>Antiga

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Ela já nasceu antiga, diferente das amigas, capazes de fazê-la corar. Não quis ser bailarina, as pernas eram grossas e não levava jeito com movimentos sincronizados. Não, ela não seria bailarina. Nem aeromoça, naquela época, toda menina bonita mesmo, sonhava com a Varig. Nunca soube de uma que tenha conseguido, a que chegou mais perto foi a Lúcia, que fazia check-in em Val-de-Cães. Mas ela não era ousada o suficiente para ser aeromoça, despachar vôos noturnos ou apresentar jornais de TV, como arquitetavam as outras.
Jamais teve um sonho desses, comuns, ou se imaginou num consultório ou numa prancheta; também não pretendia ser atriz, isso não era lá coisa fácil, não naquela época. Modelos e manequins, ela só soube que existiam depois dos anos setenta – que foram loucos, muito loucos. Ela não sonhava com nada que as amigas aspiravam. Não seria atriz, nem médica, nem…
Cândida sonhava com o piano, dia e noite. Não fosse a reclamação do pai – De novo, Cândida? – tocaria até altas horas. Depois do almoço, era a sesta que, mesmo sem ninguém dormir, só acabava lá pelas quatro. Ela que aproveitasse, às sete da noite haveria o Repórter Esso, e esse, era sagrado.
Cândida queria ser pianista. Falava de boca cheia, Pi-a-nis-ta! Tamborilava a carteira durante o “recreio”, entre os dois toques da “campa”, enquanto os demais devoravam a “merenda”. Ninguém mais falava assim ou sonhava com pianos, ora, ora.
Só uma coisa mexia mais com a Cândida, e sentava-se bem ao lado, na terceira carteira da segunda fila. O Antonio José era a razão dos suspiros da bela e doce Cândida. No mais, um sobrado avarandado, de paredes cor-de-rosa, que tudo naqueles tempos tinha essa cor. Sala com mesa de jacarandá, pano de crochê e vaso de cristal, para trocar flores toda semana. Quarto de amplas janelas, cama de cerejeira entalhada, colcha de cetim – e o Antonio José em cima, claro. E no canto da sala, tchan-tchan-tchan-tchan… O piano! Haveria de ser um de cauda, desses que ficam abertos e se vê as cordas, lindo, lindo. Um sonho em sépia, como as fotos antigas.
E foi quase assim que as coisas aconteceram. Formou-se no Conservatório, com louvor; casaram-se na Basílica, tiveram três meninas… Cuidou de cada espirro, alimentou, debelou febres e aparou quedas, quase como havia sonhado; esposa e mãe, fazendo bolos, fritando batatas e bifes, amarrando marias-chiquinhas, enrolando brigadeiros, indo às reuniões do Lyons.
O piano… Bem, o Antonio José achou que não havia espaço para o piano, muito menos admitiu aulas, “no meio da sala”. Afinal, ela não precisava trabalhar; que cuidasse da casa, da família, determinou. Cândida viveu “o sonho” até mês passado, quando a caçula foi para São Paulo, fazer um desses cursos que nem sabia pronunciar o nome.
Ao chegar da hidro, encontrou duas malas repletas de roupas masculinas – novas e muito modernas. O Antonio José? Bem, num bilhete dizia que estava indo embora – com outra – para finalmente ser feliz. Aconselhava-a fazer alguma coisa “útil”, não sabia como ela vivia “sem fazer nada”…
Ela? Sei lá, acho que enlouqueceu. O “finalmente” atravessava-lhe a garganta… Dobrou as antigas roupas do marido, guardou-as nas malas novas, incluindo ceroulas de algodão e cintos de curvim dupla face. Colocou as novas sobre a cama de cerejeira que arrastou até o quintal, juntou a foto dele com o Rivelino, os álbuns completos das últimas oito copas, os discos dos Beatles e o Rolex, que ele só usava na festa da turma. Ateou fogo e ficou assistindo, tranquilamente.
O Antonio José? Foi morar com a outra. Ela? Está pensando em alguma coisa para fazer com a pensão, depois do divórcio. Viajar, por exemplo. E fazer aulas de dança de salão; nunca é tarde para dançar, as pernas grossas, sabe como é…

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>Carta da Amante (Publicado em 30/10/2007)

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“Ricardo, querido.
Faz pouco você estava aqui em casa e eu já encontro coisas para dizer-lhe.Pois é.
Hoje eu percebi que precisava ser rápida, que é necessário falar um pouco sobre a sua proposta.
Nos últimos tempos você tem sido quase tudo na minha vida. Mas esse ‘quase’ faz muita diferença.Quando dois amantes se encontram depois dos quarenta, as coisas são diferentes. Algumas são definitivas, outras, nem tanto.
Sei que, no início, cobrei muito que você assumisse a sua ‘quase separação’ da Luiza. Nossas vidas são regidas por quase, mais ou menos, assim assim…
O tempo me fez aceitar e, sem trocadilhos, ‘quase’ agradecer que vocês permanecessem casados, apesar de mim.
De repente, depois de três anos de ‘quase termos assumido nosso caso’, você me participa que ela pediu a separação e que você vem morar comigo…Emudeci. E você, claro, achou que era alegria.Não, Ricardo, não era nada além da surpresa.
Nesses anos, fui me acostumando a não ter você nos finais de semana e ‘ter que’ preencher meu tempo; como você me estimulava a fazer para não perturbá-lo choramingando saudades, num celular que raramente atendia.
Tornou-se um hábito poder sair, encontrar amigos e jogar conversa fora, certa de que você não teria um ataque de ciúmes.Aprendi a gostar da cama vazia e da exclusividade do controle remoto depois que você saia, apressado, inventando desculpas para uma Luiza desconfiada e perigosa.
Cheguei a invejar a perfeição com que ela tratava suas roupas, mesmo sabendo (ela sempre soube, Ricardo!) que você as usava com ‘a outra’. Para ser franca, eu jamais passaria uma camisa sua, mesmo que você fosse o homem mais fiel do pedaço; coisa que nunca foi com sua esposa, porque seria comigo?
Eu reclamei de alguns hábitos seus e você me disse que ela convivia com isso numa boa.
Daí passei a imaginar se ela não seria a esposa ideal para você? A esposa ideal para um amante bem tratado…Cruel? Cínico? O mundo é assim.
Eu não suportaria o tsunami que o acompanha a cada banho, toalhas jogadas num canto e cuecas que você imagina possuírem um dispositivo de auto lavagem, se amontoando no cesto.
Aa sonecas que você tira no sofá, sem camisa…querido, só no sofá dela. Costas suadas ficam bem à borda da piscina e olhe lá.
Falando em piscina, eu não sou exatamente o tipo que prepara tira-gostos e vai apanhar a cerveja, o jornal, o telefone, o Engov…Não tive marido que me deixasse esses cacoetes, eu era a amante, lembra?
Não sei porque lembrei da nossa última discussão quando você me disse que sua ‘esposa’ seria incapaz de traí-lo, numa referência clara ao fato de ter iniciado nosso relacionamento quando ainda era comprometida.
Sabe, você deixou claro que ela era o tipo ‘esposa’ e eu…Bem, eu era a sua…Ah, deixa pra lá, pelo menos eu não tenho que suportar seu mau humor de domingo.
A ‘questã’, como diz a sua senhora, é que eu levei isso à sério.
Talvez explique minha mudez nervosa quando você, senhor de si e pretensamente de mim, informou-me que passaria a ser a sua cara-metade assim que ela o colocasse fora de casa – dessa vez definitivamente.
Eu o amo demais, só não mais do que a mim mesma e isso é mais um ‘quase’ nessa nossa quase história de amor.
Prefiro ficar só, livre para passear; dormir os finais de semana inteiros é preferível a ter a companhia do Júnior, querendo montar aeromodelos na minha mesa de jantar, circulando com dedos sujos de chocolate.
Não quero ser sua mulher, você não faz meu tipo de marido, lamento. E eu, Ricardo, não sou o seu modelo de esposa, pode acreditar. Jamais concordaria que você desaparecesse de segunda a sexta, numa academia que ninguém sabe, ninguém viu.
Logo no começo, eu teria topado e estaria uma craque no suflê de queijo.
Quero muito continuar nossa relação, mas do jeito que está, um ‘quase’ casamento.
Lamento que ela tenha tomado a decisão que você adiou tanto.
Mas você é um homem forte e vai conseguir arrumar um cantinho pra chamar de seu.
Ou quase. O meu…é só meu, anjo.
Finalmente, meu amor, não se culpe tanto por tudo isso.
A ‘depressão’ que levou a Luiza a optar pela separação, chama-se João, é colega de faculdade e quase da idade dela. Quase.
Aliás, ele estava naquela excursão, quando ela foi para BH e a gente ‘quase’ decidiu assumir e morar junto, lembra? Mas acho que você, iluminado como sempre, preferiu esperar mais um tempo.
Bom, isso não importa. Na segunda, te espero como sempre, depois do trabalho.
Um beijo no seu coração,
Nádia.”

Imagem:René Magritte-OS AMANTES,
Desde que Magritte pintou os amantes, estes como por magia deixaram de ter rosto. Nos jardins, nos cinemas, no bulício das ruas é frequente ver agora homens e mulheres sem rosto, abraçados.Todavia, tudo não passa dum equívoco. Sem dinheiro para pagar aos modelos Magritte optou por cobrir com um lençol o rosto inacabado dos amantes.

COMENTÁRIOS ORIGINAIS:
Edyr Augusto disse…
Muito bom. Na medida.
Abs

Carmen (sem filtro) disse…
A-do-rei!