Conto de Fadosas – as madrinhas das gatosas

Conto de Fadosas (madrinhas de gatosas)

Paixões são sempre assim, ensandecidas e deliciosas; por que haveria de ser diferente com ela?

Estava chegando àquela fase em que tudo na vida é conforto – amores, inclusive. Faltava pouco para aposentar-se – o que faria das oito às dezoito, depois de trinta e cinco anos? – as roupas eram macias e os programas passeavam entre teatro, cinema, shopping e restaurantes. (Muitos restaurantes, aliás.) E, claro, o primeiro e único neto, capaz de fazê-la voar até a Disney duas vezes em menos de dois anos. Os sessenta chegavam e ela vivia essa felicidade feita de liganete e calçados Usaflex: nada de imprevistos, nenhum frio no estômago; uma rotina confortável e quase santa. Quase.

Quem respira ainda não está morto e nossa amiga estava vivíssima algumas camadas abaixo dos tailleurs maravilhosos que traficava de Miami e que a faziam parecer uma elegante jovem senhora – deixando uma possibilidade remota de… Ah, isso ela nem comentava, mas era uma tentação.

Naquela temporada muita coisa mudou, aliás, o mais importante é que havia sido “colocada à disposição”, essa expressão horrorosa que significava mudanças e incertezas, justamente quando tudo estava em seu lugar, previsível e… Chato. Renovou o guarda roupa, passou uns dias no Leblon (viu João Carlos? Le-blon!) onde adquiriu um bronzeado maravilhoso e abandonou o Chanel retão e ultrapassado. Nenhuma mulher deveria morrer sem experimentar ser loura, pensou… Sol é assim, tosta a pele e os miolos, faz com que a gente se sinta mais jovem… E capaz. Capaz de ousar cabelos curtos, um louro quase “Leona”, unhas dos pés esmaltas em azul pavão, uma pequena estrela tatuada no pulso, um chope no Zazá e… Suprema ousadia: sentir-se viva e querendo mais. Mas essa revolução tinha lá uma razão nada romântica, acondicionada em sachets que deveria passar sobre a pele, todos os dias. Quem conhece, sabe; hormônios e sol, uau!  Se as mulheres soubessem o poder que emanam quando “se sentem”, menos solitárias passariam as noites acompanhando aquele “reality” que envergonha qualquer um. Uma pena que poucas saibam que as poderosas convictas são sempre sedutoras.

Nossa amiga prestou atenção num antigo colega que a achava encantadora. Fazia tempo que não se falava em encantos e tudo era fugaz, bastava ficar. (O que lhe seria mais conveniente.)

Quando as conversas evoluíram e os toques eram mais que simples resvalar de dedos, ela se viu diante de uma situação que seu senso absurdamente crítico não perdoaria: Como? Como aparecer sem as vestes sobrepostas, sem o colant segurando-lhe as carnes abundantes? Como ser, sob luzes inesperadas, aquela  que ela só via de olhos bem fechados?

Já tinha ouvido falar no vidro que mostrava o banho como atração extra, no tamanho de toalhas que nada escondiam e espelhos que haveriam de mostrar-lhe (e ao seu “ficante”) aquilo que não queria ver – quanto mais exibir…

Foram dias e noites de angústia e o frio no estômago deu lugar ao calor que a fazia suar, cada vez que pensava que ele, o tal, aguardava uma resposta, uma data, um lugar.

Fantasias são maravilhosas, desde que não se tente realizá-las. Guardou os sachets, esqueceu-se do sol e decidiu que tudo não passava de delírio. Seu encontro maravilhoso e perfeito – sob iluminação adequada, com o figurino ideal e névoas de filme francês – habitariam apenas os sonhos. As Pontes de Madisson eram ficção e na vida real, ela ainda iria trabalhar todos os dias durante anos, até que aposentaria o trabalho e os tailleurs, para usar seus feiosos conjuntinhos e sapatos confortáveis, sem lembrar que no fundo – bem no fundo- uma outra, sedutora, dormitava a modorra da alma… Até quando?

 

As Gatosas vão voltar!

Em primeira mão, o novo cartaz:
 

Eis as Gatosas/2011: Olinda Charone (Bia), Sônia Alão (Pat), Vânia Castro (Marina) e Sandra Perlim (Beta). Tudo novo no Cuíra! Não percam!

 

Esse era o elenco do ano passado; só sadade. Bem vinda, Vânia!

Pois é, como muita gente ficou pedindo (eu fico metidaaaaaaa!) “As Gatosas” a peça que tive a honra de escrever com o Edyr Augusto Proença no ano passado, vai voltar com texto revisto e ampliado e com a atriz Vânia de Castro no papel que me deu tanta felicidade em 2010. Bem vinda, Gatosa!

Alguns amigos me perguntaram a razão da minha saída do elenco. Eu explico: o convite dos amigos do Cuíra me possibilitou experimentar essa coisa indescritível que é estar no palco, juntinho da platéia, vivendo uma personagem com cada fibra do meu ser.

Consegui , segundo a opinião suspeita do grupo, “segurar” a Marina e levar a temporada com sucesso. Só quem já viveu isso sabe como é.

Mas desde o ano passado, todos nós já sabíamos que nessa temporada, eu tinha outros planos e outros compromissos, todos pessoais. Quando estive na primeira reunião de 2011, por pouco não tentei “abraçar o mundo com as mãos” e até fiz planos mirabolantes de dar conta de tudo.

Mas o bom senso falou mais alto – e caí na real.

Por dois dias “mastiguei” a difícil decisão de entregar a Marina a outra, que a recebesse com o mesmo amor. Estou fora, mas não distante.

No Cuíra encontrei bons amigos. A generosidade das grandes atrizes Sônia, Olinda e Sandra foi fundamental, tanto quando me ensinaram como atuar, quanto na hora desse “até mais, quem sabe?”

Ao Edyr, alma iluminada que cede brilho a quem tem a oportunidade de estar com ele, e à Zê, cuja dedicação só se compara ao talento e alto astral, minha gratidão.

Suely, Baety, Cleide, Roma…a cada um do Cuíra meu melhor abraço e votos de sucesso, sempre, sempre.

Não, isso aqui era uma crônica, um grito de “Helouuuuu? Olha quem voltou…”

Pára com a choradeira, Vera!

Então… A nova temporada do Cuíra (agora climatizado, viu, meu bem?) começa dia 29 de abril e os espetáculos vão acontecer sempre aos finais de semana. Assim que tiver o “serviço”passo para vocês. Quem tiver juízo deve ir até lá, para rir muito. Quem não tiver, pode ir com alguém que saiba o caminho de volta.

Depois não adianta chorar, dizer que tava de TPM (Tensão Pré Menopausa), que isso e aquilo. Deixa de frescura e vai, viu?

“As Gatosas”, de Vera Cascaes e Edyr Augusto Proença.

Direção: Edyr Augusto Proença                Produção Executiva: Zê Charone.                   

Sonoplastia e Dir. de Palco: Suely Brito.       Figurino: Ézia Neves.

Visagismo: Baety Magalhães.                         Assistente de Produção : Cleide Quadros.

Elenco: Olinda Charone, Sandra Perlim, Sônia Alão e Vânia Castro.