘borocoxô’ ainda. Eu precisava, urgentemente, de um desafio, qualquer coisa que me desse ânimo para ‘saltar fora’.
Chovia muito, e fiquei imaginando o quanto poderia ser complicado colocar o ‘elefante negro’ em atividade. Foi quando ouvi aquele ‘ruidozinho’ de pinga-pinga, bem embaixo do banheiro. Um vazamento! Pronto, essa era a razão que faltava para decretar a minha Faixa de Gaza: vamos meter picareta no banheiro!
Bom, pra encurtar, foram quase trinta dias de desordem. Retirei o box que me fazia suar sob a ducha, o ‘túmulo’ da banheira foi reduzido a cacos e tive que chamar um especialista para, entre outras coisas, fazer dois remendos minúsculos na fibra de vidro. Nesse meio tempo, descobri que o ‘ploc-ploc’ vinha da descarga do banheiro vizinho; ou seja, a razão da guerra não era bem aquela. E daí? A independência do Brasil também não foi bem assim.
O novo aquecedor deve ter sido despachado de “Sun Paulo” num jegue manco, levou doze dias para chegar, mas chegou.
Massa preta pra cá, eletricista pra lá, telhas quebradas, acolá. Ti-ti-ti e arranca rabos entre três ‘especialistas’ todos altamente ‘estrelas’…E eu, dando plantão naquela enorme casa de material de construção, ou você já viu pedreiro ou eletricista entregar a lista inteira do material de uma só vez? No final de uma semana, já era íntima da casa. “E aí, D. Vera, já matou quantos na obra?…“Estou providenciando a missa comunitária, Silva!”.“Ainda falta alguma coisa?”, o ‘Seu’ Zé Maria já sabia que faltava, sim, e que eu viria trocar a metade no dia seguinte.
Bom, a ‘obra’ ficou pronta. Casa vazia, limpei e arrumei o velho banheiro recauchutado como a Dilma Russef, um pouquinho mais bonito por fora e a mesma coisa por dentro, enfim. Abri a torneira, sem muito alarde, não queria pagar mico de novo. Hummm…O tal do visor digital era quase em braile, que droga, tomar banho de óculos. Trinta e três graus.
O motor ronronou e a espuma foi tomando conta da água. E haja espuma. Levei uma montanha perfumada e acomodei-me; de fora parecia bem maior, mas estava ótima. No som, Gilmarley Song com o Kid Abelha, e então dei uma enorme gargalhada. Que bobagem, era só uma banheira velha e emperrada, mas estava me sentindo poderosa.
Consegui!

>Uma patinha…Ops, gatinha.

> Ela é Bruna, uma persinha que ‘nos possui’ (é isso aí!) há quase dois anos.
Desde que a trouxemos do pet, recém-nascida, dava mostras que viria a ser uma Encrenqueira de marca maior. Não suporta apertos, colo só por uns minutinhos, é curiosa e…adora água!
Pois é. Ninguém acredita mas Bruna entra na bacia de roupas, escapa para a chuva sempre que tem chance e curte ficar deitadinha ao lado da piscina com uma pata dentro d’água.
A intimidade com o elemento ao qual não pertence foi tanta, que já havia encontrado a ‘moça’ no primeiro degrau, parecendo o Cielo, pronta para mergulhar.
O caso é que mergulhou.
Estava indo colocar a roupa na lavanderia quando algo ‘escuro’ dando voltas na piscina, me chamou a atenção. Não acreditei. Bruna estava praticamente afundando, mal batendo as patinhas dianteiras. Fiquei aterrorizada mas consegui descer e resgatar minha felina amada. A princípio, pedi a Deus que não fosse a Bruna, que maldade. Mas era, a mecha branca sob o queixo e os olhos com de âmbar arregalados não me deixavam dúvidas. Enrolei-a com a colcha que tinha nas mãos e pude ver o abdômen distendido pela quantidade de água que havia engolido. Apertei devagar, pedindo a Deus, mas uma vez, que me fizesse capaz de socorrê-la. Com Ele é poderoso, ela deu um esguicho, como um espirro e gemeu.
Tive vontade de chorar, tal meu desespero. Chamei a Verena pelo celular e, por essas coisas divinas, estava bem próxima de casa.
Levamos a bichana nadadora até a clínica e ninguém acreditava que, apesar de trêmula, ela estava vivinha da silva.
Isso aconteceu ontem. Hoje Bruna está em observação, rodando pela casa, meio desconfiada. Mas já esteve molhando as patas no box do banheiro.
Penso em adotar uma terapia, quem sabe com ajuda profissional alguém a convença que gatos, decididamente, detestam água.

Na foto: Bruna, acordando de uma soneca sobre a minha mala!

Bem…por saber muito bem do que uma gatinha é capaz, não estranhei essa notícia de hoje, 8 de outubro, no Planeta Bizarro. Vejam que loucura:

A britânica Helen Wilmore, 36, se assustou quando abriu a mala em Amsterdã e dela saiu a gata Beauty, de três meses, que aperece na foto lá embaixo.
O bichinho se escondeu entre as roupas e, por causa de atrasos, ficou confinado na bagagem durante 21 horas. “Ela estava dormindo em minha cama enquanto eu fazia a mala. Na hora de partir, não a encontrei em lugar nenhum”, afirmou, segundo a publicação britânica “Telegraph”. Beauty também não foi notada pelos scanners dos aeroportos britânico e holandês. “Ela saiu da mala um pouco quente e molhada, mas fora isso estava bem.” A gata passa atualmente por um período de quarentena, na Holanda, que pode levar até seis meses. Ainda assim, é possível que continue no país para onde viajou ilegalmente. “Eu poderia trazê-la de volta, mas para isso seriam necessárias diversas vacinas e exames, além de pagar pelo transporte. Não tenho dinheiro para isso”, afirmou a mulher, que vive em Bradford, West Yorkshire.
Mas o final não foi tão feliz…

Conformada com a perda de Beauty, Helen comprou um novo gato para suas duas filhas, de 12 e nove anos. “Não é a mesma coisa, mas os dois têm a mesma personalidade adorável. Tudo o que posso desejar é que ela seja adotada por uma boa família, que lhe dê tanto amor quanto nós demos”, continuou. Um porta-voz do Aeroporto Internacional de Leeds-Bradford afirmou que a segurança local está investigando o caso.

Fala sério…abandonar uma filhota, assim? Eu, heim!