>Carta da Amante (Publicado em 30/10/2007)

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“Ricardo, querido.
Faz pouco você estava aqui em casa e eu já encontro coisas para dizer-lhe.Pois é.
Hoje eu percebi que precisava ser rápida, que é necessário falar um pouco sobre a sua proposta.
Nos últimos tempos você tem sido quase tudo na minha vida. Mas esse ‘quase’ faz muita diferença.Quando dois amantes se encontram depois dos quarenta, as coisas são diferentes. Algumas são definitivas, outras, nem tanto.
Sei que, no início, cobrei muito que você assumisse a sua ‘quase separação’ da Luiza. Nossas vidas são regidas por quase, mais ou menos, assim assim…
O tempo me fez aceitar e, sem trocadilhos, ‘quase’ agradecer que vocês permanecessem casados, apesar de mim.
De repente, depois de três anos de ‘quase termos assumido nosso caso’, você me participa que ela pediu a separação e que você vem morar comigo…Emudeci. E você, claro, achou que era alegria.Não, Ricardo, não era nada além da surpresa.
Nesses anos, fui me acostumando a não ter você nos finais de semana e ‘ter que’ preencher meu tempo; como você me estimulava a fazer para não perturbá-lo choramingando saudades, num celular que raramente atendia.
Tornou-se um hábito poder sair, encontrar amigos e jogar conversa fora, certa de que você não teria um ataque de ciúmes.Aprendi a gostar da cama vazia e da exclusividade do controle remoto depois que você saia, apressado, inventando desculpas para uma Luiza desconfiada e perigosa.
Cheguei a invejar a perfeição com que ela tratava suas roupas, mesmo sabendo (ela sempre soube, Ricardo!) que você as usava com ‘a outra’. Para ser franca, eu jamais passaria uma camisa sua, mesmo que você fosse o homem mais fiel do pedaço; coisa que nunca foi com sua esposa, porque seria comigo?
Eu reclamei de alguns hábitos seus e você me disse que ela convivia com isso numa boa.
Daí passei a imaginar se ela não seria a esposa ideal para você? A esposa ideal para um amante bem tratado…Cruel? Cínico? O mundo é assim.
Eu não suportaria o tsunami que o acompanha a cada banho, toalhas jogadas num canto e cuecas que você imagina possuírem um dispositivo de auto lavagem, se amontoando no cesto.
Aa sonecas que você tira no sofá, sem camisa…querido, só no sofá dela. Costas suadas ficam bem à borda da piscina e olhe lá.
Falando em piscina, eu não sou exatamente o tipo que prepara tira-gostos e vai apanhar a cerveja, o jornal, o telefone, o Engov…Não tive marido que me deixasse esses cacoetes, eu era a amante, lembra?
Não sei porque lembrei da nossa última discussão quando você me disse que sua ‘esposa’ seria incapaz de traí-lo, numa referência clara ao fato de ter iniciado nosso relacionamento quando ainda era comprometida.
Sabe, você deixou claro que ela era o tipo ‘esposa’ e eu…Bem, eu era a sua…Ah, deixa pra lá, pelo menos eu não tenho que suportar seu mau humor de domingo.
A ‘questã’, como diz a sua senhora, é que eu levei isso à sério.
Talvez explique minha mudez nervosa quando você, senhor de si e pretensamente de mim, informou-me que passaria a ser a sua cara-metade assim que ela o colocasse fora de casa – dessa vez definitivamente.
Eu o amo demais, só não mais do que a mim mesma e isso é mais um ‘quase’ nessa nossa quase história de amor.
Prefiro ficar só, livre para passear; dormir os finais de semana inteiros é preferível a ter a companhia do Júnior, querendo montar aeromodelos na minha mesa de jantar, circulando com dedos sujos de chocolate.
Não quero ser sua mulher, você não faz meu tipo de marido, lamento. E eu, Ricardo, não sou o seu modelo de esposa, pode acreditar. Jamais concordaria que você desaparecesse de segunda a sexta, numa academia que ninguém sabe, ninguém viu.
Logo no começo, eu teria topado e estaria uma craque no suflê de queijo.
Quero muito continuar nossa relação, mas do jeito que está, um ‘quase’ casamento.
Lamento que ela tenha tomado a decisão que você adiou tanto.
Mas você é um homem forte e vai conseguir arrumar um cantinho pra chamar de seu.
Ou quase. O meu…é só meu, anjo.
Finalmente, meu amor, não se culpe tanto por tudo isso.
A ‘depressão’ que levou a Luiza a optar pela separação, chama-se João, é colega de faculdade e quase da idade dela. Quase.
Aliás, ele estava naquela excursão, quando ela foi para BH e a gente ‘quase’ decidiu assumir e morar junto, lembra? Mas acho que você, iluminado como sempre, preferiu esperar mais um tempo.
Bom, isso não importa. Na segunda, te espero como sempre, depois do trabalho.
Um beijo no seu coração,
Nádia.”

Imagem:René Magritte-OS AMANTES,
Desde que Magritte pintou os amantes, estes como por magia deixaram de ter rosto. Nos jardins, nos cinemas, no bulício das ruas é frequente ver agora homens e mulheres sem rosto, abraçados.Todavia, tudo não passa dum equívoco. Sem dinheiro para pagar aos modelos Magritte optou por cobrir com um lençol o rosto inacabado dos amantes.

COMENTÁRIOS ORIGINAIS:
Edyr Augusto disse…
Muito bom. Na medida.
Abs

Carmen (sem filtro) disse…
A-do-rei!

>ma oração desesperada

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São três e meia da madrugada. A segunda-feira já chegou e me encontrou insone, coração angustiado. Devo-lhes um pedido de desculpas por esse texto tão ruim, essa promessa de sorrisos que não sei onde encontrar; hoje não.Não há graça nesse restinho de noite arrastada, no galo sem relógio do quintal ao lado; não consigo escrever, nenhum assunto me anima, sequer tenho vontade de retocar uma página parida num momento de alegria.Meu pensamento voa e se aninha na aura de Isabela. Ela me cala, me deixa sem fala e sem pauta. Isabela é cada criança que vemos passar, cada sorriso que espreitamos nessas rotinas que nos consomem; um menino que corre entre as cadeiras, a menina desdentada e faceira, contando sua última arte. Quem consegue esquecê-la, mesmo quando se quer brindar mais um bom dia? Quem não pede a Deus que se descubra um louco; ou dois, qualquer um que não seja o pai ou a tia Carol?Todas as coisas dessa nossa vidinha sem importância assumem a verdadeira dimensão – valem pouco, quase nada. Descobrimos que perdemos muito tempo com banalidades e mesquinharias e não enxergamos outros dramas que se desenrolam ao lado, sem TV, sem impacto.Nossas pequenas invejas e vinganças, implicâncias mal disfarçadas e perseguições – é o colega que incomoda nem sei bem a razão, o amigo que está mais feliz que o suportável, aquela que ‘se acha’…Ou os filhos da ex, que insistem em acompanhar (e atrapalhar) nossos finais de semana.Quantas vezes nos deixamos dominar pelo ciúme que envenena e descontamos nos pequenos que sobraram das uniões desfeitas ? Ah, não me diga que nunca viu algo assim.O mais aterrador é que essa família poderia estar na porta em frente. Ou no quarto ao lado. Poderia ser eu, ou você.Isabela pode ser a encarnação desses filhos de casamentos mal acabados, da paternidade vivida como obrigação – ou vingança – com hora marcada. Vítimas do desamor, do ciúme descabido, do desentendimento e, principalmente, da distância das coisas de Deus e da família.Crianças que a gente até finge que não existem, agredidas por gestos e palavras; ah, a palavra, essa arma tão perigosa…Sempre acreditei que é na separação que o casal precisa se entender, realmente. Alguém disse que certos divórcios são civilizados demais. Não, nunca é demais entendimento, conversa, respeito sincero que estabeleça uma aliança que há de cercar os filhos, esses de quem nunca nos divorciamos- apesar da distância e das novas famílias que se formam.Estar com alguém que já tem filhos exige uma dose enorme de compreensão, tolerância, desapego e muito amor. Isso não é para qualquer um.Não tenha filhos com quem não sabe amar os que você já tem. Não os leve para perto de quem não quer abrir o coração para que todos convivam em paz. Não existe a menor possibilidade de harmonia.Eu, que achava já ter vivido e visto o bastante, quedo-me, sem entendimento e sem respostas.O tempo nos fará esquecer Isabela; nossas crianças, essas, permanecerão. Que Deus as proteja de nossa imperfeição.Livra-nos, Meu Deus, dessa fúria insana, desse desamor que nos transforma em seres sem par. Não nos permite perder a capacidade de chorar, de temer, de amar, de perdoar. De respeitar e calar antes de proferir a agressão.Dá-nos um momento de lucidez quando tudo perder o sentido e o mal nos privar da razão.Enche nossos olhos de lágrimas e faz-nos tremer as pernas diante do terror, que não tenhamos frieza para mais um passo. (veracascaes@gmail.com)
Postado por Vera Cascaes às 14:46
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2 comentários:
PD disse…
Tudo triste demais, não é?
1 de Maio de 2008 17:53
Tatiana Brandão disse…
Amiga deixei um meme para vc no meu bloger olhe lá http://baboseirascom.blogspot.com/

>A Rosa Inglesa

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Trinta e um de agosto de 97.
Nem parece que faz tanto tempo assim, mas lembro da tristeza daquela noite.Fãs de Rodolfo Valentino e Elvis devem ter sofrido assim, também.Se você não teve ídolo, que pena. Eu tive!Desde o primeiro dia em que a vi, uma criança ao colo e a saia translúcida; simpatizei com aquele olhar. Olhos tristes, pedindo afago.Quando ela casou, em 81, faltei à aula na USP, tranquei-me, enroscada no sofá, curtindo o frio de julho, olhos colados na TV em preto-e-branco que me fazia sonhar colorido.Era estudante, a espera de um conto de fadas. Eu e quase todas as jovens daqueles loucos anos 80, cuja melhor imagem foi dela.Rebelde nos elegantes cabelos curtinhos, quando o que se esperava cachos dourados. Mas não ela! Diana era a nossa Barbie, em carne e osso, linda, loura, alta, magra, simpática e triste…Exatamente como a gente imaginava que seria uma princesa.No fundo, todas nós sofremos, quando ela deu sinais que o castelo não era tão encantador, assim.Compreendemos quando passou a buscar um amor, ou melhor, quem a amasse. Como havia sonhado, quando era a menina que conheceu o sisudo pretendente da irmã mais velha. A vida tem dessas coisas, até com altezas. Poderia ter sido diferente, se o príncipe de trinta anos não tivesse se encantado pela alegria, jovialidade e graça da lourinha de dezessete. Os mesmos motivos que o afastaram dela, já sua esposa. Ah, homens são assim, mesmo majestades.
E alegria não cai bem em alguns casamentos, fazer o quê?
Não havia revista onde eu não a procurasse.Copiei cabelos e modelos, achava o máximo que o planeta tivesse um conto de fadas, uma princesa, com alma, faces, porte e atitude de princesa. Quanta tristeza havia naquele semblante, quantos desamores, quanta vontade de encontrar a pedra filosofal que transformasse qualquer pequena coisa do seu dia , no ouro que é ter um amor grande e correspondido…No meio do sono que vinha, mas não vinha, acordei com a vinheta de edição extraordinária.Passei algum tempo paralisada.Não poderia ser verdade.Ela era bonita demais, boa demais, solidária demais, triste demais, princesa demais, para ter morrido. Pessoas assim não morrem, pensei.E pela primeira vez eu tive medo da morte, pois vive cometendo enganos. Sufoquei o rosto num travesseiro e chorei .Tive vergonha daquela tristeza, que bobagem derramar lágrimas por uma desconhecida que jamais, em tempo algum, eu poderia conhecer…Não precisei disfarçar da minha filha, os olhos inchados. Desde aquele primeiro de maio de 94, ela sabia o que é perder um ídolo. Da mesma forma que eu a confortei, sem saber o que dizer da partida de Ayrton Senna, ela apenas me abraçou, batendo de leve as mãozinhas nas minhas costas. E então, orei por ela, pela nossa princesa.Tantos anos depois sei que chorei por ter descoberto que fadas e princesas não existem mais.E que sonhos são assim, miragens que o vento apaga, como uma chama.Na gaveta, num recorte de revista, Ela resplandece, o sorriso alvo, naquele espetacular vestido de veludo azul.Não me importa que você ache bobagem, todo mundo guarda a mais linda boneca e o melhor dos sonhos para sempre. (veracascaes@gmail.com)
Postado por Vera Cascaes às 01:22 1 comentários

>Depilação do Machão

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Depilação (versão masculina)

Estava eu assistindo tv numa tarde de domingo, (naquele horário em que nãose pode inventar nada o que fazer, pois no outro dia é segunda-feira) quandominha mulher deitou ao meu lado e ficou brincando com minhas “partes”. Após alguns minutos ela veio com a “brilhante” idéia:- Por que não depilamos seus ovinhos, assim eu poderia fazer “outras coisas”com eles.
Aquela frase foi como um sino na minha cabeça. Por alguns segundos fiquei imaginando o que seriam “outras coisas”. Respondi que não, que doeria coisa e tal, mas ela veio com argumentos sobre as novas técnicas de depilação e eu, imaginando as “outras coisas”, não tive mais como negar. Concordei.
Ela me pediu que ficasse pelado enquanto buscaria os equipamentos necessários.
Fiquei olhando para TV, porém minha mente só tinha um foco: ‘outras coisas’. Despertei com o beep do microondas e imaginei que ela, boazinha, ainda traria um nescafé.
Ela voltou ao quarto com um pote de cêra, uma espátula e alguns pedaços deplástico. Achei meio estranho aqueles equipamentos, mas ela estava com um ar de “dona da situação” que deixaria qualquer médico urologista sentindo-se um mero residente.
Fiquei tranqüilo e autorizei o restante do processo. Pediu para que eu ficasse numa posição de quase-frango-assado e liberasse o acesso à zona do agrião.Pegou meus ovinhos como quem pega duas bolinhas de porcelana e começou apassar cêra morna. Achei aquela sensação maravilhosa!! As ‘outras coisas’ deveriam ser in-crí-veis!
O Sr. Pinto já estava todo “pimpão” como quem diz: “sou o próximo da fila”!!Pelo início, fiquei imaginando quais seriam as “outras coisas ” que viriam e ela nem notava o estado do Pimpão!Após estarem completamente besuntados de cêra, minha senhora embrulhou ambos no plástico com tanto cuidado que eu achei que ia levá-los para viagem. Fiquei imaginando onde ela teria aprendido essa técnica de prazer: Na Thailândia, na China ou pela Internet mesmo?
Porém, alguns segundos depois ela esticou o meu saquinho para um lado e deu
um puxão repentino.Todas as novas sensações foram trocadas por um sonoro PUUUUTA QUEEEE PARIUUUUUUU, quase falado letra por letra. Um ardor se espalhava onde antes havia um pinto e dois ovos. Olhei para o plástico para ver se o couro do meu saco não tinha ficado grudado.Ela disse que ainda restavam alguns pelinhos, e que precisava passar de novo.Respondi prontamente: NEMMMMMMMMM FODENNNNNNDO!
– Se depender de mim eles vão ficar aí para a eternidade!!
Segurei o Dr. Esquerdo e o Dr. Direito com as duas mãos, como quem segura os últimos ovos da mais bela ave amazônica em extinção, e fui para o banheiro. Sentia o coração bater nos ovos. Abri o chuveiro e foi a primeira vez que eu molhei o saco antes de molhar a cabeça.
Passei alguns minutos só deixando a água gelada escorrer pelo meu corpo frágil, as pernas trêmulas.
Saí do banho, mas nesses momentos de dor qualquer homem vira um bebezinhonovo: faz merda atrás de merda.
Peguei meu gel pós-barba com camomila que “acalma a pele”, enchi as mãos e passei nos ovos. Foi como se tivesse passado molho de pimenta.Sentei no bidê na posição de “lavar xereca” e deixei o chuveirinho acalmar os Drs, peguei a toalha de rosto e fiquei abanando os ovos como quem abana um boxeador no 10° round.
Olhei para meu pinto. Ele, coitado, tão alegrinho minutos atrás, estava tão pequeno que mais parecia irmão gêmeo do meu umbigo. Nesse momento minha mulher bateu à porta do banheiro e perguntou se estavapassando bem. Aquela voz antes tão aveludada e sedutora me pareceu uma gralha.
Saí do banheiro e voltei para o quarto. Ela estava argumentado que os pentelhos tinham saído pelas raízes, que demorariam voltar a nascer. E AINDA VÃO NASCER DE NOVO????
-Esquece, sua tarada! Isso aqui agora é terra arrasada, é como chernobill, não nasce mais nem que use ginkobiloba dez anos!
Ela riu. A F de uma P, ainda riu…
-Seu bôbo! Claro que nasce. Ou você acha que a minha fica maciazinha, gostosinha, como? Eu depilo a cada 20 dias…
Meu queixo caiu. Vinte dias? Essa tortura a cada vinte dias e ela ri? Realmente as mulheres são seres superiores…-Pela espessura da pele do meu saco, aqui não nasce nem penugem, meus ovos vão ficar que nem os das codornas, respondi. Ela pediu para olhar como estavam. Eu falei para olhar a meio metro de distância, sem tocar em nada… e se ficar rindo VAI ENTRAR NA PORRAAAADA!!
Vesti a camiseta e fui dormir (somente de camiseta). Naquele momento sexopara mim nem para perpetuar a espécie humana ou para dar um créu na Juliana Paes, meu sonho secreto. Estava morto e humilhado.

No outro dia pela manhã fui me arrumar para ir trabalhar. Os ovos estavam mais calmos, porém mais vermelhos que tomates maduros. Foi estranho sentiro vento bater em lugares nunca antes visitados. E o roçar do tecido era…interessante.
-Eu, heim…Deve ser por isso que os viados se depilam…Tô fora, maluco!
Tentei colocar a cueca, mas nada feito. Procurei alguma cueca de veludo, (existe?) e nada. Vesti a calça mais folgada que achei no armário e fui trabalhar sem cueca mesmo, morrendo de remorso cada vez que eles roçavam nos fundilhos e eu já me animava.
Entrei na minha seção andando igual um cowboy cagado.
Falei bom dia para todos, mas sem olhar nos olhos. E passei o dia inteiro trabalhando em pé com receio de encostar os tomates maduros em qualquer superfície.
Resultado, certas coisas devem ser feitas somente pelas mulheres. Ou por gays que são mais corajosos que nós. Não adianta tentar misturar os universos masculino e feminino sem ter tutano.(Ainda dói!)

(R. Dias e Vera Cascaes)

>Como Florbela

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De amores, mentiras e outras tragédias.
Senta-se sobre as pernas cruzadas, como se buda fosse e olha a janela escancarada. A folha permanece em branco, avisa o monitor igualmente sem cor.
Desatina-se.Queria que lhe baixasse um espírito desesperado, inquieto e apaixonado.
Que Florbela Espanca lhe soprasse nos ouvidos versos enlouquecidos, que contasse a sua versão daquela morte, comprimidos não têm graça; um mergulho suicida no mar revolto teria um pouco mais de glamour , se é que na morte se pode pensar nisso.
Florbela. Sua inspiração recorrente, a mais notável das bipolares, aquela que vivia afirmando-se e negando-se a cada linha. Um Dom Juan de saias, um narciso inveterado que nunca encontrou assunto que não nascesse no próprio umbigo e não fosse embriagante.
Ela jamais seria a sombra de Florbela. No máximo, um plágio num blog qualquer, que essas
coisas de Internet tiram o charme de qualquer poeta, não importa quanto fosse impactante fundo musical e ilustração. Espanca nunca precisou de efeitos especiais.Era carne e sangue, moderna, lírica e sensual.
Quem sabe sentisse melhor as palavras num caderno, escritas a pena, borradas pelas lágrimas paridas a fórceps, às custas da mais triste das músicas atormentando-lhe os neurônios.Isso não é inspiração, mulher!, recriminava-se, piorando as coisas.
Não se faz boa poesia na alegria, repetia, da mesma forma que paixão acaba em solidão e amor, em dor. Não existe romance sem sofrimento e pronto!
Um longo texto alinhavando as torturas do casamento…Logo ela, que se casara quatro vezes, que ironia. Onde estavam as pílulas? O anti-depressivo que a tornaria um pouco menos absurda, mais próxima da normalidade e que a deixaria sem cor e sem graça, menos diferente, o tanto quanto fosse suportável.O sucesso pertence aos iguais.
Precisava dormir ou enlouqueceria mais ainda com aquela tela vazia e minutos passando, ditando a sentença que a faria pular do trampolim: não há mais tempo!
Prazos, quem inventou os prazos, a física quântica e outras ficções a respeito do tempo? Alguém que não amava, que nunca vivera essa paixão de dar nó nas tripas, essa vontade de gritar me bate, mas me ama, me ama. Me deixa, mas antes, me arrasta e me mostra como vou morrer de saudade, como vou esquecer de mim sem jamais esquecer da tua pele, das tuas mãos me apertando, do vazio que sinto onde deverias morar, nesse amor que é lago, lagoa onde nadas e mergulhas feito Posseidon.
Decididamente, ela não conseguiria escrever mais nada, perderia o emprego e o vício!
Os prazos. O que faço com eles se não consigo pensar em mais nada e tua ausência me sufoca?
Bem feito! Foram tantos conselhos, vai para a editoria de moda é muito mais fácil, ninguém entende nada mesmo e as especialistas, ah, algumas andam com aquele negócio mofado que ainda chamam de tailleur, com florzinha na lapela e modernidade regada a naftalina. Mas não, tinha que escolher o caderno literário com uma página in-tei-ra só para ela. Dez mil toques. Onde está o trampolim?
“Eu quero amar, amar perdidamente !Amar só por amar: Aqui … além…Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente …Amar ! Amar! E não amar ninguém !(…)
Quem disser que se pode amar alguémDurante a vida inteira é porque mente!”*
Quase sente o clima de Matosinhos, por onde andou a poeta, até aquele aniversário- o derradeiro- em 1930. Quantas vezes já havia programado essa viagem além mar, onde haveria de ver as terras e coisas de Pessoa, de Florbela – sempre ela- do Alentejo de outros amores, da Caparica cada vez mais distante…
Era hora de sair do computador buscar um pouco de ar, de verdade.De nem lembrar quantas vezes se indignou com quem pensa que “navegar é preciso” como se necessário o fosse…
Precisão. Ah, a matéria que não sai, a redação está quase vazia!
Quem sabe pudesse esquecer tudo e beijar a terrinha como um João Paulo nada santo, um afago, um sorriso e… cheguei!, Se navegar é cartesiano, viver…ah viver é comigo!
Sem pílulas nem mar para mergulhar, só resta a vida real. Agora só resta Portugal.

* Soneto de Florbela Espanca (Texto : Vera Cascaes)