Como garrafas ao mar

“Saudades, só portugueses

Conseguem senti-las bem

Porque têm essa palavra

Para dizer que as têm.”  (Fernando Pessoa)

 

Sentou-se no pequeno banco, cujo assento bordado em flores coloridas estava gasto pelos anos – como tudo o mais. Acomodou-se diante da cômoda e abriu a gaveta mais baixa que reclamou, emperrada. Eram pedaços de sua vida; o catecismo de madrepérola, o rosário esverdeado pelo zinabre; uma caixa, minúscula, com alguma coisa coberta por gaze e que lhe disseram ser o próprio umbigo, guardado pela mãe como amuleto. Um exemplar da “Sétimo Céu”, com uma fotonovela encenada em algum lugar da Toscana e que, depois de ler escondida (moças de família não liam aquelas coisas) havia guardado para lembrá-la que, aos dez anos, decidira morar na Itália. Abriu as páginas marcadas e viu que, na maioria, eram efeitos cenográficos e nada mais… Como seus sonhos. Uma lágrima escorreu-lhe pela face quando encontrou o sabonete de Lavanda Pinaud, que ainda guardava um sopro do aroma do avô, que  a recebia de braços abertos. Fechou os olhos e pareceu-lhe que ele continuava ali.

Ela havia crescido, ido para tão longe… E o único lugar onde guardara algum segredo, longe da bisbilhotice alheia, continuava sendo a gaveta da cômoda do quarto dos avós,  no velho sobrado.

Primeiro, ele havia partido e ela nem tivera tempo para despedir-se. Desafiando a natureza, a avó sobreviveu por mais trinta anos… E agora, ela também se fora.  Cada qual que recolhesse suas coisas, na cômoda da família… Cinco gavetas, das quais quatro já estavam vazias e apenas a dela ainda guardava seu tesouro…

Amarradas com fitilho de couro, as cartas de sua primeira história de amor… Pedaços do próprio coração que haviam cruzado o Atlântico como garrafas de náufragos, que vão e vem…

Acomodou-se na velha poltrona e, sem nada mais importante do que visitar a si mesma vinte e cinco anos antes, leu nas páginas finas a caligrafia caprichada, alguns desenhos e recortes… Enganam-se os que acham que o verdadeiro amor precisa sobreviver, numa história sem fim. Amores podem fenecer e ainda assim, continuam sendo grandes amores.

Deliciou-se com a paixão que acontecera de dois lados do mundo, ele em Portugal e ela cá, no Brasil. Paixões, vividas no português de Portugal são muito mais saborosas, encantadoramente românticas, concluiu.

“As palavras… Ai as palavras… Podem ser tudo e nada. Podem ser tudo e quase tudo. Podem tudo… Não só te desejo como desejo-te (vês? as palavras são assim…) um ano em que os sonhos deixem o etéreo firmamento onde habitam e desçam à terra, onde queremos que aconteçam.
Mas agora desejo com urgência as tuas palavras. Para que se misturem nas minhas e, com elas, enlouqueçam meus desejos de te querer.
Vem. Faz das palavras a ponte para esta margem. Estou aqui à tua espera. Mesmo que o tempo seja longo e as águas agitadas. Estou aqui.” 

Eram votos de felicidades, em um réveillon que ela já não lembrava qual – e ainda assim, chorou, lamentando não poder cruzar essa ponte, agora.

“Meu amor,
Como foi bom vires até mim. Gostei de saber as novidades que não tinhas…
Tu estás assombrosa. Não sei se o coração resistirá ao ver-te pela primeira vez. Tás tão linda…” dizia o amado ao saber que pretendia visitá-lo em breve… E nunca se encontraram. Ah, a vida! Soluçou, pelo que poderia ter sido e recostou-se, pensando no quanto tinha sido bom amar e ser amada, mesmo à distância. Confortava-lhe saber que poderia ler aquelas folhas sempre que se sentisse assim, sem uma palavra apaixonada para ouvir…

Paixões se nutrem de ciúmes e amores, de saudades. Esse amor que um dia foi verdade, poderia continuar pulsando, sempre que dele lembrasse, ou quando abrisse aquelas garrafinhas que atravessaram o mar e o tempo. E seria, para sempre, só deles.

 

 

Com gosto de infância

Uma Casa Chamada 14, de Maria Cecília Borges Figueiral.

Vozes ecoam de tempos tão distantes que, decerto, não vivi… Sorvo cada página como os picolés adocicados das praias escaldantes da minha infância, adivinhando sensações e sabores que nem me pertenceram… A chuva da tarde abranda o calor e me enrosco no lençol macio – gasto e cheio de memórias – aconchegando as recordações de Maria Cecília Borges, paraense com dois títulos publicados já na maturidade. No primeiro -“Era Verão Quando Parti”- desabafos e reflexões sobre o amor quase idealizado. O segundo, “Uma casa chamada 14”, é a saborosa crônica de um lar, essa mistura feliz de casa e família; leitura que pedia rede e chuva.
Inevitável lembrar minha própria infância… Também adorava estar na casa da minha avó, o oposto da desvelada Tia Danza, mas tão amada quanto. Vovó Esmeraldina era sim, diferente… Nos cabelos azuis e na infantilidade de permanecer, para sempre, foco das próprias atenções – sem constrangimento ou falsos pudores. Filha única que perdeu a mãe aos seis anos, foi mimada pelo pai idoso, o Coronel O’ de Almeida que deu nome à rua – se é que esses bajuladores que desprezam a história ainda não mudaram, enfim. Vovó enfeitava-se diante da “penteadeira” num ritual – que eu adorava assistir. Imitava-a, passando pó de arroz Lady e batom Coty de metal dourado. No colo, gotas de Ramage e uma camélia de fustão.
Minha avó não foi dessas mães sacrificadas, não seria diferente com os netos. Reservava a si a melhor parte do bolo; para nós, isso era normal. Sua vontade prevalecia e ninguém reclamava dos bombons escondidos, do filé exclusivo, do melhor assento no cinema. E como eu gostava de estar em sua casa! Montes de “guardados”, o quartinho dos fundos cheio de bregueços; havia tanto a bisbilhotar… Mas o melhor de tudo é que ela conversava com a gente. E ouvia-nos, que maravilha! Eu folheava fotonovelas, em pilhas enormes no quarto do meu tio, que nunca entendi muito bem para onde tinha ido – havia um mistério, era um lugar que não devia entrar, tornando tudo mais mágico ainda. Eu queria ser como Paola Pitti ou Michela Roc; achava as sobrancelhas finíssimas de uma loura italiana de Grande Hotel o máximo!
O banheiro do segundo andar, com a banheira escura e armário com dezenas de vidrinhos interessantes – era só dela. Como desde aquela época faltava água, banho era de canequinha, com a água aquecida por chaleiras ferventes. Como os banhos da menina Maria Cecília, mais de duas décadas antes.
Crianças, em qualquer tempo, são parecidas. Eu também fazia esculturas no cabelo ensaboado, rabiscava azulejos com sabonete e quando deitava na rede para a sesta forçada (ninguém dava um pio, enquanto ela dormisse…), embalava-me com o pé na parede, deixando a fantasia levar-me; eu era náufraga no fundo de um barco, singrando mares desconhecidos. No colo, a boneca de unhas pintadas voltava a ser meu bebê, enrolada numa manta que lhe disfarçasse a cabeleira, vítima das minhas tesouradas – meu sonho era ser cabeleireira.
Maria Cecília descreve em minúcias a vida familiar, a casa na 14 de Março de “leito carroçável” e bonde na esquina. A rua das minhas lembranças tem uma interminável obra para colocação de tubos de cimento, enormes. Enquanto isso viravam cavernas, casinhas, naves espaciais… Como éramos felizes comendo pão com manteiga e açúcar, leite em pó com achocolatado, farinha com açúcar, banana frita…
Desisto do que ainda tinha para fazer… Abraço minhas recordações, ouvindo Maria Cecília cantando a interminável Tana-Naninha… O sono me acolhe e durmo feliz como na minha infância. (www.veracascaeswordpress.com)
PS: Para ex-amantes de fotonovelas, Paola Pitti continua bonita, no Face Book… Amigo José Maria Toscano; obrigada pelas viagens à Belém de várias memórias!

>Que saudade de mim!

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Tempo que se foi
Ando com uma saudade danada de mim. É aquela dor, aquele arrastar de correntes de quando a gente sabe que nada vai trazer o entre querido de volta, a morte é irreparável; o tempo perdido também.
É uma pena que a gente não tenha essa sabedoria aos dez, aos quinze anos, quando não conseguíamos prestar atenção em nada além do próprio umbigo e do menino que não retribuía um sorriso cheio de promessas.
Morro de saudade de um tempo que se foi pra não voltar; e se eu soubesse disso, teria tentado fazer as coisas mais bem feitas, ou pelo menos, teria tentado tornar minhas memórias menos dolorosas.
Sinto falta dos almoços no apartamento dos meus avôs, cuja sala de costura aos domingos acomodava uma enorme mesa, cheia de gente falante e feliz. Depois de um almoço farto, a gente comeria o bolo da Linete; com o café viriam os biscoitos da minha avó, cuja receita trazia medidas em pires, que coisa. E era tão bom… Dia de tomar Coca-cola e ver os primos, nossos vizinhos inseparáveis.
Sinto falta daquela sensação de que família não se perde, nem que você faça todas as merdas do mundo. Que as brigas entre irmãos acabarão junto com a acne e o medo da mulher do táxi.
Sinto falta da casa da outra avó, a velhota mais incrível que já conheci. Baixinha, linda feito a Greta Garbo, com cabelos azuis como a caneta Bic. Ela me albergava durante longas temporadas e me deixava ler fotonovelas, livrinhos da Brigitte Montfort, a filha de Giselle, a espiã nua que abalou Paris. O Cruzeiro, Querida, X9, Seleções e Coquetel de Palavras Cruzadas também faziam parte da minha diversão, meio incomum para minha idade, é verdade. Sinto falta do leite “embolotado” e do pão das quatro da tarde, da Camões.
Fico lembrando das visitas que fazíamos à família do Dr. Fayal, uma casa enorme na Pedreira onde havia uma máquina de bater açaí. Sinto até o aroma!
O círio, na janela do Dr. Morrisson. Da casa do Luciano e da Ivani, um passeio e tanto até Miramar, onde moramos por uma temporada, que bárbaro. Eu subia em árvores, cochilava no mirante vendo os barquinhos com os remadores que passavam pertinho, andava com os cães da vizinhança, fingindo que eram meus.
As festas eram ótimas e menores. Havia a Barraca da Santa, a Feira da Providência, o jantar de São Judas. Era uma época em que a gente comia de tudo e ninguém tinha essa neura de dieta. Aliás, as mulheres que faziam sucesso eram bem fornidas de carnes e saúde – e a gente ia aos velórios de mortes “morridas” pela idade, já bem entradas nos anos. Parece que quase ninguém morria de bala, de batida de carro, de assalto então, nem pensar. Câncer era uma coisa que não se falava, mas ainda acho que adoecíamos menos, enfim.
A gente visitava os amigos e era uma festa, café e bolo, biscoitos e Guarassuco; tinha a hora de ver fotos de parentes ausentes, de festas familiares. Era hábito “mostrar a casa” aos que ainda não a conheciam. E isso era um gesto de carinho, jamais de exibição.
Na minha rua, a gente esperava o convite para as festas da família Guapindaia, que era numerosa, graças a Deus. Havia sempre banho de piscina e arroz de galinha, que maravilha. Acho que deviam existir cinco piscinas na cidade, se tanto.
Sinto falta do Mosqueiro, quando a gente podia entrar em qualquer uma das casas da rua: todos eram amigos. O jogo corria animado na casa do Curt e com sorte, dava para chegar até a praia e assistir ao espetáculo da Maizé, da Edna, do Acatauassu, do Paes Barreto nos esquis. As pessoas modernas naquela época eram muito mais chiques.
Eu era só uma moleca tagarela, que sempre gostou de estar entre adultos, e não fazia idéia do quanto sentiria saudade de tudo que já foi e não voltará jamais.
Ai, que saudade de mim!

>A Rosa Inglesa

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Trinta e um de agosto de 97.
Nem parece que faz tanto tempo assim, mas lembro da tristeza daquela noite.Fãs de Rodolfo Valentino e Elvis devem ter sofrido assim, também.Se você não teve ídolo, que pena. Eu tive!Desde o primeiro dia em que a vi, uma criança ao colo e a saia translúcida; simpatizei com aquele olhar. Olhos tristes, pedindo afago.Quando ela casou, em 81, faltei à aula na USP, tranquei-me, enroscada no sofá, curtindo o frio de julho, olhos colados na TV em preto-e-branco que me fazia sonhar colorido.Era estudante, a espera de um conto de fadas. Eu e quase todas as jovens daqueles loucos anos 80, cuja melhor imagem foi dela.Rebelde nos elegantes cabelos curtinhos, quando o que se esperava cachos dourados. Mas não ela! Diana era a nossa Barbie, em carne e osso, linda, loura, alta, magra, simpática e triste…Exatamente como a gente imaginava que seria uma princesa.No fundo, todas nós sofremos, quando ela deu sinais que o castelo não era tão encantador, assim.Compreendemos quando passou a buscar um amor, ou melhor, quem a amasse. Como havia sonhado, quando era a menina que conheceu o sisudo pretendente da irmã mais velha. A vida tem dessas coisas, até com altezas. Poderia ter sido diferente, se o príncipe de trinta anos não tivesse se encantado pela alegria, jovialidade e graça da lourinha de dezessete. Os mesmos motivos que o afastaram dela, já sua esposa. Ah, homens são assim, mesmo majestades.
E alegria não cai bem em alguns casamentos, fazer o quê?
Não havia revista onde eu não a procurasse.Copiei cabelos e modelos, achava o máximo que o planeta tivesse um conto de fadas, uma princesa, com alma, faces, porte e atitude de princesa. Quanta tristeza havia naquele semblante, quantos desamores, quanta vontade de encontrar a pedra filosofal que transformasse qualquer pequena coisa do seu dia , no ouro que é ter um amor grande e correspondido…No meio do sono que vinha, mas não vinha, acordei com a vinheta de edição extraordinária.Passei algum tempo paralisada.Não poderia ser verdade.Ela era bonita demais, boa demais, solidária demais, triste demais, princesa demais, para ter morrido. Pessoas assim não morrem, pensei.E pela primeira vez eu tive medo da morte, pois vive cometendo enganos. Sufoquei o rosto num travesseiro e chorei .Tive vergonha daquela tristeza, que bobagem derramar lágrimas por uma desconhecida que jamais, em tempo algum, eu poderia conhecer…Não precisei disfarçar da minha filha, os olhos inchados. Desde aquele primeiro de maio de 94, ela sabia o que é perder um ídolo. Da mesma forma que eu a confortei, sem saber o que dizer da partida de Ayrton Senna, ela apenas me abraçou, batendo de leve as mãozinhas nas minhas costas. E então, orei por ela, pela nossa princesa.Tantos anos depois sei que chorei por ter descoberto que fadas e princesas não existem mais.E que sonhos são assim, miragens que o vento apaga, como uma chama.Na gaveta, num recorte de revista, Ela resplandece, o sorriso alvo, naquele espetacular vestido de veludo azul.Não me importa que você ache bobagem, todo mundo guarda a mais linda boneca e o melhor dos sonhos para sempre. (veracascaes@gmail.com)
Postado por Vera Cascaes às 01:22 1 comentários

>Meu saudoso pai

>Semana passada fez seis anos que ele partiu e até hoje o sinto perto de mim. Fui até o cemitério trocar as flores e percebi que para mim, parecia ter sido outro dia que sofremos tanto naquela despedida. Não importa o quanto esteja doente, o quanto já tenha vivido e se o sofrimento nos leve a aceitar a morte como uma libertação; despedir-se irremediavelmente de alguém que se ama é uma dor enorme, que permanecerá feito cicatriz. Até hoje tenho ímpetos de telefonar-lhe quando algo de bom me acontece ou adoeço; quando preciso decidir alguma e estou insegura. Meu pai nem sempre concordava com minhas escolhas, mas me deixava a certeza de que, sob qualquer circunstância, poderia contar com o colo amigo e acima de tudo, cúmplice. Aos longo dos anos já escrevi sobre minha família inteira, incluindo meu cães e gatas, mas do meu pai apenas falei da enorme saudade. Era um ferimento que não queria expor. Hoje me pego lembrando de um velho Cascaes diferente, que só mamãe, eu, Márcia, Beth, Tavinho e nossa pequena família conhecíamos. Que era caxias, enérgico, forte, vaidoso e madrugador, todos sabiam. Mas havia um outro Octavio que nos divertia, sempre engraçado, inventando canções cabeludas (para desespero da minha mãe) e nos fazendo rir o tempo todo, soprando o ar entre os lábios frouxos quando queria demonstrar enfado. Mas ele só conseguia soltar-se assim em casa ou com a turma que se reunia anos a fio na garagem do Luciano Moraes, para o jogo de buraco regado à gargalhas, com o Raimundo Libório, Héber Monção e Mário Teixeira. A gente sabia que era ali que ele reabastecia suas energias e suportava a pressão para mais uma jornada. Meu pai era um trabalhador, um homem cuja maior vaidade era o nome que carregava, naquele porte de galã que sempre teve. Apesar de cara de mau, com as duas filhas sempre se derretia. Certa vez, quando era eu a jovem apresentadora da TV liberal, deveria apresentar o Concurso de Rainha das Piscinas ao lado do Chico César, pois naquela época, éramos o ‘casal telejornal’. A atração seria ‘ninguém mais nem menos’ que o Roberto Carlos, no salão recém inaugurado do Pará Clube. É…, faz muito tempo. Fato é que de tardinha cismei de ficar loura e claro, deu tudo errado. Saí do salão parecendo uma samambaia, com as mechas esverdeadas por conta de uma rinsagem ‘cèndre’, que eu não tinha a menor idéia que cor era. Ao chegar aos berros para lavar a cabeça (todas as vezes que tentava fazer cabelo ou maquiagem fora, lavava e fazia eu mesma, tudo de novo!) vi papai desesperado, me lembrando do mega compromisso. Aos prantos, engasgando, respondi que não iria mais ‘com aquele cabelo’. Bom dizer que papai nunca foi afeito a essas ‘coisas de mulher’, não fazia idéia do que tinha ocorrido, mas saiu, em bermudas, e voltou da farmácia com um xampu tonalizante negro (!) dizendo “Toma, filha, vê se dá para remediar!”. Claro que daria, tinha que dar! Casa lotada, quando anunciamos “ E com vocês…Roberrrto Carlos”, eu sabia que não estava numa das minhas melhores noites, o cabelo muito escuro sombreava as olheiras e estava seco feito palha. Mas tinha certeza que em casa, meu maior fã estava torcendo por mim, cigarrinho entre os dedos, anotando as falhas para depois me alertar. Esse, era o doce Tatá. Desde os tempos de colégio minha habilidade com o microfone era valorizada por conta do vozeirão, afinal, herdei os dons do astro da rádio novela Ressurreição, um enorme sucesso na época; e décadas depois ainda tinha quem lembrasse disso em plena rua. Durante meus anos de TV, me dizia o que devia ser melhorado, às vezes fazia gozação…“É, ‘fela’ (um termo só nosso) hoje tu nem gaguejaste!’ e minha mãe acudia, “Ora deixa a menina!”. Fiquei esses dias meio que revivendo nossas boas e velhas histórias. O coração apertou, não de tristeza, mas de saudade. Os olhos marejaram e eu, mais uma vez, agradeci a Deus ter sido tão feliz com a minha família.