Os Manés

De uns tempos cá, muitos brasileiros estão ficando cada vez menos honestos e, de maneira sórdida, negam, inclusive para si mesmos, que sejam a versão “menos corrompida” daqueles que deveriam servir de bom exemplo.

Tanto é verdade, que quando alguém é correto em algum momento, o fato toma as manchetes. A exceção é fazer o que deveria ser feito, sempre… O gari que devolve 20 mil reais é um herói, já que sua pobreza “justificaria” nem procurar o dono, quanto mais devolver. Em suma, você pode ser “meio desonesto” de vez em quando, dependendo das circunstâncias. Ora, não conheço quem esteja assim, digamos, jogando dinheiro fora. E estes sim, quase sempre, são desonestos.

Nossas “autoridades” estão repletas de homens e mulheres que não têm vergonha de roubar, muito, sempre sob algum disfarce: favores, empréstimos e outras falcatruas. E quando são pegos, negam, por mais que gravações mostrem sua face mais desaforada, que chega a causar nojo em quem ainda tem algum traço de nobreza de caráter.

Os mais desprezíveis, deixam os comparsas responderem por tudo e dizem que são sabiam de nada. São os covardes. O Covarde.

Roubam e tentam convencer-nos que o faziam por conta da ideologia. Alto lá, cara pálida!

Muitos acabam pensando “se eles fazem, por que não eu?”

Hoje já não se encontra amiúde, quem devolva a diferença “a maior” de um troco qualquer – seja no ônibus, restaurante, em qualquer lugar. Afinal, já estão “nos roubando mesmo”, conclui o senso moral evidentemente entortado. E desonestidade “pega” feito cola de efeito multiplicador. Leva-se um século para educar, mas deseduca-se num piscar de olhos. Em oito anos, se é que me entende.

Recentemente, tive uma peça de roupa inutilizada num serviço de ajustes. Como a recebi embrulhada e só dei pelo mal feito dias depois, a recepcionista, para livrar-se da responsabilidade, me desafiou, com um acintoso “prove que isso aconteceu aqui”. Na verdade, se o alfaiate me pedisse desculpas e se dispusesse, ainda que só para “inglês ver” (e me enganar) a pagar a peça, eu teria agradecido, e pronto. Ser enganada é que me faz mal… Da mesma forma quando encomendei tira gostos para a família, cujo valor no cardápio referia-se a 45 unidades. Só vieram quarenta, mais uma quebrada. Tenho certeza que não foi equívoco e sim a displicência que quem tem esse cacoete detestável de levar vantagem, vive cometendo – no ramo de alimentação em especial. Partem do pressuposto que ninguém confere nada; então se colar, colou.

Esse tipo de gente é uma versão do (ex) construtor que virou assessor no interior (com “salário” risível) e ainda conseguiu nomear a mulher, na Alepa, “onde ela nem precisa trabalhar”, arrota, ao contar como consegue superfaturar as contas do novo amigo de infância. O prefeito no caso. Ele c-o-n-t-a! Comenta em restaurantes sem se preocupar se na mesa ao lado estaria uma “mané” (eu, no caso) e ainda se refere aos honestos como “aqueles idiotas”.

Essa onda de imoralidade exemplar vem lá do planalto quando sabidamente tivemos um presidente que vem sendo desmascarado como o pior tipo de corrupto: aquele, o covarde. O falso moralista defensor dos eternamente oprimidos trabalhadores brasileiros – que não mereciam isso.

O Brasil ainda não faz idéia do prejuízo ético que Lula nos causou e cujos efeitos ainda atingirão algumas gerações mal formadas.

Fico imaginando o que pensam hoje os jovens de camiseta e boina vermelha, que vendiam botons de estrela…

Diante dos últimos acontecimentos, creio em Deus e em Joaquim Barbosa que ainda haveremos de vê-lo no banco dos réus e, finamente, num gozo nacional, na cadeia. Aí sim, esse senhor haverá de lamentar nunca ter estudado.

Cana dura, não é exatamente uma caipirinha, Presidente. Oxalá perca inclusive, a prerrogativa do tratamento. Será justo, muito justo. Justíssimo.

>Lula e Sarney : respeitem os cidadãos comuns!

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Não entendi tanta comoção por conta de mais uma das declarações de Lula, como sempre bem ao ‘estilo Lula de ser’. O presidente foi sincero ao declarar que achava que Sarney não deveria ser tratado como um homem comum. Em respeito aos cidadãos comuns, sou obrigada a concordar com quem entende da matéria, já que na década de 1980, Lula rotulou Ribamar – o Sarney, de “grileiro do Maranhão” e ladrão. Isso mesmo, larápio. Quase trinta anos depois, ambos estão, digamos, numa categoria diferente.
No mais, quem não conhece alguém que se julga “melhor”, por causa um cargo público ou da situação sócio-econômica diferenciada ?
Atual vereadora de Maceió, a sempre destemperada Heloísa Helena, recentemente também foi vítima dessa mania de superioridade, atacando uma colega vereadora, aos gritos de “porca traidora”. Alguém consegue imaginar o escândalo, se a agredida fosse a insossa parlamentar?
Belém está “assim” de gente que pensa que pode tudo. O trânsito prova isso; a maioria se dá ‘mais direitos’ que o tal “cidadão comum”, coitado. “Se achar”, dar “carteirada”, não respeitar o próximo (e o não tão próximo), é cultural.
E Lula seria exceção, só por ter se tornado presidente? Evidente que não; mas como tal, deveria ser “politicamente correto”. Engana-se quem fica achando “isso e aquilo” quando falo no presidente. Lula não é um tema que me agrade, mas estou longe de ser uma “elitista” que não perdoa uma “pessoa simples que chegou ao poder” , como agressivamente me disse um leitor, esquecendo que, até prova em contrário, isso aqui é uma democracia, pelo menos por enquanto. Mancadas acontecem, o pior mesmo é a mentalidade torta, que uns podem ser “menos iguais” que outros, noção que infelizmente sobrevive e, ao que parece, do que depender de nós, ainda terá vida longa.
Não é a toa que me admiro ao encontrar certo deputado num supermercado do Marco, com lista na mão, empurrando carrinho, numa boa. É o mesmo que encontro no banco, esperando na fila exemplarmente, como os comuns. (E nessas ocasiões, ser ‘igual’, nos torna especiais.)
Deveria ser corriqueiro, mas não é; ser “parente de autoridade”, para a maioria, já é meio caminho andado para a arrogância, que sempre é burra. No quartel, dizem que quem pensa que manda mais que o General é a mulher do sargento.
Essas crises de “autoritarite” são habituais, desde a patroa que nem trabalha quando está menstruada, mas reclama se a empregada pede um mísero Atroveran. Ou o “playboyzinho” que enfia o pé no racha da Júlio Cezar e ameaça o policial com um batido “sabe quem é meu pai?”. A madame que estaciona em fila tripla na escola e a outra que leva um semestre para pagar a ‘continha’ da butique e quando é cobrada, acha um abuso! Acham-se acima dos outros, do bem e do mal, do moral, do lícito, e ainda querem tratamento diferenciado. Como Luis Inácio pretendeu para José Sarney, como os senadores exigem para si mesmos.
Antes que falem em Fernando Henrique, (não se pode falar no Lula sem que façam contraponto com FHC, que não tem nada a ver com a história…), não duvido que também ache que uns são ‘uns’ e outros… E daí? Se desejarmos uma realidade pouco menos caolha para nossos netos, precisamos repensar certos conceitos que acatamos pacificamente e repetimos, esquecidos de arejar as mentes que ajudamos a formar.
No quesito cidadania, ser “igual” não é ofensa e sim prerrogativa de quem é decente.
Quanto ao presidente, dessa vez acertou em cheio, apesar da gafe: pelo histórico, Sarney deveria ser tratado como infrator e não como cidadão comum!
Imagem: abril.com/veja.com