>Juntos!

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Casais mais velhos me fazem pensar no que há de diferente nessa geração que permaneceu casada.Não foram pessoas desconectadas do mundo, que viveram numa bolha mofada.
Pelo contrário.Todos viajaram muito, souberam criar filhos e tentaram, com algum êxito, manter as famílias unidas…Até que a minha geração iniciou o casa-separa, enfim.
Que segredo seria esse, que mantém pessoas diferentes carinhosamente unidas apesar de tudo?A crônica de Stephen Kanitz, numa antiga “Veja”*, sobre esses relacionamentos que atravessam tempestades e saem fortificados para comemorar mais um ano, acendeu minha curiosidade.
Penso que o primeiro equívoco é achar que todos “escolheram a pessoa certa”. Isso não existe.Da mesma forma,é fantasioso crer que almas gêmeas nascem com a terrível missão de se encontrar nesse mundo de meu Deus.
Será que nenhum desses casais esteve a beira de um divórcio? É certo que sim, crises acontecem.Tentações também. Alguns podem ter cometido uma infidelidade aqui, uma transgressão acolá.
Ao que tudo indica, essa geração que hoje vive os oitenta, pouco mais pouco menos, soube preservar algo muito mais importante: lealdade.
Será que depois de casados,não apareceu ninguém melhor, mais bonito, interessante, rico, engraçado, menos carrancudo, mais fogoso, menos rígido, “mais…mais”?
Claro que sim, isso acontece todos os dias. Mas também havia lealdade aos compromissos pessoais, às escolhas feitas, apesar da vizinha gostosa e ninfomaníaca, do dentista sedutor e gabola, da amiga sacana, da falência do negócio, do filho drogado.
Penso que questionavam menos a relação e usavam esse tempo precioso para vencer a/na vida. Sim, a instabilidade dos relacionamentos é, sem dúvida, grande causa de prejuízos pessoais. E isso é muito mais do que dividir DVDs, arcar com a pensão dos moleques e comprar uma nova cama de casal.
Bem, e o que aconteceu com os netos desses casamentos longevos? Não sei, com franqueza.
A maioria já contabiliza tentativas e insucessos, ainda que com o mesmo parceiro.Esqueceram-se os pais de passar a fórmula adiante? Talvez.
Não sei se é culpa dos hormônios do frango, do efeito estufa, da falta de ensinamentos sobre como viver junto tanto tempo ou do esquecimento das coisas de Deus.
Esse segredo não nos foi dado a honra dividir, ou simplesmente não o reconhecemos esse tempo todo, bem ali, escancarado para quem quisesse, tão somente, ver.
Talvez estivesse tão evidente que tenha nos enganado, fazendo-nos até pensar “credo, não sei com ainda estão juntos. Eu? Já teria separado!”
Claro, para nossos sentidos desatentos, aquelas eram razões de cisma, de desunião; nunca a explicação para tanto tempo de parceria. E separar, ainda que muito doloroso, será sempre mais fácil do que permanecer junto. Cultivar a paciência e a tolerância, saber tornar uma relação antiga algo novo, todos os dias.
Manter aquele olhar carinhoso, apesar das rugas. Enternecer-se com elas. Amparar-se um ao outro em todas as subidas e descidas, lado a lado.
Perdoar-se mutuamente e a si mesmos por esmorecer algumas vezes.E calar.
Calar frequentemente, felicidade exige, também, que não sejamos totalmente francos. Não, não eram almas gêmeas, duas metades de qualquer coisa que se encontraram.
Apenas pessoas que decidiram que aquele amor, pequeno e frágil como todos os amores começam, esse seria para sempre, sim. Não só por causa das leis da igreja, dos homens ou da sociedade na empresa, que vai bem, obrigada, mas também porque foi assim que sonharam e vão zelar para que seja, apesar de exigir uma dose cavalar de paciência, tolerância, renúncia e, acima de tudo, inteligência.(*edição 1873 de 29 de setembro de 2004, página 22)imagem:http://www.jblog.com.br/vital.php?blogid=51&archive=2007-07
Postado por Vera Cascaes às 16:05 1 comentários
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>À mãe cansada

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A crônica que pediu vai por e-mail; foi publicada no meu “Cá entre Nós” do Caderno Mulher, lembra? O formato não caberia aqui.
Bem, seu e-mail é de uma sinceridade (quase) desesperada e acabou me trazendo para o teclado. Sei como você se sente e, tenha certeza, também consigo avaliar …
O mudo idealiza essa relação entre mães e filhos; é difícil admitir publicamente que, por um momento, estamos cansadas do ‘avental todo sujo de ovo’ e de falar aos peixes.
Quando me tornei mãe, confesso que não estava nem um pouco familiarizada com crianças e me sentia perdida. Morava em São Paulo e não tinha absolutamente ninguém para me ajudar, por outro lado, ninguém me atrapalhava. Ao telefone com minha mãe, me senti a vontade para chorar minha insegurança. E ela, sábia, me disse algo que nunca esqueci: “Vera, isso passa. Rápido. Eles crescem e daqui seis meses os problemas serão outros…” . E tem sido assim, sempre me lembro da frase.
Hoje os filhos permanecem em casa por mais tempo, estão priorizando carreira e até as moças ficaram avessas ao casamento precoce. Com isso, permanecem ‘filhos’ (com ônus e bônus) por uma jornada mais longa. E são raros os que lembram que mãe é mulher de carne, osso e hormônios e, graças a Deus, sente falta de uma porção de coisas…Inclusive privacidade.
Tenho certeza que você os ama, da mesma forma que amo a minha bebê de vinte e cinco, a questão é que, apesar de entendê-la, não sei exatamente qual a melhor solução.
Chega uma certa hora na vida da gente que estamos, todas, exaustas. Talvez aquelas que não vestiram o modelito de ‘mãezona’, que não levaram tão a sério a função de dona de casa, estejam muito mais relaxadas do que nós. Mas quem garante que, no fundo, não se penitenciem pela bagunça, pela casa sempre ‘meio limpa’ e os filhos ‘meio sujos’?
Imagino que, sendo mãe de vários e com um marido nada colaborador, você realmente deva estar quase entregando os pontos e, com o desânimo, imaginando quanto perdeu de sua vida.
Falar, falar, falar. Lá pelas tantas, ninguém nos ouve. E as toalhas continuam jogadas pela casa, os quartos eternamente em guerra civil; ninguém lava o carro que todos sujam, a louça se acumula na pia e as roupas ficam aos montes num cesto sem que alguém as leve até a máquina, pelo menos. E você ainda tem o relatório do chefe arrogante e o maldito churrasco de domingo com aquela sua cunhada que acha sempre uma receita melhor do prato que você passou a madrugada fazendo. Sei como é.
A Angélica Nancy sabe muito mais o que fazer, certamente. Eu, nessa minha mania de ter sempre uma opinião sobre tudo, acredito que esteja não só fisicamente cansada mas, principalmente, emocionalmente exaurida.
Ao silenciar, você permite que sua fúria se transforme em piada -“TPM, de novo?”- e em vez de ajudá-la, isso só piora as coisas. Que nessa casa ninguém lembra que você é uma linda mulher, é fato querida! Mas você não tem ajudado muito.
Férias em família, agora? Credo! Vá com uma amiga, permita-se esse tempo e espaço.
Reúna a tropa, e com o seu carinho, avise que a super-mãe está dodói e talvez não seja tão super assim. Abra o coração sem rancor e sem tentar identificar culpados.
Informe que vai dar a todos a oportunidade de crescerem, e desculpe-se pelos anos que arrumou camas de marmanjos e esfregou os fundilhos das lolitas; dos banhos que deu no cachorro e de ter cuidado de todos como se só você fosse capaz.
Vai ser duro, mas avise que cada um deve cuidar de si para que você tenha tempo e saúde de cuidar da mãe deles. A parte prática -dividir tarefas e outros que tais – isso você tira de letra. O mais difícil será deixar as coisas acontecerem. Lembre que antes de melhorar toda mudança parece piorar tudo.Volte-se um pouco para si e esqueça essas bobagens de não estar tendo amor pelos seus. Faltou foi por você mesma.
Tenha certeza que, no dia em tiverem a própria família, serão gratos por você tê-los preparado, e, melhor ainda, irão perceber que avó também não é emprego.
Boa sorte e um abraço amigo, mesmo.
Vera. (veracascaes@gmail.com)