>Meu vestido inesquecível

>

Naquelas ocasiões que realmente marcam a vida da gente, eu não estive exatamente bem vestida; pelo menos não como tinha imaginado. Mesmo assim, minha natureza um tanto Pollyana (aquela menina chata que sempre acha um lado bom, em qualquer tragédia), me permitiu curtir, como se estivesse chiquérrima. Depois, enterrei as fotos para esquecer os modelitos e uma certa frustração, enfim.
E já nem lembrava daquele vestidinho curto, que aos olhos alheios nada tinha de especial; mas que, ao recordar, me encheu a alma de emoção. A memória afetiva tem desses caprichos; deixa tudo num lugarzinho seguro para, sem mais nem menos, lançar seus foguetes luminosos sobre uma noite de insônia e inferno astral.
Num desses seriados de adolescentes americanos que passam durante a madrugada, a mocinha usava estampa de morangos esparsos sobre fundo azul. De repente, era década de 70 e eu, uma menina metida à mulher, toda “se achando”.
Nessa época, meu pai ‘estava’ prefeito e, ao contrário da maioria, para nossa família essa era uma boa razão para as comemorações serem mais discretas ainda, discretíssimas; quase um sussurro. Isso era um martírio, de discreta nunca tive nada e flash era tudo de bom. Fui informada das comemorações aos meus quinze anos: missa em ação de graças e, no domingo seguinte, uma fei-jo-a-da! (E eu, sonhando com boate, My Sweet Lord e Only You…, que coisa!) Daí seis meses, debutaria na Assembléia Paraense -alguma coisa tradicional haveria de viver, mesmo que me soasse estranho…
Mas que adolescente quer festejar qualquer coisa, comendo feijão com amigos dos pais e meia dúzia de meninos magricelas? Pois é. Meu traje festivo seria quimono sobre o biquíni, que pelo menos podia usar com certo orgulho, amém.
Mas foi na missa, sob o olhar do Cônego Ápio Campos, que aconteceu a redenção. Do figurino, bem entendido. Meu vestido inesquecível tinha um sóbrio azul marinho, com saia curtinha bordada com pés de morangos floridos, aqui e ali. Rebelde com ou sem causa, eu exultava por não estar de branco ou rosa, ufa!
O modelo, minha mãe achou numa revista; como era a parte mais especial do evento, dedicou-se com delicioso afinco para que saísse exatamente igual. Confesso que nem era uma coisa do outro mundo, mas hoje sei exatamente o que o fez permanecer, para sempre.
Eu simplesmente adorava estar sendo cuidada, paparicada pela minha mãe, que me levava até a casa da D. Isolda Maués para três ou quatro provas e imaginava mais isso e aquilo. E no final, nem sei como conseguiram materializar um buquezinho, igual às estampas, para enfeitar o ombro.
Eu era do tipo despachada, escolhia roupas e, mais adulta, foi pelas mãos da saudosa tia Carmélia – uma das modistas mais respeitadas da terra – que “me achei” de verdade e me vinguei das fotos que mereceram retoques. Aos quinze, ainda bancava “a tal”; mas esqueci a rebeldia e tratei de aproveitar o “colo” que veio a reboque do vestido, tem coisa melhor?
A missa, a feijoada -que foi ótima- o poster do Studio Oliveira, a foto no Isaac; na minha memória, essa foi uma época de total felicidade, absolutamente perfeita. Irretocável.
Sem aquela humildade que a educação judaico-cristã tentou me incutir -em vão- garanto que, além de felizes, éramos uma troupe linda de viver!
Quando essas recordações me tomaram, fui até o velho álbum. Meus pais, que sempre foram discretos, faziam um belíssimo par, que as pessoas paravam para admirar. (Disseram-me que a Carminho era “a cara” da Jackie Kennedy. Bobagem…Sempre foi mais bonita! E o papai era, como se dizia, um p-ã-o!) Eu e minha irmã, de nariz perfeito e maravilhosos olhos cinza-azul-esverdeados (até hoje, poucos sabem exatamente a cor dos olhos da Márcia) aparecemos sorridentes e felizes, num dos bancos da capelinha de Santo Antonio de Lisboa. Eu nem tentei disfarçar a enorme satisfação, dentro do meu melhor vestido, no meu momento mais que inesquecível. Há exatos 37 anos. Tim tim!

Anúncios

>Rascunhos de viagem: Uma aldeia!

>

Ahf… Acho que hoje estou pior que “bege”, me vejo cinza, alguma coisa tipo aquele ‘off-white’ que foi moda uns anos atrás e ninguém assumia que era apenas um branco que já vinha sujo ‘de fábrica’.
Tô assim sem ânimo, com vontade de me deixar num canto qualquer, quase sem luz mas com ar condicionado, claro, que tudo tem limite, inclusive minhas depressões.
(Aliás, sou tão pouco confiável que nem com clima deprê, musiquinha baixo-astral e más recordações, consigo ficar ‘down’ por mais do que duas ou três horas, que coisa! Sabe quando a gente está querendo dar uma boa chorada, pegar um colo e se sentir a mais frágil das pessoinhas? Pois é, comigo não tem chance, logo estou rindo de alguma bobagem, credo!)
Hoje estou, como diria uma amiga, ‘de bode’. Queria ter vontade de escrever sobre a viagem, mas bolas, sempre achei um saco ter que aturar alguém matracando sobre suas pequenas e grandes epopéias, sem saber se outro está a fim de ver aqueles álbuns cheios de fotos mal tiradas. Depois, tem aquele papo de ‘querer aparecer’; se bem que, se tratando da gente que bate ponto aqui uma vez na semana, é uma grande bobagem, não é mesmo? Para aparecer mais só colocando aquilo na janela do fusca e isso, garanto, é coisa do passado.
(Falando em ‘aparecer’, um conhecido me disse que ando ‘sumida’, como se eu tivesse assim, meio ‘finda’, sabe como? Tadinho, nem jornal lê, que situação!)
Mas vamos a crônica que parece aumento de salário, quando a pensa que sai…
Ah, lembrei de algo interessante.

Se você pretende dirigir em outro país, a primeira providência é procurar o Detran para tirar a PID – Permissão Internacional para Dirigir. Trata-se de um documento com as informações do condutor em vários idiomas, o que facilita a comunicação com autoridades estrangeiras. Para se interar das peculiaridades de cada país, existem muitos sites, o http://www.moraremportugal.blogspot.com/ tira dúvidas e dá dicas bem ao gosto dos brasileiros que vão à terrinha pela primeira vez.
Confesso que se tivesse tido esses cuidados, teria evitado alguma aflição, mas no fim, deu tudo certo como haveria de dar.
Conhecer Portugal (e Espanha) de carro é a melhor opção para quem quer ver mais do que aqueles cartões postais manjados. E foi a nossa opção. No Porto, depois de uns dias maravilhosos, alugamos um carro e seguimos para Santiago de Compostela, apenas com um mapa e muita alegria. Existe uma enorme diferença de preços entre as locadoras mais famosas e aquelas pequenas e confiáveis, que só o pessoal do hotel pode recomendar. Conseguimos um carro pequeno com GPS por quarenta e cinco euros ao dia, metade do que nos cobravam. Verifique até onde o GPS está habilitado, o nosso não estava credenciado para a Espanha e perdemos tempo, “procurando o caminho”. No mais, é covardia; com o aparelhinho o mundo vira uma aldeia.
Nenhum destino em Portugal pode deixar de incluir todos os ‘sitios’ maravilhosos que estão no caminho. Não perca a oportunidade de dar um passeio nas cidades de nomes familiares ou exóticos que vão aparecendo, afinal, é tudo tão pertinho que logo a gente se sente dono da situação. E vale a pena, pode crer.
Não esqueça que a “portagem” em Portugal é diferente: num posto você retira o tíquete e no outro paga pelos dois pedágios. Se deixar de apresentar o cartão da portagem anterior, pagará dez vezes o valor do pedágio, algo entre cinqüenta e cem euros! Íntimas das ‘autovias’, resolvemos esticar por Aveiro e região; e depois até Lisboa, sãs, salvas e eufóricas!
À caminho de Aveiro, uma placa nos avisou que passávamos por Estarreja e Canelas, onde meu pai nasceu. Mamãe vibrou. Sem paciência para esperar até o dia seguinte quando voltaríamos para visitas familiares, insistia que seria fácil achar a casa das tias apesar do endereço estar numa agenda, trancada no bagageiro. Com o carro tomado por nossa numerosa bagagem, ela praticamente só tinha espaço para entrar e sair. Abrir malas estava fora de questão. Mas a Maria do Carmo não desistia. “É fácil, eu lembro…”. Numa ruazinha, avistamos a imagem típica da portuguesa do campo, coberta de negro, cajado e foice, sacola com verduras e legumes, vinda da roça. Sem graça, apenas para satisfazer a vontade da mamãe, tentamos saber alguma coisa, explicando que vínhamos do Brasil e já pedindo desculpas por perguntar se conhecia Regina Cascaes. Ela levantou o rosto, olhou a Márcia fixamente e respondeu com outra pergunta: “A mãe ou a filha?”. Quase surtei, o mundo realmente era uma aldeia! Não só conhecia como nos deu o endereço. O GPS, claro, fez o resto.
Encontramos as Reginas, mãe e filha, e uma parte da nossa história. O tio Antonio, de enorme semelhança física com meu pai, tias e primas que nunca tinha visto mas que nos tratavam como velhas conhecidas, citando nomes e fatos como se soubéssemos de tudo; o enorme quintal onde papai havia caminhado um dia, tudo era emoção.
Na casa onde minha avó morou e criou os filhos miúdos; a mesma escada, o mesmo piso do lagar que hoje é uma saleta…Em cada canto podia ouvir a algazarra e os ruídos que me contavam minha própria história, como se Portugal estivesse todo o tempo nas minhas memórias mais recônditas. E tudo era apenas reencontro, como se eu achasse ‘o fio da minha meada’.