>Síndrome da agenda vazia

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Desemprego. Esse é um tema que permanece guardado a sete ou oito chaves, como se assim, deixasse de ser um risco real. É um assunto que incomoda. Podemos falar da vida alheia, do governo, da inclinação sexual do outro, mas demissão sempre vem carregada de preconceitos, como se fosse “culpa” exclusiva da vítima; o que, convenhamos, nem sempre é o caso.
Além da questão da sobrevivência, o sistema exige que se tenha um trabalho, ainda que você eventualmente, não precise. Até quem pode “não trabalhar” é cobrado; afinal, a maior parte das pessoas não consegue imaginar a própria existência sem um emprego. A aposentadoria, recebida como conquista por mulheres, é praticamente uma sentença para homens e a falta de ocupação remunerada numa idade produtiva é dolorosa para ambos, pois independe da disposição de pular da cama e ir trabalhar.
De-sem-pre-go é um palavrão que nos remete a uma categoria inferior, tanto homens (de quem se exige sustentar a família) quanto mulheres, pois “foi-se” o tempo em que ser “do lar” merecia respeito. São raras as que têm a opção de cuidar da prole e do ninho; e as que podem, ficam “mal vistas”. Vivemos a ditadura do trabalho “fora de casa” – sem esquecer as lides domésticas, pois sobra tudo para a super mãe!
Há que se ter profissão, contra-cheque, negócio ou “bico”, ou você não é na-da! E a entressafra, que ocorre em qualquer setor, se transforma numa grande provação; e como se não bastassem as dificuldades, ainda tem “os outros”, a pior parte de qualquer demissão.
A sensação de quem perde um trabalho é a de ser desnecessário e dispensável. Ainda que a defenestração ocorra por conta da crise ou quando partidos se alternam (revezando vagas, pois em época de farinha pouca, meu pirão primeiro!); ficar oficialmente sem “nada pra fazer” é terrível, mesmo para quem jamais esqueceu que as “coisas” podiam mudar, a qualquer momento.
Em geral, falta “savoir-vivre” e as pessoas perguntam sem nenhum constrangimento, “onde é que você está”, como se tivesse que “estar”, obrigatoriamente, lotado em algum lugar. E nada que você faça depois de uma exoneração parecerá “melhor” que o trabalho perdido, mesmo que esteja ganhando o triplo. Aos olhos dos “outros”, vai levar tempo para que você seja novamente, “bem sucedido”. Talvez por isso tantos prefiram dizer que estão dando um tempo, viajando muito, cuidando dos negócios da família ou se dedicando “a um novo projeto”. Aliás, “novo projeto” é “a cara” da negação do pontapé.
No serviço público, existe enorme probabilidade de você ser o último a saber da novidade; haverá sempre um sádico que fará questão de informá-lo “em primeira mão”, pois acredite, tem quem leia o Diário Oficial cedinho, só para ver quem foi para o “olho da rua” ou conferir as diárias, o que é típico da pobreza da qual você não faz mais parte, pelo menos isso. Fosse uma promoção, todos comentariam com inveja, mas ninguém ligaria para congratulações. O ser humano é uma droga, mesmo, mas alguns ex-colegas são muito piores, arre! Prepare-se pois os conhecidos vão se dividir, alguns não tocarão no assunto, como se fosse uma doença incurável. Poucos tentarão ajudá-lo e outros, principalmente “você-sabe-quem”, procurarão notícias, mas não querem saber se está bem, saudável ou feliz. Isso não importa, e sim se você já “arranjou” um novo emprego.
Nunca vi uma frase chula tão cheia de razão, mas a verdade é que “inveja é uma merda”, então o lado bom é que você pode se livrar dos corrosivos, amém.
O tempo não cura só feridas e mágoas, deixa-nos ver que a chance de mudar – de emprego, porque não?- pode ser uma dádiva e como se diz por aí, é na crise que se cresce; espiritualmente, inclusive. Fato é que, nessa situação, você se sente um pouquinho mais humano e por isso mesmo, mais perto de Deus. E a vida continua, meu caro; com ou sem emprego.
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>Síndrome da agenda vazia

>De uns tempos para cá, alguns assuntos que eram poucos discutidos ocuparam espaço na mídia. Nunca se escreveu tanto sobre o ‘ninho vazio’, aquele excesso de tempo e espaço que nos acomete quando os filhos já alçaram vôo.
Um tema, entretanto, permanece guardado a sete ou oito chaves: desemprego. Sim, a falta de ocupação, alheia a sua vontade de acordar e ir trabalhar todo santo dia.
Não, não se trata de aposentadoria, que é recebida por mulheres como conquista e por homens praticamente como sentença. É pior que isso.
De-sem-pre-go, esse palavrão que os ‘não concursados’ temem ouvir ou pronunciar.
A sensação de quem perde o trabalho é justamente essa, de ter sido dispensado, de não prestar pra nada, de não fazer a menor falta.
Mesmo que a defenestração ocorra por conta da crise e leve junto vinte por cento da empresa, ou ainda que ocorra naquela fatídica mudança de administração de governo, quando partidos se revezam e revezam também, a empregabilidade, ainda assim, ficar sem ‘nada’ de uma hora pra outra é, simplesmente, terrível.
Eu sei muito bem disso.
Quando a gente faz parte de uma assessoria vinculada a determinado partido, não se perde de vista a possibilidade das ‘coisas’ mudarem e, por conta disso, acabarmos tomando o ‘caminho da roça’. Por mais técnica que seja sua ocupação, por mais correta que tenha sido sua atuação, esqueça, isso é coisa que não interessa ao novo governo. E é até bastante compreensível, não é? Cada qual no seu quadrado, com os seus.
O problema é que falta ‘savoir-faire’ nessas ocasiões. As pessoas perguntam ‘na lata’ onde é ‘que você está’, como se essa situação não fosse aguardada por todos. E nada que você esteja fazendo depois disso parecerá ‘melhor’ que o trabalho perdido, nem que você esteja ganhando o dobro. Aos olhos dos ‘outros’, vai levar um tempo para que você seja novamente, uma pessoa bem sucedida. Talvez seja por isso que tantos dizem estar ‘dando um tempo’, cuidando dos negócios da família ou se dedicando a um novo projeto pessoal.
É a fase da negação.
Aliás, dar essa ‘boa nova’ (ui) em primeira mão aos ‘dispensados’ é fonte de enorme prazer para os sádicos de plantão que existem em toda repartição. Por outro lado, isso o livra da chatice de ler o Diário Oficial, pode crer que você ficará sabendo rapidinho. Já se fosse promovida…
Lembro bem de um certo Natal, há três anos. No meio das compras para a ceia, meu celular tocou. E depois da notícia fiquei ali, com um peru descongelando no carrinho, rodando pelos corredores em pleno dia 23 de dezembro, pensando como seria minha (sobre) vida depois daquela canetada. Admirei-me com minha comoção, pois eu sempre soube que seria assim.
Fato é que de uma hora pra outra você se sente mais mortal e por isso mesmo, mais perto de Deus.
Os conhecidos se dividirão, alguns não tocam no assunto, do mesmo jeito quando se tem uma doença incurável, ninguém fala nisso. Ou seja, poucos tentaram ajudá-lo. Outros, principalmente ex-colegas, procuram saber de você, mas não se está bem, com saúde e feliz. Não, isso não importa, Eles querem é saber se você ‘arranjou’ um novo emprego.
Sabe, nunca vi uma frase chula tão cheia de razão, mas a verdade é que a inveja é uma merda. E uma das coisas que você se livra é dos invejosos corrosivos, amém.
Como todo mundo que já foi colocado no ‘olho da rua’, cumpri minha quarentena. Passei por uma fase de negação (imagina só se uma profissional como eu vai ser mandada embora), passei pela aceitação até que o tempo me fez ver algo que poucos conseguem visualizar: a liberdade.
Essa paz que aos poucos vai se acomodando e que lá pelas tantas nos leva até a duvidar como éramos capazes de trabalhar tanto… O tempo cura as feridas e mágoas, nos faz ver que quem perdeu mais não fomos nós e que a chance de mudar é uma dádiva, como dizem os orientais, é na crise que se cresce; espiritualmente, inclusive.
Outro dia encontrei uma ex-colega, que me fez companhia no Diário Oficial, no mesmo supermercado onde estava naquele Natal. Tomamos café, batemos um longo papo e chegamos à conclusão que estamos muito melhor do que há três anos. Estamos, finalmente, prontas para olhar em muitas direções.