>E aí, pai, como vão as coisas? (Especial para o pessoal de Belém)

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E aí, pai, como vão as coisas?
Por aqui estão diferentes; isto é, pioram a cada dia. Em todo lugar a conversa não é o Natal ou o reveillon em Salinas. Violência, esse é o tema.
A vítima mais recente, (até quando?) foi o nosso bom Salvador, teu risonho anjo da guarda que tanto nos amparou quando ias e vinhas do Incor, já nos teus últimos tempos. Inacreditável, não? Tão jovem, alegre, ‘cheio de vida’ e se vai assim, de forma brutal e sem sentido. Toda morte é burra, mas algumas são mais.
Acho que todos têm uma boa lembrança do Salvador; do quanto sempre esteve disponível a quem necessitava dos seus cuidados. Lembro quando me ofereceu o número do celular, fazendo piada que esperava que nunca precisasse chamá-lo; caso contrário, não deveria titubear! E assim foi, mesmo no dia dos pais ou durante uma madrugada que apenas começava. E ele vinha, sem qualquer contrariedade de estamos acostumados a perceber em quem não ama o que se propõe a fazer, e nem tenta disfarçar. Não o Salvador.
Em compensação, meu velho, tem gente cujo celular é absolutamente dispensável e que se faz de difícil, fantasiando que existe quem queira encontrá-lo.
O Salvador, não. Sempre tão requisitado e tão carinhoso. Numa das últimas vezes que estive checando o ‘cardíaco’, achou um tempinho para um dos seus arroubos de amizade: “Olha, adoro o que escreves e ‘te leio’ sempre!” . Grande Salvador.
Essas pessoas generosas, que se vão de uma hora para outra, levam um pouco do assunto, da alegria de cada dia. Belém ficou chocha, sem graça. Não dá para esquecer (Que coisa estúpida!). E nós, os sobreviventes, vamos ficando como previste; trancados, sem sair à noite, preferindo pedir tudo pelo telefone. Pena que nada disso evite tropeçar num desses filhotes da ignorância, da miséria e da impunidade; de arma na cintura, prontos a disparar.
Depois, alguém ainda vai dizer que é culpa nossa, que não deveríamos ir a banco pegar dinheiro. Ou a qualquer lugar. Que jóia não é para usar. Nem carro. Nem sorriso ou felicidade estampados na cara. É perigoso! E que se morre por reagir.
Somos culpados por estarmos vivos, por não sermos miseráveis; isso é o que parece.
Quem nos dará as regras para sobreviver? Nós é que ficamos acuados, ensaiando o que não fazer numa hora dessas, rezando até que o último filho entre em casa, tranque o último dos cadeados e nós, os prisioneiros, permaneçamos feito bichos sem donos, por mais uma noite.
A nossa governadora declarou, através da Assessoria de Comunicação, que “Lamenta…morte…injustificável…a violência urbana precisa de um basta…”, do renomado Dr. Salvador Nemias (sic). Dá para pensar que se trata do desabafo de alguém como nós, impotente quanto ao que se passa no estado, que é visto pelo resto do país como ‘terra de ninguém’, um verdadeiro faroeste. E haja audácia, em assaltos a bancos ou ao cidadão comum que tem o carro tomado ‘na marra’; ao pai de família que cai numa esquina qualquer. Realmente chegamos a um ponto onde não existe explicação. Ou justificativa. Se até o governo acha que basta, imagine o povo! Talvez fosse interessante resgatar aquela conversa da época da campanha (de todas elas); naquele tempo sabiam exatamente o que fazer e agora? Porque não fazem? O que falta para acabar com esses esquemas da ‘saidinha’? (Que eles existem, ah, existem!) Onde está toda aquela estratégia de quem prometia resgatar a segurança,, a saúde e… É, rapadura é doce mas não é mole, não. Enfim, a coisa por aqui está feia! Feia e triste.
Nunca imaginei que Belém se tornasse um lugar onde se tem praticamente tudo de ruim de uma megalópole e pouco do bom.
No mais, continuo imaginando um lugar calmo e seguro, minha Shangri-la, minha Passárgada. Daí, continua zelando por nós. Estamos precisados.
Um beijo saudoso da filha,
Vera.

>Como Florbela

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De amores, mentiras e outras tragédias.
Senta-se sobre as pernas cruzadas, como se buda fosse e olha a janela escancarada. A folha permanece em branco, avisa o monitor igualmente sem cor.
Desatina-se.Queria que lhe baixasse um espírito desesperado, inquieto e apaixonado.
Que Florbela Espanca lhe soprasse nos ouvidos versos enlouquecidos, que contasse a sua versão daquela morte, comprimidos não têm graça; um mergulho suicida no mar revolto teria um pouco mais de glamour , se é que na morte se pode pensar nisso.
Florbela. Sua inspiração recorrente, a mais notável das bipolares, aquela que vivia afirmando-se e negando-se a cada linha. Um Dom Juan de saias, um narciso inveterado que nunca encontrou assunto que não nascesse no próprio umbigo e não fosse embriagante.
Ela jamais seria a sombra de Florbela. No máximo, um plágio num blog qualquer, que essas
coisas de Internet tiram o charme de qualquer poeta, não importa quanto fosse impactante fundo musical e ilustração. Espanca nunca precisou de efeitos especiais.Era carne e sangue, moderna, lírica e sensual.
Quem sabe sentisse melhor as palavras num caderno, escritas a pena, borradas pelas lágrimas paridas a fórceps, às custas da mais triste das músicas atormentando-lhe os neurônios.Isso não é inspiração, mulher!, recriminava-se, piorando as coisas.
Não se faz boa poesia na alegria, repetia, da mesma forma que paixão acaba em solidão e amor, em dor. Não existe romance sem sofrimento e pronto!
Um longo texto alinhavando as torturas do casamento…Logo ela, que se casara quatro vezes, que ironia. Onde estavam as pílulas? O anti-depressivo que a tornaria um pouco menos absurda, mais próxima da normalidade e que a deixaria sem cor e sem graça, menos diferente, o tanto quanto fosse suportável.O sucesso pertence aos iguais.
Precisava dormir ou enlouqueceria mais ainda com aquela tela vazia e minutos passando, ditando a sentença que a faria pular do trampolim: não há mais tempo!
Prazos, quem inventou os prazos, a física quântica e outras ficções a respeito do tempo? Alguém que não amava, que nunca vivera essa paixão de dar nó nas tripas, essa vontade de gritar me bate, mas me ama, me ama. Me deixa, mas antes, me arrasta e me mostra como vou morrer de saudade, como vou esquecer de mim sem jamais esquecer da tua pele, das tuas mãos me apertando, do vazio que sinto onde deverias morar, nesse amor que é lago, lagoa onde nadas e mergulhas feito Posseidon.
Decididamente, ela não conseguiria escrever mais nada, perderia o emprego e o vício!
Os prazos. O que faço com eles se não consigo pensar em mais nada e tua ausência me sufoca?
Bem feito! Foram tantos conselhos, vai para a editoria de moda é muito mais fácil, ninguém entende nada mesmo e as especialistas, ah, algumas andam com aquele negócio mofado que ainda chamam de tailleur, com florzinha na lapela e modernidade regada a naftalina. Mas não, tinha que escolher o caderno literário com uma página in-tei-ra só para ela. Dez mil toques. Onde está o trampolim?
“Eu quero amar, amar perdidamente !Amar só por amar: Aqui … além…Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente …Amar ! Amar! E não amar ninguém !(…)
Quem disser que se pode amar alguémDurante a vida inteira é porque mente!”*
Quase sente o clima de Matosinhos, por onde andou a poeta, até aquele aniversário- o derradeiro- em 1930. Quantas vezes já havia programado essa viagem além mar, onde haveria de ver as terras e coisas de Pessoa, de Florbela – sempre ela- do Alentejo de outros amores, da Caparica cada vez mais distante…
Era hora de sair do computador buscar um pouco de ar, de verdade.De nem lembrar quantas vezes se indignou com quem pensa que “navegar é preciso” como se necessário o fosse…
Precisão. Ah, a matéria que não sai, a redação está quase vazia!
Quem sabe pudesse esquecer tudo e beijar a terrinha como um João Paulo nada santo, um afago, um sorriso e… cheguei!, Se navegar é cartesiano, viver…ah viver é comigo!
Sem pílulas nem mar para mergulhar, só resta a vida real. Agora só resta Portugal.

* Soneto de Florbela Espanca (Texto : Vera Cascaes)