>Porque somos mulheres…Mea culpa

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O tempo passa e vasculho a vida com um novo olhar. Não existe nada velho ou mofado nessa espiada que envelhescentes lançam no próprio passado.
É interessante como cometemos os mesmos enganos em vez de aprender com erros alheios; precisamos das experiências equivocadas, dos nossos hematomas e algumas vítimas.
A juventude nos faz intolerantes. Quando iniciamos relacionamentos que desejamos duradouros, agregamos hobbyes, paixões, amigos e até cacoetes do amado.
Sem resistência adotamos a mesma pizza, música, e, até, aquele timinho de futebol. Com sogra, ninguém tem problema no começo, não sem já ter estabilidade no serviço.
Não é falta de personalidade, é apenas “modus operandi” feminino, querida. E é claro, nem todas agem assim. Só a maioria que pensa que, por ser jovem terá tempo de sobra para errar, enterrar grandes e pequenos amores e, quem sabe? Recomeçar e cometer as mesmas sandices. Pena. Hoje, tempo é tudo que eu queria ter de sobra. E não o perderia com erros tolos.
Não existe novidade nas histórias e crises amorosas. Só muda a música, no mais, o roteiro é o mesmo, desgastado e pouco interessante.
Só nós cometemos erros? Não, meu bem, mas hoje estaremos na berlinda, relaxe e aproveite, como diria a Marta.
Caso é que, depois daquela temporada de ‘somos almas gêmeas e eu sou muito legal’, vem a sensação de estabilidade que é o primeiro passo para a insuportável certeza de vitaliciedade. E essa é apenas um delírio, inclusive em Buckimham.
Pombinhos juntos, familiazinha criada, a mulher se torna muito, muito espaçosa.
Culpa da sogra que, ela garante, nunca a aprovou. Hummmm. Lembra daqueles aeromodelos que vocês montavam juntos? Hummm…Pois é. Estão na casa da mãe dele, junto com os Puzzles que você deixou de fazer porque ocupam a mesinha da sala. Da sua sala. Ah, tá. Dá para entender, não é?
E a coleção de gibis? Pouco espaço, os apartamentos são minúsculos, como acomodar essas inutilidades mais seus sapatos e suas bolsas, afinal são a sua razão de viver. Ou quase, vá lá. Em alguns lares bem amplos, escritório masculino é ficção. E espaço perdido, não é mesmo?
E a bancada do banheiro? Uau, como são exíguas. Temos tanta coisa para deixar lá (e usar pouquíssimo) que mal sobra espaço para ele, que tem escova de dente, barbeador, espuma, perfume. Ora, perfume pode ficar no guarda-roupa, perto dos lenços, é mais prático.
Na geladeira, tem tudo que gostamos afinal, será a dieta dele também. Melhor que seja!
Os amigos, amém, ele conseguiu manter a duras penas e, não se espante, depois de alguma negociação, com transferência de ativos e passivos. Pra você claro.
Sabe uma coisa que sempre me intrigou? Mulheres têm amigos, homens (quis dizer héteros), outros amigos gays, uma porção de amigas pouco confiáveis e aquelas que valem ouro. Saem com a própria turma, sem os maridões; atendem ligações de celular e correm para um canto discreto; ficam horas penduradas na Internet…Mas se consideram acima de qualquer suspeita ou crítica. Já imaginou o que aconteceria se seus homens fizessem exatamente a mesma coisa? (Nem tente, há indícios que foi assim que os problemas no Oriente Médio começaram…).E se ‘eles’ trocassem abraços afetuosíssimos e cheiros no cangote, com uma mulher, bem na sua cara e depois, cândidos, dissessem que não importa, pois era apenas mais uma gay (e nem dava pinta, né?) com quem se relaciona, num grau de intimidade que beira o…Incesto? Sei lá.
Não estou reprovando nada disso, amiga. Cal-ma! Apenas e tão somente fico aqui matutando como seria se ambos tivessem, sempre, os mesmos direitos, pois é fato que não têm.
Saímos com eles, comemos um filé a Paulo Chaves e ainda abatemos um Petit Gateau (Aliás, essa sobremesa é pior que herpes, em qualquer lugar tem, que coisa!). Mas poucas vezes nos sentimos no dever (nem diria obrigação) de dividir a conta, afinal, estamos dando ao Romeu a honra de uma companhia agradável e salutar. Será?
É, meu anjo, eu realmente fiquei velha. Mas o ranço que me incomoda não vem de hoje, dessa nova maneira de ver e acima de tudo, de olhar. (Com o tempo, você aprenderá a diferença.) Vem dos cacoetes, dos modelitos fora de moda e de tudo que, sabidamente, vai dar errado.
Vejo sim, que é da natureza feminina esse viés egoísta e egocêntrico, que só tempo ameniza, tornando-os menos incômodos. E a nós, um pouco mais parceiras.
Talvez isso não explique porque homens mais novos estão, cada vez mais, experimentando mulheres mais velhas (Bom, as mais jovens estão penduradas nos melhores coroas da cidade!).Mas me faz entender que muita coisa poderia ter sido diferente…

>FAXINAS

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Certa vez comentei com uma terapeuta que, ao contrário da maioria das pessoas, aceitava as mudanças que a vida nos impunha e até gostava da oportunidade de tirar tudo dos armários, separar as inutilidades e guardar com mais cuidado o que realmente me era caro.
Ela me disse que um dia eu entenderia melhor certos códigos.
Bom, mais de vinte anos depois, continuo gostando de mudanças; na realidade, elas me fascinam. E já decifrei claramente o meu código pessoal no que diz respeito à reparos e ajustes, de rota inclusive.
A oportunidade de experimentar novos lugares, de rearranjar móveis antigos e novas aquisições, de dispensar o excesso de bagagem é uma experiência recompensadora.
Minha mãe sempre faz observações sobre minhas manias, em especial a de levar meus sapatos para ‘manutenção’, de revisar roupas a procura do que precisa de um ponto ou um ajuste. Como já me conheço um pouco, nem tento explicar nada.
Quando quebrei uma peça de cristal de grande valor sentimental, embrulhei os cacos, e, contrariando o feng-chui e as crenças de outros, deixei o pacote numa gaveta, uma espécie de ritual de passagem, sem velório. Um dia peguei o embrulho e coloquei no lixo. Simples assim, exatamente como tudo o mais na minha vida. Se não é o momento, eu espero.
Essa semana resolvi arrumar, pela centésima vez, armários e closet.
De óculos e sob a claridade de um dos poucos dias de sol, me surpreendi com o amarelado de algumas peças que certamente, só estavam ocupando espaço ou aguardando que estivesse pronta para dispensá-las. Sou maníaca por ‘dar’ coisas que não estejam em uso e acredito que essa prática abre uma possibilidade cósmica para que novas cheguem aos meus domínios. Algo como ‘quem partilha, tem’, enfim.
Dessa vez meus descartes foram um tanto dolorosos. Uma calça jeans, tamanho 42 (uau!), linda-linda-linda, cheirosa, dobrada num canto, esperava por mim, pela aceitação de que isso não me pertence mais e que é hora de aceitar as coisas como são, inclusive um manequim menos enxuto. Uma bolsa juvenil demais para meus cinqüenta, uma saia de lã e um casaquinho de cashmeare, quentes demais para o nosso eterno verão e pequenos demais para esperar pela minha próxima viagem para algum inverno qualquer.
Fiquei imaginando para quê tantas bolsas, tantos bordados e adereços que jamais usarei. Eu agora queria espaço livre, gavetas quase vazias e isso sim me parecia urgente.
De repente, grande parte das minhas coisas parecia não ter nenhuma importância, eu estava pronta para andar por aí com uma bagagem mais leve, sem ligar a mínima se entendem ou não. Quem sabe fosse a tal da maturidade ?
Enfim. A verdade é que na ‘vida real’ as coisas são mais ou menos assim. A gente pensa que não sobreviveria sem isso, aquilo ou aqueles. Aos poucos, descobre que nada nem ninguém é insubstituível, que uma amizade ou um amor que nos façam sofrer talvez fiquem bem melhor numa foto de um álbum qualquer. Que um emprego ruim pode ser tão nefasto quanto emprego nenhum e gente chata é sim, bem pior que estar só e m paz. Aprende-se até que lamentar o tempo perdido é bobagem, geralmente se trata de investimentos, alguns com mais retorno que outros mas nenhum que não tenha lá seu valor.
Depois de toda a arrumação lembro do meu livro, adormecido no décimo segundo capítulo, aguardando que decida o destino da minha heroína escrachada e nada convencional.
Fiquei pensando se estou realmente mudada, ou se, qualquer hora dessas não vou chegar em casa com dois jeans super apertados, para usar ‘depois da dieta’ ou decidir que é hora de arrumar tudo de novo.
Não sei. E de que adiantaria saber?