Antes que esqueça

Antes que eu esqueça

A rotina era a mesma, todos os dias. E se havia rotina, tudo caminhava da melhor maneira possível.

Esforçava-se para chegar em casa antes das dezenove. Evitava trânsito e a tradicional “esticada” depois do escritório. Passava na padaria e comprava o lanche: pão francês quentinho, queijo prato Regina e presunto, em finíssimas fatias.

Preparava o sanduíche com carinho, uma xícara de café com leite e caminhava até o quarto, cantarolando para anunciar a sua chegada.

Ela estava na poltrona, cabelos penteados, colo “entalcado” denunciando o banho recém tomado. Usava os brincos de pérolas e estava linda na camisola de cambraia, rescendendo a “cheiro do Pará”. Os olhos verdes pareciam cada vez mais claros, dois lagos tristes. A conversa era sempre a mesma, mas ele não se importava.

Ajeitava a bandeja, e ela perguntava: – Onde está o Edgar?

– No banco, logo estará aqui.

Partia o sanduíche, para que ela pudesse comer melhor.

-Fiambre.

Ela lembrava o presunto fininho que chamava de fiambre, como no seu Portugal natal. De vez em quando, parecia distante, até perguntar novamente pelo marido, falecido há mais de dez anos. Depois, olhava-o, franzindo a testa.

– Quem é você?

Ele pegava então o velho álbum de fotografias e mostrava-lhe página por página.

– Quem é esse?

Ela abria o sorriso e, com o indicador curvado, identificava a própria família, que permanecia resguardada num passado distante que hoje, era tudo que tinha.

-Edgar, Helena, Eduardo…

-Esse sou eu, mãe.

Ela o olhava e repetia “Eduardo”…

– Você se lembra, mãe, da casa no Mosqueiro?

E uma luz se acendia no fundo da alma daquela mulher que tinha sido sua mãe amorosa e dedicada. Trabalhara “fora” numa época em que era muito difícil ter a própria carreira. Mas ela queria que os filhos recebessem boa educação. Cursaram inglês, música e tiveram todas as atividades típicas, como natação, judô e balé. As meninas tinham que dançar balé, naqueles tempos.

Ele tomava os pés da mãe e aplicava-lhe uma massagem suave. Lembrava as noites em que ela o massageava com “Transpulmim”, para facilitar-lhe a respiração. Apenas devolvia parte dos cuidados que ela tivera com eles.

Viam as fotos até o final, quando então lhe dava a medicação para dormir. Depois das atividades noturnas, ele a acompanhava até a cama, ajeitava o lençol e o pequeno travesseiro.

– Onde está o Edgar?

-No banco, mãe. Vamos rezar?

E repetia a mesma oração que, por tantos anos,ela recitara entre as camas dos filhos. “Santo Anjo…”

-Amém.

Ela segurou-lhe o pulso, com a mão trêmula.

-Quem sou eu?

Ele engoliu a emoção, acariciou-lhe o rosto, ajeitando os alvos cabelos. –Você é minha mãe, a melhor mãe e avó do mundo e todos nós a amamos muito.

Ela aconchegou-se e sussurrou. – Eu não lembro de você, mas obrigada…

Ele acendeu o abajur para que uma luz tênue a deixasse mais segura, caso acordasse.

Agradeceu a Deus por não esquecer jamais, ele próprio, do amor que os havia unido. Agradeceu o carinho e aceitação da esposa que sabia que estavam não só cuidado da sogra, mas educando os próprios filhos para a vida, para as coisas de família e amor.

Na manhã seguinte, tomariam café juntos e, apesar da correria, teriam uma chance de estar com ela, lembrando que a mais importante das recordações é a que é amada, muito amada.

(Com amor, para alguém muito especial.)

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Quando se ama tanto…

Da distância e do amor

Pretendia escrever sobre o Natal, confraternizações e amigos ocultos, mas um assunto me chamou atenção, talvez porque o clima natalino favoreça essas conversas sobre o coração e seus caminhos; as andanças que um bater mais rápido pode nos causar.

Nem sempre o amor é fácil. Ou vizinho.

Se a tecnologia nos deixou mais próximos, favoreceu relacionamentos que julgávamos impossíveis. A moça do Pará, casando-se com um jovem de Dubrovnik. “Du”… onde?

Croácia, querida. Um lugar lindo, do outro lado do planeta, distante várias escalas e conexões!

O casal resolveu a questão da distância. E quem não consegue essa façanha, faz como?

Numa conversa entre mulheres, a amiga me perguntava se a distância sentencia o amor à morte.

Como poderia ser sincera, sem desanimar uma relação que pode até, dar certo?  A ausência é o veneno que mata qualquer relação, aos poucos, quase sem que a gente perceba. E o outro pode morar ao lado, tanto faz.

Já não sou a melhor pessoa para falar desses amores que muito precisam enfrentar; o tempo nos faz menos crédulos – e mais práticos.

Não conheço paixão que tenha sobrevivido à maldade da distância por muito tempo, e mesmo o amor – mais calmo e determinado – requer que a distância, se existir, tenha prazo certo (ou quase) para terminar. Amor gosta de rotina, de convivência.

Ao contrário, sei de vários enredos que acabaram se perdendo, como garrafas ao mar.

O que se pode dizer à bela mulher que vive – nasceu, cresceu, consolidou a carreira, teve filhos e netos – aqui e, por esses caminhos que só a internet explica, “conheceu” um homem que parecia “seu número”, não fosse o fato de morar do outro lado do Atlântico. Teria um final feliz?

Depende.

Nossa heroína pode enamorar-se, mas jamais voltará a ser a mocinha que casou de véu e grinalda. O que ela espera dessa relação?

A maioria das mulheres perde – um pouco – do romantismo dos tempos primaveris, mas continua esperando um amor que a complete, sob todos os aspectos. Um homem que saiba amá-la e a valorize com gestos e palavras, ampare quando a vida não for tão boa e tenha mais qualidade naqueles momentos que os mais jovens costumam julgar pela quantidade.

Um homem maduro, interessante, com quem o assunto pareça interminável. Que goste da mesma música.

Como superar a distância sem que um dos dois abra mão da própria história, que saiba transplantar a vida como se fosse a muda de uma árvore adulta e – o mais importante – que jamais lhe cobre o esforço dessa mudança?

É bom lembrar que a relação vivida “aos intervalos” sempre parece muito mais interessante e harmônica do que aquela em que a convivência inclui não só os bons, mas os maus momentos. Será que depois de “casar” tudo continuará um mar de rosas?

Ninguém sabe – e é por isso que as paixões, os amores, são tão envolventes. O imponderável. Esse mago hipnotizante.

Com riscos ou não, as tais borboletas no estômago não têm preço. E quando você encontra a outra banda… Como manter a racionalidade e desistir?

No começo, a adrenalina é tanta que tudo, até os voos mais longos, parece fazer parte de uma vida mais emocionante.

Os jantares são especiais. As saídas, programadas e muito aguardadas. Tudo é excitação enquanto é novidade.

Lá pelas tantas, ir e vir já não é tão fácil. Num certo momento, você precisava dormir abraçadinha ou apenas conversar “olho no olho”. Resta o skype, ou “olho na tela”. Quem já não teve problema com uma frase escrita, que não carregava o tom de voz que mudaria todo o sentido?

A ausência é tão cruel que nos acostuma com a “não presença” do outro. E como essa história continua?

Só sei que ninguém nasce para viver sozinho, nem que exista um mar no meio, cheio de garrafinhas indo e vindo.

Aproveite, amiga, enquanto durar. Quem sabe como será?

De olhos fechados

Jovens casais, ao que parece, estão deixando de “sair para dançar” – o que é uma pena. Até pouco, era comum que as noites de sábado fossem para rodopiar por aí… Alguns haverão de torcer o nariz, mas era ótimo balançar ao som do ABBA; qualquer uma poderia ser “Dancing Queen- a rainha da dança, jovem e doce…” Bastava fechar os olhos e se entregar… Hoje, bem, hoje existem poucas opções para quem gosta de dançar e o namoro – de casados ou solteiros – acontece também em shoppings, pizzarias, restaurantes e espetinhos- uma lástima. Namorar passou a engordar e perdeu o charme dos tempos em que, além de jantar, a gente dançava!
Apesar da modernidade, existe quem continue lustrando as pistas… Há mais de vinte anos conheci um casal, recém começando a vida a dois. Ele gostava de caça, pesca e outras atividades um tanto radicais. E ela o acompanhava alegremente, desde o namoro – que nem foi tão longo. As coisas não mudaram com o casamento – o que é raro – e as noites de sábado continuaram reservadas, quase sempre, para dançar. E como dançavam bonito!
Eu os admirava enquanto executavam passos com a intimidade dos cúmplices; ela girava e ele estendia-lhe a mão no momento exato… É preciso tempo, intimidade, para conquistar essa afinação – e nem sempre ele, o tempo, conspira a favor dos casais… Ou seria o contrário?
Bem, os anos passaram… Assisti muitos casais dançando, mas sabe de uma coisa? Quem dança de olhos abertos e atentos, não tem a cumplicidade – ou seria paixão? – de quem os fecha, como cerrasse cortinas, para viver o momento dos dois, deixando tudo o mais “lá fora”…
Aonde vão parar os casais enlevados, nesses minutos de quase transe? Podem estar no presente – se for muito bom- ou em algum lugar de um passado feliz. Enquanto o globo espelhado gira e “McArthur Park se enternece no escuro, com o verde descongelando” na voz de Donna Summer, visitam um paraíso particular. Shangrilá, Passárgada, Salinas ou os anos 80, pouco importa- “viajam” para onde foram felizes… (Nunca existiram músicas como aquelas!)
Ah, o tempo muda tudo, você vai me dizer. Muda, mas nem sempre acaba. A natureza do amor (e dos relacionamentos) por si só é mutante e moldável. Podemos dar-lhe novas formas – ou deixarmos que envelheça até fenecer.
O tempo não poupa cinturas, memórias ou amores. Desatentos, nem sempre estamos maduros e dispostos a aceitar (e aconchegar) essa nova natureza do amor que conseguiu sobreviver aos maus tratos. Quando permitimos, a alquimia amorosa transforma paixão em confiança, ciúme em tempero, promessas em lealdade… As borboletas no estômago, aos poucos cedem lugar para a paz que reconforta. O amor maduro é uma conquista. Árdua, paciente.
Na pista, minha amiga comemora cinquenta anos enlaçada pelo marido, lembrando-me das noites de sábado… Um casal que logo estará nas bodas de prata e ainda dança de olhos fechados, é uma inspiração!
Essa não é apenas mais uma festa. É uma ode aos bons tempos – aos que foram e aos que virão. Uma oração para que as boas recordações tornem o dia a dia mais especial; louvor de quem escolheu ser feliz. Uma viagem de olhos fechados… Mas acima de tudo, é um presente para cada um de nós.
No telão, Tony Manero agita o blazer branco e dezenas de casais lotam a pista luminosa. Penso naqueles que cumprem o castigo de jantar toda semana, sem trocar mais que algumas palavras; sem assunto, sem nada para partilhar além do cardápio. Definitivamente, a solidão a dois não sai para dançar – e infelizes não dançam…
Interrompo o devaneio quando os acordes anunciam que As Frenéticas nos mandam abrir as asas. Como resistir?

Lembretes (crônica)

Todo mundo já foi assim, um dia...

Cansada, ela pensou em como a vida havia mudado. Onde se perderam? Quando preferiram calar durante horas, em vez de puxar conversa, aquela coisa simples de “como foi seu dia?”… Não lembrava quando o ciúme dera lugar à curiosidade, à vontade de experimentar, de variar… De sentirem-se vivos, capazes de inspirar alguém – ou a si mesmos. Aos poucos, os planos deixaram de ser a dois e a rotina era vivida a três, quatro…

Enquanto separava “o que é seu, do que é meu”, ela entendeu que a partilha era o espólio do seu casamento. Morto por inanição, sufocado por pequenas rusgas que se acumulavam em brigas homéricas. Crueldades íntimas que ceifaram risos e conversas animadas; noites de trocas amorosas sepultadas, lado a lado com o desejo e a rara vontade de voltar para casa.

Entre os destroços desse amor, havia uma caixa de fotografias e recordações da época em que adoravam registrar as bobagens que fazem a vida feliz. A pedrinha em forma de coração catada numa praia em Nice, na primeira e única viagem à Europa, numa excursão barata… A vela do batizado da caçula, com um minúsculo Espírito Santo em biscuit. A foto da lua de mel, numa barraquinha do Atalaia… Sorriu ao ver que sorriam. Quando haviam parado de sorrir? Espalhada na cama estava a história de duas pessoas que se amavam – e talvez tivessem esquecido.

Ela não conseguiu escolher o que era de cada um, ou teria que rasgar fotografias pelo meio, como nos filmes italianos, e nem assim, estariam separados. Em vez disso, saiu e comprou porta-retratos, fez ampliações e pôsteres, e espalhou a parte feliz daquela história pelas paredes; beijos em quatro cantos e o melhor de todos, no quarto. Na porta de vidro, resplandecia translúcida, a imagem do pedido de casamento; uma cena ensolarada, com o mar de Salinas por testemunha. Depois de alguns retoques, ali estava o casal, olhos nos olhos, cheios de promessas. Como puderam esquecer o quanto era essencial beijar? Beijo de verdade, de entrega de corpos, almas e línguas… Teve saudade.

Uma amiga sentenciou: A foto na porta, era cafona. Pois felicidade é a cafonice mais gostosa que existe, e lá ficou o beijo, aguardando o marido.

Propôs saírem “apenas” para conversar – justamente o que não faziam há muito – e permitiu-se ouvir o quase ex-amado, encantar-se com o jeito dele contar uma bobagem qualquer… Como antigamente.

Pediram-se muitos perdões. Por todas as noites em que, para vingar-se dele, ela negava-lhe sexo e ele virava para o lado e sonhava com a amiga cúmplice e solidária. Pelos dias em que ele não foi ao cinema, já que ela também não aceitava a pelada com amigos. Pelos discos dele, que foram rebaixados à “tralha”. Por todas as ocasiões que ela cortou o cabelo e ele não notou. Pelos aniversários das gêmeas que viravam mega eventos, todo ano. Pela conversa com amigas no telefone, no Messenger, no Twiter, no corredor do shopping. Pelas horas que ele passava no computador… Finalmente perdoaram-se pela falta de carinho, de lealdade, de paciência.

Felicidade não tem efeito imediato ou garantido, mas tem lá suas manhas. Ela acreditava que lembrar momentos felizes ajudava a recuperar – e manter – boas perspectivas. Por isso espalhava as fotos dos melhores momentos, tentando semeá-los.

Ao lado dos perfumes na penteadeira, a imagem emoldurada dos dois, rindo durante uma conversa qualquer, lembrava-os de jamais passar um jantar sem dar uma palavra, um com o outro. Mas a amiga insistia, a porta ainda era muito cafona.

>Amando quem não quer ser amado

>
Quem nos dera, que na vida real, essa dificuldade fosse resolvida por um mago chinês, que nos desse algumas ervas para “envenenar” a pessoa com quem parece ser impossível conviver, e, nesse processo, a gente amansasse o coração rebelde com doses homeopáticas do amor perseverante. Seria mágico.
Mas não é tão simples. O mestre Fernando Pessoa tem a medida do amor amigo, aquele que gostaríamos, fosse correspondido pelo irmão, pelo parente arredio, pelo colega que não responde; por alguém que se vai sem notar o quanto nos é caro. A fraternidade é cara e dolorosa.
Numa parede qualquer, pertinho do Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa, li o “Poema do amigo aprendiz”, que mais parecia um recado ao meu coração aflito:
“Quero ser o teu amigo. Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias.” (Fernando Pessoa)

Sob a sombra das árvores que abrigam quem chega a Torre de Belém, entre ciganos que vendiam echarpes coloridas made in China, comprei um lencinho, com os mesmos versos não me saíam da cabeça. Tomei a coincidência como um sinal; e de vez em quando lembro que faz parte calar – e esperar é uma ciência.
Algumas pessoas – amigos ou parentes – a gente ama incondicionalmente. Pouco importa se é correspondido, ou se não retornam as ligações. Fingem estar viajando ou fazem o possível para não encontrar quem quer que possa ter-lhes carinho ou um vestígio de afeto. É a sina dessa infeliz existência negar-se ao amor, ao melhor amor- aquele que nada pede ou espera em troca. Um amigo muito rabugento me disse certa vez que é mais fácil perdoar uma bofetada que um abraço. Enfim.
Ora, que se danem, diria alguém. Que fiquem sós que eu nem cumprimento, diria outro.
Mas assim estaríamos, também, prisioneiros dessas teias que encarceram vidas quase não vividas. Não! Pouco importa o que eles ou vocês acham!
Deixem-me continuar como os versos de Pessoa, amando na melhor medida que eu puder, calando quando o melhor é nada falar e mais, guardando o que deveria ser dito, inclusive do quanto sinto falta, do quanto amo você.
Há de chegar o dia em que, finalmente, se deixarão amar. Ainda que o medo de perder e de sofrer atrapalhe os dias, eu estarei aqui.
Que falta sinto de você. Como amo você – apesar de você.

>Carta da Amante (Publicado em 30/10/2007)

>

“Ricardo, querido.
Faz pouco você estava aqui em casa e eu já encontro coisas para dizer-lhe.Pois é.
Hoje eu percebi que precisava ser rápida, que é necessário falar um pouco sobre a sua proposta.
Nos últimos tempos você tem sido quase tudo na minha vida. Mas esse ‘quase’ faz muita diferença.Quando dois amantes se encontram depois dos quarenta, as coisas são diferentes. Algumas são definitivas, outras, nem tanto.
Sei que, no início, cobrei muito que você assumisse a sua ‘quase separação’ da Luiza. Nossas vidas são regidas por quase, mais ou menos, assim assim…
O tempo me fez aceitar e, sem trocadilhos, ‘quase’ agradecer que vocês permanecessem casados, apesar de mim.
De repente, depois de três anos de ‘quase termos assumido nosso caso’, você me participa que ela pediu a separação e que você vem morar comigo…Emudeci. E você, claro, achou que era alegria.Não, Ricardo, não era nada além da surpresa.
Nesses anos, fui me acostumando a não ter você nos finais de semana e ‘ter que’ preencher meu tempo; como você me estimulava a fazer para não perturbá-lo choramingando saudades, num celular que raramente atendia.
Tornou-se um hábito poder sair, encontrar amigos e jogar conversa fora, certa de que você não teria um ataque de ciúmes.Aprendi a gostar da cama vazia e da exclusividade do controle remoto depois que você saia, apressado, inventando desculpas para uma Luiza desconfiada e perigosa.
Cheguei a invejar a perfeição com que ela tratava suas roupas, mesmo sabendo (ela sempre soube, Ricardo!) que você as usava com ‘a outra’. Para ser franca, eu jamais passaria uma camisa sua, mesmo que você fosse o homem mais fiel do pedaço; coisa que nunca foi com sua esposa, porque seria comigo?
Eu reclamei de alguns hábitos seus e você me disse que ela convivia com isso numa boa.
Daí passei a imaginar se ela não seria a esposa ideal para você? A esposa ideal para um amante bem tratado…Cruel? Cínico? O mundo é assim.
Eu não suportaria o tsunami que o acompanha a cada banho, toalhas jogadas num canto e cuecas que você imagina possuírem um dispositivo de auto lavagem, se amontoando no cesto.
Aa sonecas que você tira no sofá, sem camisa…querido, só no sofá dela. Costas suadas ficam bem à borda da piscina e olhe lá.
Falando em piscina, eu não sou exatamente o tipo que prepara tira-gostos e vai apanhar a cerveja, o jornal, o telefone, o Engov…Não tive marido que me deixasse esses cacoetes, eu era a amante, lembra?
Não sei porque lembrei da nossa última discussão quando você me disse que sua ‘esposa’ seria incapaz de traí-lo, numa referência clara ao fato de ter iniciado nosso relacionamento quando ainda era comprometida.
Sabe, você deixou claro que ela era o tipo ‘esposa’ e eu…Bem, eu era a sua…Ah, deixa pra lá, pelo menos eu não tenho que suportar seu mau humor de domingo.
A ‘questã’, como diz a sua senhora, é que eu levei isso à sério.
Talvez explique minha mudez nervosa quando você, senhor de si e pretensamente de mim, informou-me que passaria a ser a sua cara-metade assim que ela o colocasse fora de casa – dessa vez definitivamente.
Eu o amo demais, só não mais do que a mim mesma e isso é mais um ‘quase’ nessa nossa quase história de amor.
Prefiro ficar só, livre para passear; dormir os finais de semana inteiros é preferível a ter a companhia do Júnior, querendo montar aeromodelos na minha mesa de jantar, circulando com dedos sujos de chocolate.
Não quero ser sua mulher, você não faz meu tipo de marido, lamento. E eu, Ricardo, não sou o seu modelo de esposa, pode acreditar. Jamais concordaria que você desaparecesse de segunda a sexta, numa academia que ninguém sabe, ninguém viu.
Logo no começo, eu teria topado e estaria uma craque no suflê de queijo.
Quero muito continuar nossa relação, mas do jeito que está, um ‘quase’ casamento.
Lamento que ela tenha tomado a decisão que você adiou tanto.
Mas você é um homem forte e vai conseguir arrumar um cantinho pra chamar de seu.
Ou quase. O meu…é só meu, anjo.
Finalmente, meu amor, não se culpe tanto por tudo isso.
A ‘depressão’ que levou a Luiza a optar pela separação, chama-se João, é colega de faculdade e quase da idade dela. Quase.
Aliás, ele estava naquela excursão, quando ela foi para BH e a gente ‘quase’ decidiu assumir e morar junto, lembra? Mas acho que você, iluminado como sempre, preferiu esperar mais um tempo.
Bom, isso não importa. Na segunda, te espero como sempre, depois do trabalho.
Um beijo no seu coração,
Nádia.”

Imagem:René Magritte-OS AMANTES,
Desde que Magritte pintou os amantes, estes como por magia deixaram de ter rosto. Nos jardins, nos cinemas, no bulício das ruas é frequente ver agora homens e mulheres sem rosto, abraçados.Todavia, tudo não passa dum equívoco. Sem dinheiro para pagar aos modelos Magritte optou por cobrir com um lençol o rosto inacabado dos amantes.

COMENTÁRIOS ORIGINAIS:
Edyr Augusto disse…
Muito bom. Na medida.
Abs

Carmen (sem filtro) disse…
A-do-rei!

>Porque somos mulheres…Mea culpa

>

O tempo passa e vasculho a vida com um novo olhar. Não existe nada velho ou mofado nessa espiada que envelhescentes lançam no próprio passado.
É interessante como cometemos os mesmos enganos em vez de aprender com erros alheios; precisamos das experiências equivocadas, dos nossos hematomas e algumas vítimas.
A juventude nos faz intolerantes. Quando iniciamos relacionamentos que desejamos duradouros, agregamos hobbyes, paixões, amigos e até cacoetes do amado.
Sem resistência adotamos a mesma pizza, música, e, até, aquele timinho de futebol. Com sogra, ninguém tem problema no começo, não sem já ter estabilidade no serviço.
Não é falta de personalidade, é apenas “modus operandi” feminino, querida. E é claro, nem todas agem assim. Só a maioria que pensa que, por ser jovem terá tempo de sobra para errar, enterrar grandes e pequenos amores e, quem sabe? Recomeçar e cometer as mesmas sandices. Pena. Hoje, tempo é tudo que eu queria ter de sobra. E não o perderia com erros tolos.
Não existe novidade nas histórias e crises amorosas. Só muda a música, no mais, o roteiro é o mesmo, desgastado e pouco interessante.
Só nós cometemos erros? Não, meu bem, mas hoje estaremos na berlinda, relaxe e aproveite, como diria a Marta.
Caso é que, depois daquela temporada de ‘somos almas gêmeas e eu sou muito legal’, vem a sensação de estabilidade que é o primeiro passo para a insuportável certeza de vitaliciedade. E essa é apenas um delírio, inclusive em Buckimham.
Pombinhos juntos, familiazinha criada, a mulher se torna muito, muito espaçosa.
Culpa da sogra que, ela garante, nunca a aprovou. Hummmm. Lembra daqueles aeromodelos que vocês montavam juntos? Hummm…Pois é. Estão na casa da mãe dele, junto com os Puzzles que você deixou de fazer porque ocupam a mesinha da sala. Da sua sala. Ah, tá. Dá para entender, não é?
E a coleção de gibis? Pouco espaço, os apartamentos são minúsculos, como acomodar essas inutilidades mais seus sapatos e suas bolsas, afinal são a sua razão de viver. Ou quase, vá lá. Em alguns lares bem amplos, escritório masculino é ficção. E espaço perdido, não é mesmo?
E a bancada do banheiro? Uau, como são exíguas. Temos tanta coisa para deixar lá (e usar pouquíssimo) que mal sobra espaço para ele, que tem escova de dente, barbeador, espuma, perfume. Ora, perfume pode ficar no guarda-roupa, perto dos lenços, é mais prático.
Na geladeira, tem tudo que gostamos afinal, será a dieta dele também. Melhor que seja!
Os amigos, amém, ele conseguiu manter a duras penas e, não se espante, depois de alguma negociação, com transferência de ativos e passivos. Pra você claro.
Sabe uma coisa que sempre me intrigou? Mulheres têm amigos, homens (quis dizer héteros), outros amigos gays, uma porção de amigas pouco confiáveis e aquelas que valem ouro. Saem com a própria turma, sem os maridões; atendem ligações de celular e correm para um canto discreto; ficam horas penduradas na Internet…Mas se consideram acima de qualquer suspeita ou crítica. Já imaginou o que aconteceria se seus homens fizessem exatamente a mesma coisa? (Nem tente, há indícios que foi assim que os problemas no Oriente Médio começaram…).E se ‘eles’ trocassem abraços afetuosíssimos e cheiros no cangote, com uma mulher, bem na sua cara e depois, cândidos, dissessem que não importa, pois era apenas mais uma gay (e nem dava pinta, né?) com quem se relaciona, num grau de intimidade que beira o…Incesto? Sei lá.
Não estou reprovando nada disso, amiga. Cal-ma! Apenas e tão somente fico aqui matutando como seria se ambos tivessem, sempre, os mesmos direitos, pois é fato que não têm.
Saímos com eles, comemos um filé a Paulo Chaves e ainda abatemos um Petit Gateau (Aliás, essa sobremesa é pior que herpes, em qualquer lugar tem, que coisa!). Mas poucas vezes nos sentimos no dever (nem diria obrigação) de dividir a conta, afinal, estamos dando ao Romeu a honra de uma companhia agradável e salutar. Será?
É, meu anjo, eu realmente fiquei velha. Mas o ranço que me incomoda não vem de hoje, dessa nova maneira de ver e acima de tudo, de olhar. (Com o tempo, você aprenderá a diferença.) Vem dos cacoetes, dos modelitos fora de moda e de tudo que, sabidamente, vai dar errado.
Vejo sim, que é da natureza feminina esse viés egoísta e egocêntrico, que só tempo ameniza, tornando-os menos incômodos. E a nós, um pouco mais parceiras.
Talvez isso não explique porque homens mais novos estão, cada vez mais, experimentando mulheres mais velhas (Bom, as mais jovens estão penduradas nos melhores coroas da cidade!).Mas me faz entender que muita coisa poderia ter sido diferente…

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